Este trabalho busca compreender o cinema Tikmũ’ũn_Maxakali como prática de salvaguarda da memória, em que o gesto de filmar não se reduz à representação de uma cultura, mas opera como forma ativa de continuidade e atualização de vínculos com os yãmîyxop, os mortos, a terra e os saberes ancestrais. Ao invés de aderir a uma lógica narrativa linear e documental ocidental, os filmes realizados por Isael Maxakali, Sueli Maxakali e seus parentes constroem-se a partir da circularidade, da repetição ritualística e da convivência — modos de enredar passado e presente num tempo espiralar.
Inspirado na concepção de tempo proposta por Leda Maria Martins, este estudo propõe que a salvaguarda da memória no cinema Maxakali não se dá como arquivo morto, mas como presença performada: cantar, contar e filmar são gestos que mantêm vivos os laços com os ancestrais e com o mundo dos yãmîyxop. A memória, nesse contexto, não é abstração, mas corpo, voz, imagem e território. Ela se inscreve nos cantos, na respiração do mato, na caminhada da câmera junto aos corpos. A câmera torna-se, assim, parte da malha sensível de relação que sustenta a vida coletiva — e não um instrumento externo de captação ou controle.
Nos filmes Tikmũ’ũn_Maxakali, o ato de filmar é inseparável do ato de lembrar. Os cantos gravados, montados e projetados funcionam como tecnologias de continuidade, em que os saberes compartilhados oralmente se atualizam para as novas gerações. A memória se reencarna nas imagens e nas vozes que ecoam o tempo dos mais velhos, e a câmera opera como uma espécie de corpo-espírito, que participa da cena e escuta o tempo ancestral. Nesse cinema, o passado não é algo que se foi: ele permanece em retorno, em variação, em transformação — em presença.
A Aldeia-Escola-Floresta, onde se formam jovens cineastas indígenas, é parte desse processo ampliado de salvaguarda viva da memória. O cinema, aqui, não aparece como instrumento posterior ou reflexivo sobre a retomada territorial, mas como parte integrante dela. Filmando-se as histórias, cantos e modos de vida, replantam-se os saberes. O cinema torna-se território, gesto pedagógico e espiritual, compondo com a floresta, com os mais novos e com os mortos. Em vez de representar o mundo Tikmũ’ũn_Maxakali, os filmes o fazem existir e persistir — nos corpos, nos ritmos e nos modos de ver.
O conceito ocidental de patrimônio imaterial, ainda que útil em alguns contextos institucionais, é aqui radicalmente deslocado. Não se trata de “preservar” algo fixo, mas de fazer viver algo em constante movimento, repetição e atualização. O cinema Tikmũ’ũn_Maxakali salvaguarda porque canta, porque encarna, porque se deixa atravessar pelos yãmîyxop. Nesse sentido, a imagem não documenta a memória, mas a prolonga; não fixa os saberes, mas os reencena, dando-lhes novo fôlego.
Conclui-se, portanto, que o cinema Tikmũ’ũn_Maxakali opera como uma forma radical de salvaguarda da memória que recusa os moldes coloniais e institucionais de fixação cultural. Ao inscrever os cantos dos yãmîyxop, os gestos da floresta e as histórias do povo em imagens que são também corpos em relação, seus filmes nos convidam a pensar a imagem como prática viva, situada e coletiva de reexistência. Nesse cinema, lembrar não é apenas manter o passado, mas renovar os vínculos que sustentam o presente — e, assim, continuar a sonhar com o mundo.