A Oficina do Olhar surgiu como um espaço de experimentação com frequência semanal em que as crianças vivenciassem, através de brincadeiras, construção de brinquedos e manipulação de equipamentos fotográficos analógicos e digitais, as possibilidades do olhar, do registro da imagem e da construção de imagens. A fotografia, projeções, desenhos, brinquedos ópticos e obras audiovisuais tornam-se mediações para trabalhar a percepção do universo imagético e visual, e, através da luz, das cores, das sombras, de recortes e colagens, construir um olhar pro mundo, pro outro e pra si mesmas.
As oficinas são pautadas por dispositivos que pretendem envolver o grupo de pequenos criadores em torno de práticas de observação do ambiente, dos objetos, dos próprios corpos, através de brinquedos e jogos de olhar. Essa sensibilização pretende trabalhar os modos de ver, relacionando-se com os corpos, o espaço e objetos através da visualidade. Alguns jogos e vivências envolvem câmeras analógicas, digitais, experimentos fotossensíveis, telas de projeção e sensibilização através de vídeos, música, fotografia e outros elementos audiovisuais, mas muitas das práticas estão associadas a construções de traquitanas, caminhadas, construção de imagens com resíduos da natureza, pesquisas que atravessam o cotidiano escolar e das crianças, e que se articulam para dialogar com a produção ou fruição de imagens.
A intenção inicial era propiciar essas experiências através de ferramentas analógicas que desvinculassem a visualidade, o registro e a imagem, das telas digitais que nos permeiam. Assim, o olho e o ouvido, e, por conseguinte a visão e audição, seriam estimulados e através da imaginação – imagem, cor, gesto, movimento e palavra, articulados para olhar o mundo e a partir do que é visto, olhar a si mesmo no mundo. No fundo, a experiência seria permeada por ideias fotográficas e cinemáticas pois havia o objetivo que os registros de imagem e movimento se tornassem produtos fílmicos da experiência com as câmeras.
A realidade é mais poderosa que a ideia, e a curiosidade infantil, a atenção nos detalhes e processos, alertavam que o importante não eram os produtos ou objetivos a serem alcançados, mas sim para as possibilidades processuais de cada encontro, de cada desenho, de cada jogo ou brincadeira ou objeto com o qual se relacionavam, histórias que contavam, o quanto de caminhos e usos uma folha de papel ou um filme fotográfico podem proporcionar para uma brincadeira.
Desdobrou-se uma pesquisa permanente junto às crianças e educadoras em torno de uma série de materiais que compõem o universo da técnica e tecnologia da fotografia e do cinema: acetatos, transparências, caixas de papelão que se transformam em câmaras escuras, salas de cinema em miniatura, câmeras de TV de “mentirinha”, imagem e imaginação confundidas no brincar infantil e no fazer pedagógico. Dessas pesquisas brotaram também experiências com o digital, através de jogos de stop-motion, brincadeiras de narrar, e aos poucos, após mais de um ano e meio de encontros e vivências semanais, surgiram os primeiros filmes, a partir de ideias e do próprio desejo das crianças.
Em 2023, realizamos animações em stop-motion com botões, um documentário a partir de fotografias narradas, filmes poéticos a partir da obra de Manuel de Barros, e até um video-clipe de um rap composto e gravado pelas crianças e seus familiares, que foram exibidos em uma sessão de cinema na sala do Cine Santa, cinema de rua em Santa Teresa, Rio de Janeiro. Essas experiências audiovisuais entre educadores e crianças, bem como a relação com as famílias e o cinema do bairro, materializam um conjunto amplo e significativo de teorias que articulam o cinema e a educação. A documentação pedagógica desses processos, os filmes realizados, bem como o relato da experiência compõem o corpus do presente projeto de pesquisa.