“No cinema, a imagem que é projetada e o som é o projetor, no sentido em que este projeta valores e sentidos sobre a imagem”. (Chion, 2011, p.115).
O curta metragem “Meshes of the afternoon” (Tramas do entardecer, 1943, EUA), de Maya Deren e Alexander Hammid, inicialmente um filme silencioso, foi sonorizado pelo compositor Teiji Ito em 1952. Maya Deren, que se inseria na vanguarda do cinema norte-americano, constrói em seu filme uma abordagem surreal, mística e onírica, cuja narrativa se comporta como se fosse um pesadelo, com muitos elementos simbólicos e a temática dos duplos é a sua essência.
O filme trabalha elementos da linguagem cinematográfica, criando variações de enquadramentos, ângulos inusitados, slow motion, cortes no movimento, montagem das imagens com tensão crescente, ilusão de perda de gravidade, narrativa repleta de descontinuidades de todo tipo, repetições (leitmotiv) de cenas, numa estrutura espiralada com pequenas variações, concebendo uma falsa narrativa circular. A espiral gera tensão constante, pois as repetições aliadas às mudanças contínuas, não permite o repouso. Outra ferramenta recorrente da montagem são os jumps cuts, ou seja, saltos que provocam a quebra da continuidade no campo e contracampo e também no movimento, gerando ruptura e dando a sensação que os planos não estão continuados. A temática é surreal, assim como a forma de construir a narrativa, rompendo a verossimilhança constantemente.
Esse experimento audiovisual estabelece relações entre o visual e o sonoro, altamente tensivas e geradoras de instabilidade. Instaura um campo de forças entre som e imagem e um pensamento trans-sensorial, definido por Michel Chion (2011) como uma percepção que abrange ambos os sentidos, sem hierarquia, e, portanto, que não se refere a um sentido estritamente único. Desse modo, o ambiente fílmico, ao processar a audiovisualidade, possibilita que se construa uma percepção trans-sensorial. A banda sonora, música e ruídos, criada pelo músico Teiji Ito, só pode ser pensada na relação intrínseca com as imagens. Assim, como na estrutura das imagens, o compositor joga com a repetição e variação dos blocos de sons, alternando, de modo a produzir cada vez mais tensão.
A trans-sensorialidade, no campo perceptivo, instaura uma síncrese. A palavra síncrese, segundo Michel Chion (2011), surge da junção de síntese e sincronização, para se referir a fenômenos sensoriais e simultâneos, como imagem e som, percebidos numa coexistência única, como se fossem originados de uma mesma fonte, e ambos não conseguem existir separados, um sem o outro.
A percepção trans-sensorial é tão intensa que se reflete na maneira como o espectador apreende essa experiência audiovisual. Como uma espécie de contrato audiovisual, e a percepção sonora e a visual, embora díspares, “se influenciam mutuamente e emprestam uma à outra, por contaminação e projeção, as propriedades respectivas”. (Chion, 2011, p. 15). Chion nos situa ainda que, no “contrato audiovisual, uma percepção influencia a outra e a transforma: não ‘vemos’ a mesma coisa quando ouvimos; não ‘ouvimos’ a mesma coisa quando vemos.” (idem, p. 7).
O filme de Maya Deren ao processar um campo de forças, gerador de instabilidade, promove um efeito multiplicador de tensão; contamina a imagem e o som, e a força de ambos, impacta a montagem. Essa percepção além de sinestésica vai além da troca de sentidos. A relação não é apenas cruzada, mas é esvaziada de hierarquia entre som e imagem, pois o que importa é a comunhão sonoro-visual no fluxo do movimento. Assim a trans-sensorialidade se instaura no fluxo imagético-sonoro gerando um compósito.
A trans-sensorialidade atravessa a estrutura narrativa. O som demonstra ser o condutor de tensão das imagens. Por outro lado, percebe-se que ambos, imagem e som, divergem e convergem ao mesmo tempo em diferentes momentos. A percepção é de uma convivência dialética entre som e imagem, onde ambos os perceptos constroem os sentidos do filme.