Muito das narrativas e temáticas de produções audiovisuais latino-americanas da contemporaneidade se passam dentro de um contexto de representação de histórias e relatos jornalísticos a partir da violência acontecida dentro das grandes cidades. “O excesso de realidade e o excesso de imagens compõem o nosso ambiente cotidiano” (Hildenbrand; Salztrager, 2021, p.206). Em “Visões da violência no cinema urbano latino-americano”, Geoffrey Kantaris (2005) aborda o tema por uma perspectiva da cidade e de sua posição espacial e política dentro de um cenário global capitalista aprisionado em uma temporalidade distinta, mediada, em grande parte, por um excesso midiático de criação de imagens e sensações.
A cultura folhetinesca latino-americana e sua emotividade excessiva acabam por contaminar e produzir uma forma de relação em que a naturalidade ou objetividade de um fato careceriam de alguma dramaticidade na sua forma de registro. Não deixa de ter a ver com a ideia de performance (Taylor, 2013), em destaque a midiática, por meio de programas sensacionalistas, ditos jornalísticos, muito comuns na grade das emissoras, em que a exploração da violência é dramatizada pelos apresentadores, quase sempre teatrais em seus gestos e vocabulário, em uma atuação performática excessiva e violenta, responsável pela valorização de uma cultura do medo, capaz de sedimentar a proliferação de discursos de ódio e de soluções “fáceis” para a resolução do problema.
No século XX, discursos, relatos e histórias pessoais sobre violência recorrem à linguagem do melodrama, que é mais convincente do que versões descritas como frias ou falsas, devido ao seu desejo de objetividade. “As impressões chocantes da cidade indefesa, encurralada num beco, aguardando a facada terminal, são esbanjadas. É óbvio: ainda são necessárias metáforas de novelas que antecipem crimes sem precedentes” (Monsiváis, 2006, p.40).
Ao estabelecer apropriações imagéticas pertencentes ao campo dos gêneros cinematográficos, criam-se abordagens que pensam e perpassam outras estratégias, em um registro, a princípio, não óbvio ou objetivo, que talvez gere e crie um efeito na audiência, no público, nos espectadores, até mais impactante e eficaz, por justamente ser capaz de emitir um discurso, uma ideia, por vias aparentemente não convencionais. Pensemos sobre de que maneira um estilo fílmico do excesso, do artifício, podem tratar de temas sociais relevantes, como a violência, desigualdade e medo. Questões do cotidiano e de âmbito e discussões coletivas que são, geralmente, apresentadas de formas “realistas”, muitas vezes documentais, até. É uma aproximação válida; mas não a única.
Pela chave do excesso, do emotivo e do grotesco, nas manifestações de horror e melodrama, acredita-se ser possível levar em consideração todas estas possibilidades audiovisuais. Ou seja, não se trata de uma noção de escapismo ou de algo distante; esses gêneros cinematográficos, por muito tempo associados e restritos apenas a uma esfera do fantástico (principalmente o horror) e superficial (melodrama), e comumente considerados, pela crítica e academia, como menores ou sem expressividade e relevância artística, acabam por demonstrar, na contemporaneidade, por meio de filmes como Propriedade, vias potencializadoras de transformação, debate, discussão, compreensão e reflexão, acima de tudo. Daniel Bandeira consegue compor, dessa forma, uma obra que equilibra bravamente aspectos de um modo de excesso (Williams, 1995) – tanto no âmbito técnico, por meio da fotografia, direção, musicalidade e montagem, quanto no temático – com uma perspectiva histórica e realista de uma sociedade latino-americana forjada a partir da violência e brutalidade (Monsiváis, 2006). Afetar-se, chocar-se e emocionar-se a respeito de conflitos, acontecimentos e desafios da atualidade é uma estratégia de se encarar o mundo por um viés emotivo e pensante, artificial e excessivo.