Foi durante uma viagem a trabalho para Porto Alegre que a pesquisadora teve a oportunidade de iniciar uma jornada de pesquisa em torno de Um É Pouco, Dois É Bom (1970), longa-metragem que, dividido em duas histórias, sofreu o fato de ter sido telecinado pela metade no projeto Obras Raras – O Cinema Negro da Década de 1970 (Fundação Palmeres e Centro Afrocarioca de Cinema, 2006), decisão que influenciou a forma como o filme de Odilon Lopez passou a (não) ser reconhecido na história do cinema brasileiro e, particularmente, do cinema negro.
Assistido à cópia remanescente em 35mm na Cinemateca Capitólio, o próximo passo era conhecer os roteiros salvaguardados pelo arquivo da instituição e encontrar Vanessa Lopez, filha do diretor e responsável, junto ao seu irmão Juliano Lopez, pela preservação da memória de Lopez. Na ocasião, Vanessa relatou haver um material em sua casa que nunca havia mexido, mas que acreditava não ter muito o que fazer com ele. Em sua casa, nos deparamos com uma diversa quantidade de mídias, entre VHS, rolos de Super-8, fotografias e outras peças do acervo familiar.
Durante o visionamento dos VHSes, a pesquisadora se deparou com dois tipos de materiais: o primeiro, um longa-metragem, que chamaremos de ‘Odilon’, conforme identificado na etiqueta do suporte, com imagens telecinadas de materiais em Super 8, em que Vanessa é, digamos, personagem principal, pois acompanhamos ela crescer até por volta de seus oito anos de idade; o segundo, uma série de animações, que nomeamos de Art&Tricks/Artemanhas, como assinado em alguns dos vídeos experimentais feitos com colagem, desenhos de Paint e material fonográfico do Windows 2000, sendo essas, provavelmente, as últimas obras de Odilon Lopez, que faleceu em 2002.
Um É Pouco, Dois É Bom, portanto, foi “só um fio” que nos conduziu a suportes e matérias, até então, inimagináveis.
Se antes o cenário de escassez (GOMES, 2021) era um elemento fulcral para pensar acerca da direção/autoria/presença/colaboração negra no cinema brasileiro, nos anima pensar que o que há nessa história é um nível de incompletude (inclusive, por dimensões materiais, históricas e econômicas) e desconhecimento que, ao invés de tentarmos sistematizar esse passado pelas vias convencionais, seria fundamental rearticular as bases ontoepistemológicas (FERREIRA DA SILVA, 2019) dos modos de narrar a autoria/presença/colaboração de profissionais negros no cinema nacional, vislumbrando abarcar as complexidades que se deparar com um acervo, como este, nos impõe. E ele não é único, ainda que bastante singular.
Sendo assim, neste trabalho, contextualizaremos o processo de restauração digital em 4K de Um é Pouco, Dois É Bom, realizada em 2024, por iniciativa da INDETERMINAÇÕES, Cinemateca Capitólio e Mnemosine Serviços Audiovisuais; faremos aproximações entre o material de Super 8 e o longa-metragem de ficção de 1970, e também analisaremos as performances de autorrepresentação presentes, de diferentes maneiras, nas obras do Acervo Odilon Lopez, embaralhando os “limites” entre ficção e documental.
Por meio de análises fílmicas, buscaremos refletir sobre a inventividade do(s) cinema(s) de Lopez, a dimensão do “arquivamento de si” (DA SILVA, 2011) em sua obra, acerca da singularidade de uma câmera de Super 8 em mãos negras, sobretudo quando pensamos no contexto de produção de filmes domésticos no Brasil, e como essas imagens nos auxiliam a pensar sobre os modos de narrar a história do cinema negro no Brasil.
Menos do que para ocupar o espaço de pioneira, a obra de Lopez nos interessa por apresentar elementos que nos desafia a alargar, recompor ou rasurar a ideia hegemônica do que tem sido enunciado como “cinema negro brasileiro”.