Nosso ponto de partida é o cruzamento de dois conceitos.
O primeiro é o de cronotopo, definido por Mikhail Bakhtin como a integração do espaço e do tempo em uma forma narrativa. Nesse processo, “o tempo condensa-se, comprime-se, torna-se artisticamente visível; o próprio espaço intensifica-se, penetra no movimento do tempo, do enredo da história. Os índices do tempo transparecem no espaço, e o espaço reveste-se de sentido e é medido com o tempo” (BAKHTIN, 1998, p. 211). Os cronotopos são analisados na literatura por Bakhtin como espaços nos quais o desenvolvimento temporal tende a certas formas. Motivos são então reconhecidos como sendo típicos de cada espaço, mantendo ligações estreitas com os gêneros narrativos. A partir de uma análise do romance grego, por exemplo, Bakhtin refere-se ao cronotopo da estrada – no qual ocorrem uma série de encontros, em geral casuais, envolvendo separações, fugas, perdas, casamentos, reconhecimentos, com uma variedade de classes, idades e culturas, sempre dizendo respeito à distância entre os personagens. Outro exemplo seria o cronotopo do castelo, característico do romance gótico – um espaço no qual sinais do passado são escondidos ou incrustados; no qual paredes, galerias e armários marcam as gerações que definiram a história do lugar.
O segundo conceito é o de inquietante, definido por Sigmund Freud como uma categoria da experiência assustadora que remete a algo familiar. O termo (Unheimlich, no original), traduzido também como “estranho” e “insólito”, guarda sempre uma conotação sinistra, mas baseada em conteúdos já estabelecidos, algo que deveria permanecer secreto mas que é trazido à luz. Freud analisa tanto a etimologia da palavra como as representações narrativas que parecem exemplificar os motivos mais significativos. É sobre a ideia do duplo que esses motivos são concentrados, em uma verdadeira listagem das possíveis formas do inquietante: repetições de aspectos, eventos ou nomes; personagens que parecem semelhantes ou mesmo idênticos; deslocamentos que sugerem experiências comuns, quando não a comunicação telepática; dúvidas quanto a um ser estar vivo ou morto, ou quanto a um objeto ser animado ou inanimado.
O que propomos é o hotel como um cronotopo que, no cinema, tende a representar o inquietante por meio de determinadas figuras de linguagem. Notamos como, em alguns filmes ambientados em hotéis e hospedarias, o espaço e o tempo ganham formas específicas que remetem às propriedades descritas por Freud. O hotel se caracteriza como uma casa de passagem, uma arquitetura ampla e sinuosa na qual a dimensão temporal, em vez de sugerir o acúmulo familiar, leva a uma concepção mais ambígua: um tempo labiríntico, em que a abertura de uma porta ou a virada de um corredor pode levar tanto a outra época como a outra realidade, e em que o conjunto de incertezas e liminaridades muitas vezes confunde ou transforma a própria identidade dos personagens. Em O vampiro (1932), O ano passado em Marienbad (1961), Profissão: repórter (1975), O iluminado (1980), entre outros, identificamos como as estratégias de câmera e montagem coordenam esses fatores, recorrendo a figuras como anáfora, aposiopese e anfibologia. São filmes que narram mistérios, investigações, desaparecimentos, que possuem às vezes elementos sobrenaturais e que portanto se conectam a diferentes gêneros estabelecidos, como o terror e as histórias de crime.
Mais do que generalizar o hotel no cinema como garantia de mobilização desse cronotopo, nosso interesse é no modo como, em sua presença, algumas figuras são recorrentes e coerentes umas com as outras. Não propomos uma definição a priori do cronotopo do hotel, mas a identificação de uma de suas tendências.