“Todo ou quase todo filme é montado, ainda que certos filmes comportem poucos planos e que a função da montagem esteja longe de ser a mesma para todos” (AUMONT, 1990, p. 169). A montagem ou edição cinematográfica é uma ferramenta de construção de linguagem estética e discursiva fundamental na prática do Cinema e Audiovisual. É a montagem que organiza a estrutura formal que será experimentada pelo espectador.
Mesmo na mais extrema relação de desordem de uma estrutura significante, tomando-se como parâmetro as estruturas narrativas fílmicas convencionais, há uma ordem articulatória que rege toda e qualquer perturbação paradigmática que é a montagem. A montagem, segundo esta reflexão, pode ser considerada como um dos procedimentos mais importantes para o entendimento e a compreensão do cinema de natureza estética, onde diferentes texturas são previamente pensadas e selecionadas (AUGUSTO, 2004, p. 53).
Desde principalmente a década de 1920, quando a noção de plano cinematográfico já estava consolidada, Sergei M. Eisenstein, Dziga Vertov e outros cineastas, já concebiam e teorizaram sobre a montagem das imagens em movimento. Eisenstein, em particular, concebia a montagem como uma forma de construção que expressava o próprio pensamento, ideia mais tarde retomada por Deleuze, Didi-Huberman e outros. Um ato, um gesto, uma ideia inicial, um movimento que inicia com o roteiro escrito, mas que não se atém a ele. Trata-se de um trabalho de experimentação, de busca, de troca com a direção. Portanto, a montagem não se restringe ao conhecimento técnico do montador para executar essa operação, mas é também uma forma de pensamento, de construção de temporalidades, de experimentação da ideia de ritmo, cor, som e espaços, texturas, o que procura instigar sensações e sentimentos nos receptores (audiência).
As imagens, quando colocadas em relação com outras, podem se transformar, criando novas ideias, indo além da noção de narrativa, da criação de um enredo. A montagem é considerada uma escrita artística, que pode se desenvolver de formas variadas. Neste trabalho de pesquisa abordaremos alguns tipos de montagem já consolidados por teóricos como a montagem intelectual (EISENSTEIN), montagem autoral ou de correspondência (DELEUZE, AMIEL), a montagem de atrações (EISENSTEIN), montagem narrativa ou cl.ssica (PUDOVKIN, XAVIER, AMIEL), a montagem proibida (BAZIN), a montagem relacional (PUDOVKIN), a montagem colagem (AMIEL), cada uma com suas especificidades.
Neste estudo inicial sobre a montagem, interessam-nos os filmes que fazem uso de material de arquivo, mesclados com planos produzidos por seus autores, mas não usados de forma hierática, como nos filmes de compilação (WESS,1993). Selecionamos dois filmes que indicam que a forma de uso dos materiais de arquivo tem mudado. São eles: Eami (2022) de Paz Encina e La última huella (2001) de Paola Castillo. Além da montagem corriqueira e constitutiva de uma estrutura narrativa audiovisual, experimental ou discursiva, estes filmes carregam entre seus materiais, imagens de arquivos que potencializam a criação de outras imagens. Imagens da dor, da separação, do esquecimento, do deslocamento, da rememoração. Além da montagem corriqueira e constitutiva de uma estrutura narrativa audiovisual, experimental ou discursiva, estes dois filmes escolhidos carregam entre seus materiais, imagens de arquivos que potencializam a criação de outras imagens. Imagens da dor, da separação, do esquecimento, do deslocamento, da rememoração. Os arquivos usados nestes filmes mostram a capacidade que este tipo de material tem de ir além do documento histórico, de ser apenas um rastro do passado (LINDERPERG, 2004). A maneira como estes filmes lidam com as imagens de arquivos em suas montagens, colocando-os em relação com outras imagens (DIDI-HUBERMANN, 2008), mostram que estes são documentos em constante evolução e possibilitam repensar o uso das imagens de arquivos.