No Brasil, a história social e cosmológica das retomadas de territórios ancestrais pelos povos indígenas é atravessada por processos de autoafirmação coletiva, no vínculo entre terra e modos de existência. São táticas diversas, discutidas a cada contexto pelas lideranças, organizadas em assembleias e rituais (BENITES, 2014). Essa luta enfrenta as violências movidas por diversos empreendimentos de expropriação, na perpetuação do genocídio histórico inaugurado pela invasão colonial.
Em 2022, a exposição Histórias Brasileiras (MASP) abrigou o núcleo “Retomadas”, proposto pelas curadoras Sandra Benites e Clarissa Diniz. No texto de abertura desse eixo, lemos: “trata-se de tomar de volta o que foi roubado pela colonização: o pleno direito a habitar e a pertencer aos seus territórios e às relações que conformam o tekoha” (BENITES; DINIZ, 2022, p.160). As curadoras operam um alargamento da própria concepção de retomada e propõem uma leitura transversal para processos de luta por justiça e por reparação. Enfatizar esse “tomar de volta” seria uma atitude que ajuda a pensar a vizinhança entre diferentes movimentos sociais, que confrontam uma “violência colonialmente acumulada sobre grupos minorizados” (idem, p.162).
Examinarei, nesta comunicação, o ato curatorial de Benites e Diniz e alguns dos materiais organizados por elas, com destaque para as fotografias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e do próprio movimento indígena, numa iconografia de lutas distintas, mas aproximáveis. Farei esse primeiro movimento para, em seguida, cotejar dois filmes brasileiros recentes: “Nuhu Yag Mu Yog Ham: Essa Terra É Nossa!” (Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu, Roberto Romero, 2020) e “Nove Águas” (Gabriel Martins e Quilombo dos Marques, 2019).
Em “Essa terra é nossa!”, acompanhamos caminhadas extensas por zonas de fronteiras conflituosas, percorridas pelos Tikmu’un, com gestos largos, na afirmação do pertencimento a essas terras e no testemunho da luta por retomada. Feito como um mapa audiovisual das terras dos Tikmu’un, o longa é introduzido por um prólogo que anuncia uma espécie de contra-história do Brasil, a partir do ponto de vista de povos originários, que rememoram a chegada dos invasores europeus e interrogam os arquivos coloniais produzidos pelos brancos sobre as terras que foram tomadas naquela época.
Com “Nove Águas”, a parceria entre Martins e o Quilombo dos Marques permite recriar, por meio da ficção, a história de consolidação da comunidade quilombola em seu território e os processos de tensão com as empresas e com o Estado, que assediam os modos de vida do quilombo e tentam produzir expropriações. No processo fílmico e na luta a que se alia, trata-se de retomar uma história, mediar sua contação pelo cinema, para justamente garantir a permanência em território ancestral.
Nesses processos, o cinema tenta se articular, na chave documental ou ficcional, com a reivindicação por direitos, envolvidos na ocupação da terra e na sustentação de modos de vida. Como já disse André Brasil, ao analisar outro contexto de alianças entre filmes e lutas, “o cinema prolonga a retomada e, ao mesmo tempo, permite que ela se crie como cena” (BRASIL, 2020, p.130). Trata-se de reivindicar memórias e historicidade, seja no confronto com a invasão colonial e seus ecos, seja na recuperação das resistências à escravidão, que ecoam nos modos de vida quilombolas.
Entre imaginação e testemunho, a reunião das obras fornece elementos para uma heterogênea paisagem de retomadas. Aproximá-las será um movimento, a um só tempo, de afirmar caminhos singulares e de propor “solidariedades translocais” (GILROY, 2001, p.10). Juntas, elas indicam caminhos de leituras, perspectivadas, sobre modos de “tomar de volta”. A abordagem comparativa, como o movimento curatorial, é também um ato propositivo lançado às obras, para pensar, com elas, a formação brasileira, fraturada por violências e atravessada pelas lutas por justiça.