Este trabalho propõe uma reflexão sobre cinema comunitário a partir da trajetória do coletivo Maloka Filmes, formado por jovens cineastas LGBTQIAPN+ da periferia da Zona Sul da cidade de São Paulo. Com base nas práticas de criação, nas obras produzidas e em seus modos de circulação, busca-se compreender como essas experiências interpelam e reconfiguram relações entre cinema, memória, território, identidade e política pública.
Além da produção cinematográfica, a trajetória da Maloka inclui a websérie Babado Periférico (2015–2017), o Festival Perifericu de Cinema e Cultura de Quebrada e diversas ações formativas em laboratórios que fortalecem as quebradas como espaços de criação e diálogo. Tais práticas compõem o que Rosa Caldeira, um dos integrantes do coletivo, denomina “tecnologia comunitária de produção”, pois alarga a noção de cinema, tensiona fronteiras autorais e institui modos mais horizontais de criação.
Neste trabalho, a noção de territórios fílmicos refere-se ao conjunto de relações entre cinema, corpo e espaço vivido construídas pelo coletivo: o gesto de filmar se torna uma forma de inscrição territorial, de reivindicação de pertencimento e de invenção de mundos possíveis. Os espaços tais como aparecem nos filmes da Maloka não são apenas cenário: atravessam os modos de ver, contar e habitar, e configuram uma cartografia que questiona as fronteiras entre centro e margem, visível e invisível, memória e invenção. Nesse sentido, o cinema da Maloka se articula à noção de espaço como produção social (Lefebvre, 2013) e campo de disputa simbólica. Também se configura como prática de territorialização na qual se cruzam experiências de vida, crítica social, experimentação estética e memória coletiva (Pacheco, 2021; Zan, 2022; Fér, 2021).
Para este trabalho, foram analisadas as obras “Perifericu” (2019, 22′, dir. Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda, Vita Pereira), “Raízes” (2020, 72’, dir. Simone Nascimento e Well Amorim) – ambos premiadas em festivais nacionais e internacionais –, além do processo de produção e filmagem do curta “Mandinga” (em montagem). As análises fílmicas e a etnografia das práticas – com base em pesquisa participante desenvolvida entre meados de 2023 e março de 2025 – propõem uma escuta implicada e uma abordagem que entende o cinema como prática social situada e espaço de disputa epistêmica e política.
Proponho como chave de análise do trabalho do coletivo a ideia de “imaginação radical” (Hartman, 2022). Em contextos de apagamento histórico e violência epistêmica, a “imaginação radical”, aliada à “fabulação crítica” (Hartman, 2022), permite criar imagens, gestos e narrativas que desafiam o que é visível e dizível, e os limites de registros e arquivos oficiais, como cartórios e museus (instituições que figuram nos escritos de Hartman, e também em Raízes, por exemplo).
Assim como Hartman faz uma “fabulação crítica” em sua escrita, a Maloka, ao misturar documentário, ficção e performance, produz um cinema que “opera com e contra o arquivo” (Hartman, 2022), reconstituindo histórias perdidas, silenciadas ou distorcidas. “Perifericu”, “Raízes” e “Mandinga” incorporam essa lógica, desmontam a dicotomia entre ficção e documentário, performam memórias interditadas e constroem visualidades por meio de metodologias sensíveis, situadas e colaborativas.
Por outro lado, essas práticas expõem limites e desafios da relação desse modo não hegemônico de fazer cinema com políticas públicas e outras formas de financiamento (Bahia, 2023). Expõem, ainda, a necessidade de uma reflexão metodológica no campo acadêmico: como pensar e analisar determinadas formas de cinema sem descolar o gesto fílmico da experiência vivida da comunidade e do contexto material de produção?