Itinerário de uma espectadora

Mariarosaria Fabris

 

Meu boa noite a todas as pessoas presentes e meu agradecimento à SOCINE pela homenagem. Quando recebi a notícia desta homenagem (por intermédio de meu querido amigo Pedro Plaza Pinto), vieram-me à mente os primeiros versos de “João e Maria”, de Chico Buarque e Sivuca – “Agora eu era o herói / e meu cavalo só falava inglês” –, versos que me sugeriram fazer um retrospecto de como nasceu meu interesse pelo cinema, desde minha infância passada na Itália, talvez influenciada por uma nova leitura de “Autobiografia de um espectador”, de Italo Calvino.

Prometo ser mais sucinta do que o escritor, mas, assim como ele, foi enquanto pequena espectadora que me deixei encantar pelo cinema e, nas brincadeiras de criança, minha irmã e eu não éramos heroínas – quando muito mocinhas sui generis – e nossos cavalos de pau não sabiam falar inglês, porque nos filmes, estrangeiros ou  nacionais exibidos em meu país de origem, todos eram dublados, inclusive os cavalos, que relinchavam em italiano.

Os enredos das fitas assistidas – muitos bangue-bangues, histórias bíblicas e mitológicas, filmes históricos e de capa e espada, comédias e mais comédias americanas, italianas e mesmo locais (ou seja, napolitanas), frequentemente inspiradas em canções de sucesso – eram por nós reproduzidos nas brincadeiras com nossa turma, predominantemente masculina. E o prazer propiciado pelo cinema (herança materna) prolongava-se nos livros ilustrados com imagens dos filmes que haviam inspirado – Os cavaleiros da Távola Redonda (Richard Thorpe), adaptação da saga do rei Artur, e Quatro destinos (Mervyn LeRoy), baseado na trilogia de Louisa May Alcott – e num pequeno volume intitulado Storia del cinema mondiale [História do cinema mundial], que o papai introduziu na nossa biblioteca, cujos fotogramas revelavam um cinema diferente do que estava acostumada a ver, duas ou três vezes por semana, nas telas das salas populares.

Dentre os filmes assistidos na infância, muitos eram italianos, por isso, ao chegar ao Brasil, estranhei ao descobrir que minhas coleguinhas de classe não viam cinema nacional. Os primeiros filmes brasileiros a que assisti foram É fogo na roupa (Watson Macedo), no cine Lar, e O pagador de promessas (Anselmo Duarte), no cine Astor. Embora eu só arranhasse o português, pois tinha chegado a São Paulo há uns seis meses, fui fulgurada pelo vencedor da Palma de Ouro, não pela realização em si, mas pela interpretação de Leonardo Vilar. Quando, na escadaria da igreja do Passo, ao receber a notícia de que poderá pagar sua promessa num terreiro de candomblé, Zé do Burro se virava para a câmera e exclamava “Mas não é a mema coisa”, entendi que a nova realidade em que havia adentrado, em muitos aspectos era diferente das experiências culturais vividas até então e eu precisava me apropriar dela. Eu e minha irmã. E, feito o pacto de não viver como exiladas na terra estrangeira que nos havia acolhido, mergulhamos em sua cultura, sem abdicar daquela de nossa terra natal.

Nos anos a seguir, continuei como espectadora, uma espectadora privilegiada, pois minha postura em relação ao cinema (como a de Calvino) foi mudando com o passar do tempo, uma vez que eu lia críticas em periódicos de grande circulação, seguia conferências e cursos livres, frequentava outros circuitos, ia formando avidamente minha bagagem cinematográfica.

Enquanto isso, iniciava minha carreira acadêmica na Área de Língua e Literatura Italiana, onde atuei até me aposentar da Universidade de São Paulo. Na disciplina sobre neorrealismo literário, que cursei no Mestrado, fui encarregada de dar uma aula sobre o neorrealismo cinematográfico, experiência que me levou a querer aprofundar meus conhecimentos e passei a cursar algumas disciplinas na Escola de Comunicações e Artes: sobre a Vera Cruz, com Maria Rita Galvão – pela presença de profissionais italianos, o que me levou a analisar Uma pulga na balança (Luciano Salce); sobre as ideias de Paulo Emilio Salles Gomes, muito debatidas naqueles anos 1970, com Zulmira Ribeiro Tavares, a quem apresentei um texto sobre Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (Hector Babenco); sobre não lembro mais o quê, de novo com Maria Rita e com Jean-Claude Bernardet, porque seu conteúdo foi substituído por discussões sobre textos dos quais se originou o volume Cinema: repercussões em caixa de eco ideológicas (1983), que iria integrar a coleção da Brasiliense “O nacional e o popular na cultura brasileira”.

O contato com Maria Rita, Zulmira e Jean-Claude determinou meu projeto de pesquisa, e assim decidi estudar o diálogo entre o neorrealismo e o cinema brasileiro, projeto que se concretizou só no Doutorado, pois percebi que antes deveria conhecer melhor a corrente italiana. E foi a ela que me dediquei no Mestrado.

Jean-Claude eu já conhecia pelas críticas em periódicos e por alguns cursos livres que ele ministrava. Maria Rita e Zulmira, assim como minha irmã, Gilda de Mello e Souza e outras intelectuais, me mostravam que mulheres podiam destacar-se em campos do saber predominantemente masculinos. A essas figuras juntou-se a de Ismail Xavier, quando me candidatei a uma vaga no Doutorado em “Artes: cinema”, depois da recusa de Maria Rita Galvão, receosa de que eu não pesquisaria o cinema brasileiro, fato de que se penitenciou posteriormente, durante minha defesa de tese.

Meus estudos cinematográficos sistemáticos iniciaram no Doutorado, pois Ismail, diante da heterogeneidades de seus orientados, dos quais apenas um egresso da área de cinema (o esfuziante Tunico Amancio, meu caro amigo desde então), resolveu nos dar um longo curso paralelo, com leituras teóricas, apresentação de filmes, debates, que foram consolidando meus conhecimentos. Foi neste período que comecei a produzir textos mais consistentes, como o que escrevi sobre O rei do baralho, de Julio Bressane, para a disciplina de Ismail, e sobre Pai patrão, dos irmãos Taviani, para a de Robert Stam, com o qual fiz também um curso extracurricular. Não foram meus primeiros textos, mas os anteriores eram mais exercícios de escrita. E sempre neste período, uma breve temporada na Itália como bolsista, propiciou-me o encontro ou o reencontro com filmes neorrealistas ou anteriores, que me fizeram lembrar de muitas coisas vistas e discutidas durante as aulas de Maria Rita a quem eu enviava longas cartas com minhas impressões. Em outra breve temporada de estudos na Itália, em meados dos anos 1990, continuei minhas pesquisas sobre a cinematografia daquele país.

Apesar do Doutorado, colaborei esporadicamente com o curso de cinema da ECA, não tive portanto, nesta área, uma grande experiência como docente, o que lastimei, porque me faltou o indispensável diálogo com os alunos. Como minha área de atuação continuava sendo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, havia criado e segui criando algumas estratégias para continuar focada em cinema: dei vários cursos livres sobre cinema italiano em minha unidade, de cinema francês contemporâneo num clube de Pinheiros e de cinema italiano contemporâneo em Niterói, participei de congressos com comunicações sobre a sétima arte, introduzi debates sobre filmes em minhas aulas de língua italiana (minha ex-aluna Gabriela Kvacek Betella, hoje na SOCINE, é testemunha disso), criei a disciplina optativa “Literatura italiana e cinema”, ministrei disciplinas de pós-graduação sobre neorrealismo, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, credenciadas na FFLCH e na ECA, unidade onde também orientei mestrandos e doutorandos.

Integrei grupos de estudos e/ou de debates, como o coordenado pelo diretor argentino Mauricio Berú, o da Cinemateca, o de História e Cinema na ECA. Continuo me entusiasmando com o seminário anual Cinema em Perspectiva, em Curitiba. Ademais, recebi outros estímulos. Atendendo à solicitação do escritor Airton Paschoa, nos últimos tempos, passei a colaborar com o site “A terra é redonda”, publicando antigos textos revistos e/ou ampliados e artigos inéditos. Anteriormente, Carlos Augusto Calil, na qualidade de diretor do Centro Cultural São Paulo, convocou-me três vezes para colaborar em eventos sobre cinema italiano; fui convidada para três Seminários de Cinema em Salvador, da primeira vez por solicitação de Nelson Pereira dos Santos; participei de dois livros organizados por Fernando Mascarello (o segundo, também por Mauro Baptista); colaborei com Gisella Cardoso Franco, que organizou o ciclo “Olhares neorrealistas” no Centro Cultural Banco do Brasil; com Flavio Kactuz, responsável pela mostra “Pasolini ou quando o cinema se faz poesia e política de seu tempo”, sempre no CCBB; com José Gatti, curador do pequeno festival de cinema latino-americano “Nuovissimo”, apresentado num centro cultural nos arredores de Lucca, para o qual escrevi um texto intitulado “Anni di sogni e di sangue”, título que pedi emprestado a um verso de “A palo seco”, de Belchior: partindo de minhas lembranças de espectadora de filmes e dos fatos históricos dos anos de chumbo, tentava explicar ao público italiano o que havia sido aquele período na América do Sul e principalmente no Brasil. Neste ensaio, mais uma vez, como havia acontecido na tese de doutoramento sobre Nelson Pereira dos Santos, eu me colocava o desafio de escrever sobre a cultura brasileira.

Nessa minha trajetória, a SOCINE – Sociedade Brasileira de Cinema, como se denominava em 1996, ano de sua criação, ocupou um lugar de destaque, porque a participação intensa em suas atividades propiciou-me vários momentos de aprofundamento nos estudos cinematográficos. Na SOCINE, ocupei vários cargos, dentre os quais a Presidência (2002-2003), mas o que me deu mais prazer foi a organização de cinco volumes de anais (2003-2005, 2011), porque representou para mim um grande aprendizado.

Peço desculpas se me delonguei demais, mas não queria estar sozinha esta noite, neste palco. Por isso trouxe a memória dos que caminharam junto comigo nessa estrada que levou a pequena espectadora a se transformar numa pesquisadora. Ao receber esta homenagem, quero prestar minha homenagem a todas as pessoas que ajudaram a forjar meu pensamento crítico. Muito obrigada a todos.

Agradecimentos de Mariarosaria Fabris pela Homenagem Socine

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