Como colocado na justificativa, o campo dos “outros filmes” é relativamente novo e as primeiras iniciativas podem ser reconhecidas no final dos anos 1990, principalmente a partir dos trabalhos do teórico francês Roger Odin; da socióloga americana Patricia Zimmermann e do movimento desencadeado pela comunidade arquivística anglo-saxã que propõe a discussão em torno dos “orphanfilms”. Cabe ressaltar que nos anos 1990 surge uma série de inciativas no universo dos arquivos audiovisuais de valorização das imagens não canônica do cinema. Na França, foram criadas as primeiras Cinematecas Regionais, que interessadas em salvaguardar a cultura local, acabaram por se configurar como centros de preservação do cinema não profissional. Em 1994, teve lugar, no Nederlands Filmmuseum de Amsterdã, um seminário sobre os primeiros filmes de não ficção da história do cinema. Em 1997, foram iniciados os trabalhos na National Film Preservation Foundation, que assumiu como missão “salvar os filmes americanos que provavelmente não sobreviveriam sem investimento público”.
O interesse acadêmico e arquivístico sobre essas imagens acontece no mesmo momento. Se, de um lado, a academia passa a produzir teorias e métodos de abordagem para esse cinema que se encontrava, até então, à margem dos estudos cinematográficos, de outro, os arquivos audiovisuais começam a incorporar em suas agendas de trabalho a missão de salvaguardar e patrimonializar imagens entendidas como descartáveis. Assim, novos aportes teóricos e metodológicos desenvolvem-se concomitante a novas formas de arquivar e à criação de novos arquivos. Tendo como ponto de partida esse entrelaçamento, o ST “outros filmes” propõe como enfoque os filmes não-canônicos e as questões que colocam aos arquivos de imagens.
Nesse sentido, as pesquisas que nos interessam são, principalmente, aquelas que interrogam as imagens não apenas a partir do ponto de vista estético, mas também da sua materialidade, como imagens sobreviventes e migrantes que resistem, apesar de tudo, às ações do tempo e dos homens. Para nós, a “política das imagens” é como coloca Stuart Hall uma política da representação, um campo onde os sentidos estão em permanente disputa. Mas ela é também, uma política de seleção de visibilidade e permanência, nos arquivos e na própria história do cinema. O ST quer pensar também os filmes que estão acessíveis apenas ilegalmente e outros que ainda precisam ser descobertos; quer pensar os filmes que correm o risco de tornar-se permanentemente invisíveis devido a falta de recursos, negligência ou por conta da decomposição física do suporte material. Ao propor refletir sobre “outros filmes”, o ST quer revisitar o não-canônico com vistas a novas formas do fazer histórico.
Dentre as principais referências teóricas do ST estão investigadores que desde o início da década de 2000 promovem estudos originais nesse campo. Nos contextos europeu e anglo-saxão, podemos mencionar além dos já citados Patricia Zimmermann e Roger Odin (referências incontornáveis nos estudos do cinema amador), pesquisadores como Sylvie Lindeperg, Christa Blumlinger, Jean-Pierre Bertin-Maghit, Vicente Sanchez-Biosca e Antonio Weinrichter, que a partir de diferentes perspectivas desenvolvem trabalhos sobre a migração das imagens. Cabe destacar também os trabalhos de Dan-Streible e Nico de Klerk que conduzem a discussão em torno dos “filmes órfãos” e “efêmeros”. No Brasil, podemos citar os trabalhos de Andrea França e Consuelo Lins, que nos últimos anos desenvolveram pesquisas em torno do cinema silencioso brasileiro de não ficção e dos filmes amadores, propondo também novas abordagens metodológicas para esses objetos. Por fim, é importante mencionar que no Brasil a temática tem atraído principalmente pesquisadores das novas gerações interessados em questionar o contexto de produção, os processos de patrimonialização e os caminhos migratórios dessas “outras imagens” do passado e do presente.
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