“Norma Bengell, a mulher mais desejada do Brasil!”, assim começa a entrevista de Antônio Abujamra em seu programa “Provocações”, da TV Cultura, em 2010. “Você acha que por acaso eu exagerei?”, continua, “Não”, é a resposta de uma já idosa Norma Bengell. Em 1954 começava sua carreira, ainda menor de idade, nos espetáculos do Teatro de Revista de Carlos Machado. As matérias dos jornais usualmente destacavam sua beleza, em especial suas longas pernas e seus grandes olhos castanhos, era chamada de “Musa do Rebolado”.
Marcada por sua aparência e sensualidade, Norma Bengell iniciou sua carreira cinematográfica no filme O Homem do Sputinik (1959), de Carlos Manga. Sua personagem, a espiã francesa BB, é uma paródia burlesca de Brigitte Bardot, com direito a loiríssimos cabelos e biquinhos. Seu segundo filme, Os Cafajestes (1962), de Ruy Guerra, apresenta uma mudança radical não apenas em sua carreira, mas também no uso de seu corpo, aparecendo completamente nua em cena, mancando o primeiro nu frontal não apenas do cinema brasileiro, mas mundial. Em 1964, já com mais de 10 filmes em seu currículo, a maioria deles italianos, são seus grandes olhos de gata que marcam a atratividade enigmática da prostituta Mara, em Noite Vazia, de Walter Hugo Khoury.
Constantemente fragmentada, a mulher-objeto-de-desejo inscrito na imagem da femme fatale, na qual a personagem BB se encaixa, é uma articulação dos medos e ansiedades masculinas que veem na mulher a ameaça da perda do controle e da estabilidade (DOANE, 1991). É preciso mediar o olhar do espectador por meio da fragmentação de seu corpo, com o plano de suas pernas deslizantes que produzem desejo, mas a separa do sujeito que as balança. Ou é preciso puni-la por sua liberdade sexual, como em Os Cafajestes, cujo corpo nu de Leda é humilhado e violentado pela exposição. O carro, que violentamente a circunda, escancara a masculinidade problemática que se apropria da potência da máquina como extensão do seu falo e como subterfúgio para impor e estender seu controle sobre o feminino.
Em Noite Vazia, no entanto, uma noite de bebedeira e sexo fácil torna-se um momento de tensão e questionamentos existenciais. As mulheres que vendem seu corpo por dinheiro mostram-se questionadoras e complexas, até mesmo agressivas e inacessíveis. Luisinho, interpretado por Mário Benvenutti, tenta fugir de seus questionamentos e busca por meio de ofensas misóginas e do sexo recobrar o controle. A Mara, de Bengell, que protege sua nudez agarrada ao lençol, lança sobre ambos os homens um olhar questionador e silencioso que seduz, mas que denota a complexidade interior de um sujeito que não se pode acessar ou comprar.
Há, portanto, uma evolução do uso da sensualidade em seus filmes que marcam não apenas um amadurecimento artístico e intelectual, mas um maior controle sobre como seu corpo é exposto e representado. A consolidação de sua carreira lhe trouxe privilégios que lhe permitiam dizer aos diretores como gostaria de ser filmada.
Em sua autobiografia, publicada postumamente em 2014, diz ter visto surpresa na expressão de João Goulart ao perceber que a “vedetinha pensava” ao encontrá-la no exílio (BENGELL, 2014, P. 176). Exilada devido às perseguições políticas no Brasil e bem relacionada com o feminismo francês, influenciado por sua amiga Delphine Seyrig, a sua aproximação com o pensamento de esquerda trouxe uma politização que nunca mais a deixaria. Sua parceria com Delphine gerou o filme Inez, produzido por ambas, que denunciava a prisão arbitrária de Inez Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis. A musa, sempre admirada, é agora quem olha, aponta e critica.
Este trabalho propõe uma breve análise da evolução de Norma Bengell como atriz a partir do uso de seu corpo nos filmes O Homem do Sputnik, Os Cafajestes e Noite Vazia; sua evolução ideológica por meio de entrevistas cedidas no período; e como ela mesma representa o corpo feminino em seu primeiro filme na direção, Inez.