Norma Bengell (1935-2013) e Patrícia Galvão (1910-1962) foram artistas de uma assertividade aguda, em seus campos de atuação e lutas políticas, mas foram reconhecidas pela visão estereotipada de “musas”, envolta em uma aura mítica, tendo enaltecidos atributos físicos ou aspectos superficiais de suas personalidades, e não a importância de suas obras, como é recorrente em uma sociedade patriarcal, quando se trata de mulheres de destaque. Tida como “símbolo sexual”, Bengell era referida como a “Brigitte Bardot brasileira” e, embora tenha atuado em 83 filmes, frequentemente era lembrada pelo primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Patrícia Galvão produziu um volume profícuo de textos de crítica literária, desenhos, crônicas, romances, manifestos, poemas, peças teatrais, tendo sido detida 21 vezes, por sua postura política, mas passou anos sendo vista como a “musa modernista” ou como “a mulher de Oswald de Andrade”, quando não de modo pejorativo, por conta do casamento anterior deste com Tarsila do Amaral.
Norma e Pagu “se encontram” no filme Eternamente Pagu, da cineasta Bengell, de 1987. O presente trabalho visa compreender o filme como parte do projeto feminista da cineasta, por meio da análise poética da obra, confrontando posturas de Pagu e da própria Bengell, relativas às questões de gênero, com os períodos políticos em que produziram, igualmente marcados por regimes autoritários (Era Vargas e Ditadura militar), buscando ainda paralelos com as fases do movimento feminista brasileiro.
Nascido com a luta pelos direitos políticos da mulher, tal movimento levou à discussão de seu direito ao voto, não aprovado para a Constituinte de 1891. A República brasileira, então institucionalizada, foi regida pela influência das oligarquias paulista e mineira, cujas famílias formavam filhas em universidades, de onde surgiram, controversamente, vozes contra a opressão da mulher. Nesta fase, portanto, apenas uma classe minoritária de mulheres tinha espaço expressivo, o que levaria a críticas ao movimento feminista burguês, por parte de autoras como Heleieth Saffiotti e a própria Patrícia Galvão.
A partir de 1910, as classes média e operária começam a despontar, instaurando uma cultura urbana, que incluiu greves proletárias (1917), a fundação do Partido Comunista do Brasil, a Semana de Arte Moderna (ambos em 1922), em defesa de uma arte brasileira que rompesse com os cânones europeus. É neste contexto que desponta a figura de Pagu, que não participou daquela Semana, pois tinha apenas 11 anos de idade, mas colaborou com a Revista de Antropofagia já em 1928, quando passa a frequentar as reuniões promovidas por Tarsila e Oswald, com quem viria a se casar em 1930, ano marcado pela Revolução que culminaria na Era Vargas. Pagu passa a militar pelo Partido Comunista, em 1931, quando é presa pela primeira vez em uma greve em Santos. Em 1933, viaja pelo mundo, vindo a ser presa em Paris, em 1935, conseguindo ser repatriada. É presa e condenada diversas vezes na vigência do Estado Novo. Em 1949 tenta pela primeira vez o suicídio. Vem a falecer de câncer de pulmão, em 1962, aos 52 anos de idade.
Norma Bengell teve intensa atuação como vedete no Teatro de Revista carioca e no cinema nacional, entre as décadas de 1950 e 1970. Em 1969, quando estava em cartaz no Teatro de Arena, foi sequestrada, e levada ao DOI-CODI, onde foi interrogada acerca da suposta subversão no teatro nacional. Diante desta perseguição política, autoexila-se na França, em 1971, onde participa de coletivo e rede feminista internacional, ligada a mulheres que filmavam mulheres e suas histórias. De volta ao Brasil, em 1975, intencionando engajar-se em um projeto semelhante, torna-se diretora de cinema, lançando três curta-metragens relativos ao tema. No início dos anos 1980, começa a dedicar-se ao projeto sobre Pagu, personagem que este trabalho defende ter muitas afinidades com a própria cineasta que a cinebiografou. Bengell vem a falecer em 2013, vítima de câncer de pulmão.