O cinema e a cidade sempre estiveram relacionados, visto que seu desenvolvimento foi fabricado pelos mesmos códigos da modernidade: novas tecnologias, movimento e mercado (CHARNEY; SCHWARTZ, 2004). Ao mesmo tempo, como produto desse contexto moderno, em toda sua trajetória, o cinema tem apresentado a cidade como um de seus temas recorrentes, o que fez com que os filmes demonstrassem um potencial para traduzir a sensação de estar e vivenciar a cidade (MACHADO, 2007).
A partir dessa perspectiva, muitos locais começaram a ser mais associados às suas traduções fílmicas do que com o que realmente se parecem (COMOLLI, 1997, p. 153), pois, quando os cineastas escolhem apresentar determinados aspectos e enquadramentos de uma cidade, essa visão particular do espaço torna-se um olhar partilhado e passa a influenciar o imaginário dos espectadores a respeito desses lugares. O cinema, então, teria a possibilidade de transformar a cidade ao filmá-la.
Tendo isso em vista, o cinema nacional tem encontrado diferentes modos de traduzir as experiências de vida nas cidades. Se, por um lado, as câmeras continuam a mostrar a já reiterada paisagem urbana e suas desigualdades, por outro, as histórias passaram a ser contadas por outros olhares, apresentando uma diversidade de corpos e compreendendo a pluralidade espacial que compõe a cidade. Assim, o que este trabalho visa é observar o modo como alguns filmes brasileiros contemporâneos fazem uso da linguagem fílmica para ampliar perspectivas e inspirar novas possibilidades de interação com os espaços urbanos.
Filmes como Corpo Elétrico (2017) de Marcelo Cetano e Perifericu (2020), de Nay Mendl, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Vita Pereira convidam o espectador a conhecer os diferentes espaços que constituem as cidades, a partir da experiência cotidiana de sujeitos, comunidades e corporeidades diversas que ali habitam. Nessas narrativas, a câmera predispõe o público a experimentar estar nesses lugares considerados periféricos ou fora dos eixos hegemônicos ligados ao capital, a partir de um modo de filmar que não os aparta do resto da cidade, mas sim os assume como parte desse aglomerado citadino.
As imagens que os filmes apresentam instigam o espectador a vivenciar esses ambientes, pois, pela maneira de apresentá-los, enquadrando os diferentes ambientes, conduzindo-os pelas ruas, muros, quintais e portões, com a presença da diversidade de corpos e histórias que ali convivem, acena para que o público também participe desses territórios. Desse modo, como um viajante, o espectador pode percorrer, através do modo que se escolhe filmar, os diferentes pontos de vista que contemplam o conglomerado urbano, se envolvendo, se apropriando e experimentando a cidade de forma emocional e háptica (BRUNO, 2007).
Dessa forma, este estudo se propõe a analisar e apontar de que maneira os filmes utilizam os dispositivos que o cinema elabora, tais como a fotografia, o som, o quadro, a montagem, a performance e o enredo, mediados pelo olhar do cineasta, no intuito de apresentar as cidades a partir de uma percepção mais abrangente e afetiva, na qual os ambientes parecem se abrir para a diversidade, como espaços de oportunidade de encontro com a cidade, compreendendo sua pluralidade espacial e a multiplicidade de presenças que partilham o conglomerado urbano.
Considerando os filmes Corpo Elétrico e Perifericu, a pesquisa pretende mostrar que, ao se observar a escolha no modo de apresentar esses espaços, com uma câmera que ocupa e partilha os ambientes públicos, ao mesmo tempo que revela potenciais interações positivas entre os corpos diversos nos diferentes lugares, pode-se inferir que há um movimento que visa a construir imagens outras para as diferentes realidades urbanas. Dessa forma, os filmes propõem um repensar, reinventar e “revivenciar” a relação com a cidade, ressaltando a importância da linguagem cinematográfica como reflexão sobre as experiências sociais contemporâneas.