Trabalhos Aprovados 2019

Ficha do Proponente

Proponente

    Letizia Osorio Nicoli (UNICAMP)

Minicurrículo

    Letizia Osorio Nicoli é jornalista, graduada pela PUCRS, mestre em Multimeios pela UNICAMP, e atualmente desenvolve sua pesquisa de doutorado pelo mesmo programa. Atuou como diretora de imagens, editora e montadora em televisão, vídeo e cinema. Dedica-se aos estudos sobre cinema documentário, representações sociais e a criança no cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Meninas no documentário brasileiro: visibilidade de vozes e corpos

Resumo

    Proponho aqui o princípio de uma reflexão sobre a representação de meninas adolescentes no documentário brasileiro contemporâneo. O escopo centra-se em dois aspectos: o primeiro diz respeito à possibilidade dessas jovens assumirem o papel de sujeitos-enunciadores, ocupando um status adulto ainda não completado; em segundo, a agência sobre a sexualidade em desenvolvimento de seus corpos, objeto de discussão e tutela da sociedade “adulta”. Para tanto, analisaremos quatro filmes recentes.

Resumo expandido

    A análise que será introduzida nesta comunicação tem início a partir de uma longa pesquisa sobre a representação da infância e da adolescência no cinema documentário, iniciada nos estudos de mestrado e aprofundada em minha pesquisa de doutorado. Nesse processo, percebi as particularidades na representação desse grupo específico, que precisa lidar com uma dupla invisibilização: por ainda não serem adultas, e por estarem, desde a juventude, submetidas às relações de gênero culturalmente estabelecidas.
    Para construir o arcabouço teórico, trago alguns aportes iniciais para o estabelecimento de algumas questões-chave. Em primeiro lugar, considero centrais as observações de Carolina Rocha e Georgia Seminet, que propõem a existência de um “adult gaze” no cinema, a partir do pensamento de E. Ann Kaplan. A compreensão da complexidade de subjetificação da criança (e adolescente), uma vez que esses quase que exclusivamente ocupam a posição de objeto na produção audiovisual, e nunca de produtores, demonstra as diminutas possibilidades desse processo e de como ele depende inteiramente da disponibilidade dos realizadores de promover uma reversão do olhar (2014, p. xii-xiii).
    Além disso, a construção da identidade das meninas, além do reconhecimento de sua posição de alteridade, passa pela afirmação de oposições: não-adultos, não-homens. Ao mesmo tempo, se tomamos a adolescência como uma etapa de transição – tal como afirmam autores desde Vygostki (apud FREITAS, 1999) a Contardo Calligaris (2000), meninas precisam compreender a si mesmas como sujeitos dentro de um universo adulto do qual começar a fazer parte, de forma cerceada, e ainda identificarem-se com não-mais-criança. Esse processo de descobrimento, quando é descoberto também pelo cinema, como aponta Sue Gillet (2006), pode refletir preocupações (majoritariamente de cineastas mulheres, segundo a autora) acerca de uma performatividade de gênero imposta automaticamente às meninas.
    Lisa Cartwright (2002) sugere que muitos filmes com preocupação similar à que Gillet se refere documentem meninas em um processo que chama de “coming to voice” – termo que podemos relacionar com o conhecido “coming of age” da adolescência, tão abordado pelo cinema ficcional e documental – para definir um processo de obtenção de agência, em que o sujeito que fala é compreendido como alguém que foi silenciado ou invisibilidade.
    Por outro lado, a compreensão e a agência sobre o próprio corpo também ocupa um ponto central na forma como meninas são representadas no cinema documentário. Antes de mais nada, a própria sexualidade em desenvolvimento, passa a ocupar um espaço central na vida dos adolescentes, que redefinem suas relações sociais e culturais a partir da redescoberta de seus corpos (RAMOS et all, 2003, p.4). Ainda assim, o controle e a regulação da sexualidade das meninas são, culturalmente objeto de regulamentação da sociedade e, no fundo, do próprio Estado. Assim, compreende-se que se espere que o documentário, como enunciação de adultos, também adote a posição de juízo e tutela sobre corpos femininos adolescentes. No entanto, a partir das considerações de Vygostki, o papel da sexualidade na formação identitária adolescente e sua expressão estão de tal forma imbricados que dificilmente se pode reprimir o primeiro e esperar obter a segunda.
    Os quatro filmes que trago para a construção desta análise apresentam diferentes formas de lidar com a representação de meninas sobre seus corpos e sobre o lugar que ocupam na sociedade. Meninas (Sandra Werneck, 2006) e A falta que me faz (Marília Rocha, 2009) dedicam-se exclusivamente a retratar jovens meninas no início de suas vidas sexuais, enquanto que Criança, a alma do negócio (Estela Renner, 2008) e Eleições (Alice Riff, 2019), ambas produções ligadas ao Instituto Alana, trazem, em meio a diversos personagem, duas situações de meninas adolescentes que nos interessam para esta comunicação.

Bibliografia

    CARTWRIGHT, Lisa. “Film and the Digital in Visual Studies: Films Studies in the Era of Convergence”. In: Journal of Visula Culture 1, nº 1, 2002.
    FREITAS, M. T.A. Eu: a janela através da qual o mundo contempla o mundo. Disponível no site: Acessado em 25 de novembro de 2001.
    GILLET, Sue. “We Don’t Want to Watch This: The Boy Child’s Gaze in Jen Campion’s Sweetie”. In: Metro, 151, 2006.
    RAMOS, Bruna Sola; et all. “Compreendendo a subjetividade adolescente a partir de suas práticas virtuais discursivas”. In: Anais do 14º Congresso de Leitura do Brasil. Disponível em: http://alb.org.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais14/Sem06/C06014.docAcesso em: 03/03/2018.
    ROCHA, Carolina; SEMINET, Georgia (ed.). Screening minors in Latin American cinema. Plymouth: Lexington Books, 2014.
    VYGOTSKY, L. Desarrollo de los intereses en la edad de transiciòn. In: Obras escogidas IV- Psicologia Infantil. Madrid: Visor, 1996. p. 11-46.