No início da década de 1960, Lygia Pape, uma das maiores expoentes do neoconcretismo, desacelera sua produção, ficando praticamente sete anos sem produzir nem expor novos trabalhos. Em 1967, iniciando uma nova e intensa fase produtiva, ela lança La Nouvelle Création. Seu primeiro filme, La nouvelle também inaugura uma tradição de filmes de artistas que irá florescer nos anos 1970.
Mas o cinema não surge na vida de Pape em 1967. Como já demonstrei em outras ocasiões, em 1959, no auge de sua fase neoconcreta e pouco antes de desacelerar sua produção, ela desenvolveu um roteiro para um filme abstrato sobre a construção de Brasília. Antes disso ela também havia delineado projetos para filmes ou para “situações-cinema” envolvendo projeções.
Na segunda metade dos anos 1950, enquanto desenvolvia alguns de seus trabalhos mais conhecidos da época, a série de xilogravuras chamadas Tecelares, ela esboçou algumas propostas para “poemas cinemáticos”. Explorando apenas cor, luz e som, estes seriam filmes curtos, minimalistas, abstratos e não narrativos. Olhando-os de hoje, é notável o seu parentesco com o que viria a ser, quase dez anos depois, o cinema estrutura norte-americano. Com um projetor trazido de uma viagem a Europa também nos anos 1950, ela também trabalhou em um conjunto de “poemas-luz”, como ela os chamava, nos quais explorava um jogo de sombra e luz sobre pequenas superfícies de vidro pintadas, algumas das quais com palavras impressas.
A contemporaneidade entre os Tecelares e seus primeiros esboços para cinema não é uma coincidência. Embora a fisicalidade de uma xilogravura não pareça em nada próxima da imaterialidade da luz projetada, xilogravura e cinema estarão diretamente relacionados trajetória de Lygia Pape. Pois será pela via da xilogravura, a técnica de reprodução mais artesanal e rudimentar de todas, que a artista se abre ao cinema. “Eu fui cavando o preto até chegar ao branco, que me era, na verdade, o espaço externo. Ao terminar minha pesquisa em gravura, tinha chegado ao branco total. O final da escavação era a luz. (…). Foi assim que cheguei ao cinema, que é cor luz projetada.”
A xilogravura também a envia ao cinema por outros meios, mais literais. Em 1960, Amilcar de Castro a apresentou a Nelson Pereira dos Santos, que estava atrás de alguém que dominasse a técnica para fazer os letreiros de seu filme Mandacaru Vermelho. A experiência dá certo, e nos anos seguintes Pape colabora não apenas com Nelson, mas também com Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman e Arnaldo Jabor, fazendo letreiros ou cartazes para seus filmes. Trabalha nos laboratórios da Líder, diretamente sobre os copiões, na cozinha do cinema, por assim dizer, acompanhando e participando da feitura das principais obras do Cinema Novo.
Não é apenas uma colaboração. Nos próximos oito anos, com sua produção como artista paralisada, Pape envolve-se com o cinema de diferentes maneiras – diria, inclusive, que, mais que envolver-se com o cinema, Pape investe nele: seu trabalho como designer não é remunerado. Ela acompanha a programação da Cinemateca, estuda teoria da montagem em cursos no MAM-Rio, organiza sessões em sua casa – foi ali, ainda em 1959, a primeira sessão de Pátio, de Glauber Rocha. Nesse período tem suas primeiras experiências próximas da realização: colabora na montagem de um filme, hoje perdido, do diretor teatral e assistente de Glauber em Barravento, Alvinho Guimarães, chamado Moleques de rua, além de realizar uma vinheta para a Cinemateca do MAM, a convite de Cosme Alves Netto.
Nesta comunicação, pretendo retraçar a relação da artista com o cinema, desde esses primeiros projetos, passando por suas colaborações com o Cinema novo e a Cinemateca do MAM, até finalmente chegar a seus primeiros filmes finalizados.