Os termos “mãe” e “maternidade” abrangem uma multiplicidade de sentidos na contemporaneidade. O dito popular “Mãe só tem uma”, em vigor no Brasil pelo menos desde os tempos do Império, serve para reforçar, segundo Iaconelli (2023), a dificuldade de nossa sociedade em entender o que é uma mãe e as diferenças entre a chamada função materna e as dos(as) demais cuidadores(as) de crianças. O discurso maternalista, reproduzido pela psicanálise, pelo capitalismo e pelo patriarcado – com vistas à reprodução social –, tem reduzido há séculos o lugar de mulheres à função materna e ao trabalho doméstico não remunerado.
Analisando-se a reprodução social, de corpos e sujeitos à luz da reprodução de imagens no cinema brasileiro contemporâneo e também à luz do momento histórico e sociopolítico do Brasil entre os governos Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro, propõe-se uma investigação aprofundada do longa-metragem A Mãe (2022), do cineasta Cristiano Burlan. O trabalho integra uma pesquisa de mestrado em andamento sobre representações de maternidades no cinema brasileiro contemporâneo (2015-2022), que inclui, ainda, a análise dos filmes Que Horas Ela Volta?, Benzinho e Aos Nossos Filhos.
Em A Mãe, a protagonista Marcélia Cartaxo interpreta Maria, uma mãe solo, imigrante nordestina e moradora da zona leste de São Paulo, cujo filho adolescente Valdo desaparece sem deixar rastros. Ela, então, inicia uma saga pela vizinhança e pela cidade em busca da verdade e de justiça. A atriz contracena com Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio e ativista contra a violência policial no país, em uma obra na qual ficção e realidade se misturam. Segundo Burlan (2023), autor da Trilogia do Luto (Contrução, Mataram Meu Irmão e Elegia de Um Crime), o longa é inspirado nas histórias de Antígona, de Sófocles, e Mãe Coragem, de Bertolt Brecht. Também se baseia na dor de sua própria mãe, que perdeu um dos filhos em condições violentas, e de outras mães que cruzaram seu caminho. Ao retratar uma mãe que atravessa, diariamente, a cidade – um lugar que mais parece um campo de batalha – em busca do próprio sustento e do de seu filho, Burlan trata de temas que complexificam a maternidade solo: desestruturação familiar, apartheid social, racismo, insegurança, impunidade e truculência praticada por agentes da Polícia Militar, sobretudo contra jovens pobres, pretos e pardos. “Que dor pode ser mais profunda do que a perda de um filho?”, questiona o diretor.
Este trabalho busca analisar a maternidade sob uma perspectiva decolonial e contemporânea, e como ela vem sendo representada nas telas do cinema, com base no pensamento de autoras(es) como hooks (2023), Mayer e Columpar (2022), Machado (2019), Lusvarghi, Alvim e Nascimento (2018), Fischer (1996) e Kaplan (1992). Será que ser mãe ficou mais difícil, complexo e diverso nos últimos anos? Percebemos uma evolução ou um retrocesso em algumas questões (como identidade, cuidado, carga mental, solidão e rede de apoio)? Quais são os atravessamentos de marcadores sociais (como gênero, raça, idade, classe social e orientação sexual) que permeiam a vida de Maria e de outras mães no filme?
A Mãe estreou na programação da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 28 de outubro de 2022. A sessão no CineSesc teve participação do diretor, do elenco, de integrantes das Mães de Maio, de moradores do Jardim Romano, de críticos e convidados. O filme foi lançado comercialmente em novembro de 2022 e registrou um público de apenas 1.368 pessoas. Circulou, porém, por vários festivais e ganhou, no Festival de Gramado de 2022, os Kikitos de Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Desenho de Som. No 29º Festival de Vitória, levou os troféus de Melhor Filme pelo júri técnico e pelo júri popular, de Melhor Interpretação, de Melhor Direção e de Melhor Fotografia, além do Prêmio da Crítica. Estreou na televisão, no Canal Brasil, em julho de 2023, e ainda não está disponível no streaming.