Nos últimos anos surgiram novas oportunidades para compreender o fenômeno dos filmes de sound system, principalmente aqueles oriundos do Sul Global. O título desta comunicação se refere ao arranjo audiovisual dos filmes, o que significa considerar o filme como um todo, uma composição de som e imagem. No filme convencional existe uma hierarquia que confere à imagem uma dominância audiovisual, mas se nos eventos de sounds há uma dominância sônica sobre um lugar (Henriques, 2020), como isto acontece nos filmes?
O som dos documentários sobre os sounds pode se afastar da expectativa de veracidade (Vidigal, 2008), porque a trilha musical é muitas vezes pós-sincronizada sobre cenas de rua. Isso acontece porque é muito difícil gravar eventos de sounds diretamente de forma não distorcida, o que faz com que a maioria destes documentários adote o formato de videoclipe, onde o som das canções está também em primeiro plano, alternado com entrevistas.
Este é o caso de dois curtas-metragens que vamos analisar, “Más Fuerte” e “Word, Sound, Power”, produzidos no contexto do projeto de pesquisa Sonic Street Technologies (SST), coordenado por Julian Henriques na Goldsmiths, University of London, do qual também faço parte. Este projeto visa mapear a distribuição e a história dessas “máquinas musicais móveis” (Henriques e D’Aquino, 2025) pelo mundo, para “investigar as condições sociais, econômicas e culturais que as originaram; e alcançar uma compreensão mais profunda da natureza da tecnologia em si e de seus usos” (SST, 2021).
“Más Fuerte” aborda os sound systems de música latina embutidos em carros na República Dominicana e geridos por dominicanos nos Estados Unidos. O curta-metragem procura reproduzir na mixagem o efeito do som altamente amplificado, principalmente nas frequências graves, fazendo com que elas “vibrem” as imagens. O desenho de som, que quase nunca se vale do som direto, também apresenta características semelhantes aos de filmes de ficção, ao abafar o som das caixas quando a câmera se distancia delas.
“Word, Sound, Power” tem um sentido mais político, documentando o sound system El Gran Latido (A Grande Batida) nas manifestações em apoio à greve geral contra o governo colombiano em 2021. Ele se vale do que chamo de “endoclipes”, trechos equivalentes a videoclipes, sem som ambiente, com “dubplates” (Vidigal, 2022), faixas exclusivas do EGL. Quando um integrante do sound sobe a agulha do disco, a música cessa, a imagem treme, o som ambiente entra e o MC manda sua mensagem, finalmente por meio de som direto. É fácil perceber a diferença entra as duas abordagens no filme e distinções entre os dois filmes, mas a dominância sônica dos sounds se impõe sempre.
Nosso sentido de audição é crucial para que o corpo humano se oriente no espaço, nossa pele também “ouve”. Este mesmo corpo é protegido na cadeira da sala de cinema ou da sala de casa, mas ainda assim o som mixado e montado em um filme pode desorientá-lo.Tal coisa pode acontecer porque um dos objetivos dos filmes de sound systems é causar sensações semelhantes ao aparato concreto, principalmente no aspecto físico. Isso pode ser exemplificado pela experiência dos maranhenses com as radiolas, sound systems de reggae locais, ao dizerem que a boa radiola “faz a camiseta tremer“. Os dois filmes atingem este intuito.
Se o som no audiovisual incorpora uma sensação tridimensional a um meio bidimensional, os filmes de sound systems fazem isso e muito mais. Ao inverter a hierarquia audiovisual, fazendo com que muitas vezes o som tenha a primazia sobre a imagem, a fazendo vibrar ou tremer, amplificam concretamente o principal objetivo geopolítico do Sul Global, que é romper com a sua exclusão histórica, por conta do racismo estrutural e da extrema assimetria social entre os países. Tais hierarquias de poder, que favorecem as potências europeias e norte-americanas, são desestabilizadas simbolicamente pelos sound systems por meio da dominância sônica, seja nas ruas ou nas telas.