Segundo o pensamento budista nada é fixo, nada é permanente, a verdade, a vida, as pessoas, tudo está em constante processo de transformação. Por conta disso, o compositor John Cage observa que o mundo, a realidade, não poderia ser encarada como um mero objeto pelo artista, mas somente enquanto um processo.
“(…) precisamente, o mundo. O Real. Você diz: o mundo como ele é. Mas ele não é, torna-se! Ele se move, ele muda. Não nos espera mudar (…). É mais móvel do que você pode imaginar. Você se aproxima dessa realidade quando diz que “ele se apresenta”, que não existe como um objeto. É um processo.” (CAGE, 1981, p. 80-81)
Pretendemos analisar como por vezes processos artísticos estão intrinsicamente conectados à vida (aos processos de vivência) de alguns dos realizadores cujas obras fazem parte do chamado Cinema de Invenção. Como ponto de partida, analisaremos algumas obras, escritos e reflexões de Cristina Amaral, Jairo Ferreira, Luiz Rosemberg Filho e Andrea Tonacci.
Jairo Ferreira possuía uma relação pessoal com alguns dos realizadores sobre os quais escreveu em seu livro Cinema de Invenção, e esse aspecto subjetivo resultou muitas vezes em uma cumplicidade declarada. A dimensão afetiva que pode muitas vezes envolver essas relações é escancarada quando, no capítulo sobre Luiz Rosemberg Filho, ao invés de constar uma análise mais aprofundada de sua filmografia, Jairo simplesmente seleciona trechos da extensa correspondência – e que escancara a paixão e a necessidade de se viver o cinema – que ambos trocaram durante anos de amizade.
O poeta e ensaísta Claudio Willer escreveu, acerca da relação de Jairo Ferreira com os cineastas abordados em seu livro, que “sua participação pessoal nesta reciclagem não é uma circunstância, mas sim uma adesão pautada por princípios estéticos e ideológicos” (WILLER in FERREIRA, 1986, p.11), e prosseguiu:
“Dentro da ótica cine-poética de Jairo Ferreira (…) assim como para alguns dos avant-gardistas franceses, experimentalistas soviéticos e undergrounds americanos, o importante não é a obra, mas sim a vida, o gesto de ousadia, ruptura e transgressão.” (WILLER in FERREIRA, 1986, p. 11). Podemos aferir que tal proposição de Willer remete a máxima de seu amigo e parceiro de geração, o também poeta (e maldito) Roberto Piva: “só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”.
Expressões como “parceria”, “cumplicidade artística”, “encontro” são frequentemente utilizadas para tentar definir o tipo de relação que se estabelece durante os processos das obras realizadores da verve de Tonacci, Jairo e Rosemberg. A montadora Cristina Amaral, sobre sua parceria com Andrea Tonacci, declarou que:
“Nem dá para chamar de trabalho, porque é a nossa vida. Tenho a sensação de andar em um labirinto sem seta, de pisar em areia movediça. Tem que se permitir se perder.” (em depoimento a Miguel Arcanjo, sobre seu processo de trabalho).
Podemos pensar uma obra como um pequeno nascimento e seu término como uma pequena morte, como percurso singular, de formação e transformação, como vida a ser vivida. Luiz Rosemberg Filho declara no curta metragem O cinema segundo Luiz Rô (2013, realizado por Renato Coelho), que “o cinema é tão maior do que tudo” e que “o cinema é um gesto afetivo, profundo e que tem gozo. O gozo do cinema é o filme”.
A partir das reflexões aqui indicadas, bem como da ideia livre de “sintonia”, ou “sintonias”, tal qual proposta por Jairo Ferreira em seu Cinema de Invenção – sintonia existencial, sintonia experimental, sintonia intergalaxial, sintonia visionária – desenvolveremos a comunicação aqui proposta.