Trabalhos Aprovados 2019

Ficha do Proponente

Proponente

    Breno Almeida Brito Reis (UFC)

Minicurrículo

    Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará (PPGCOM-UFC). Integrante do Laboratório de Estudos e Experimentação em Audiovisual (LEEA-UFC) e do Imago – Laboratório de Estudos de Estética e Imagem.

Ficha do Trabalho

Título

    Tampouco um filme: implicações da negação fílmica na obra de Panahi

Seminário

    Cinema comparado

Resumo

    Este estudo toma a gravura Les deux mystères (1966), de Magritte, em seu caráter de metaimagem, como dispositivo epistêmico para analisar o modo de realização de Isto não é um filme (2011), do realizador iraniano Jafar Panahi, cujo título referencia o enunciado interno da gravura (Isto não é um cachimbo). Tal conexão viabiliza analisar, para além da categoria do não-filme, o processo fílmico de Panahi e as estratégias mobilizadas sob as condições da interdição à qual o realizador foi sentenciado

Resumo expandido

    Les deux mystères (1966): como se em zoom out um plano de La trahison des images (1928-1929) se expandisse e criasse uma ambientação para a pintura de Magritte, enquadrada sobre um cavalete num assoalho de tábuas, nessa cena se insere, agigantada e flutuante, outra misteriosa figura de cachimbo, entre as quais impera ainda o enunciado inscrito na pintura de origem (Ceci n’est pas une pipe), a apontar a arbitrariedade das associações entre a palavra, a coisa e suas figurações (FOUCAULT, 2014).

    Da pintura à gravura de Magritte, seu fundamento metaimagético se prolonga. O enunciado demonstrativo em La trahison des images, o qual já lhe conferia a qualidade de metaimagem por reportar-se a seus elementos internos, passa a também apontar, em Les deux mystères, para o outro cachimbo, na composição que a engloba como cenário. Mas a metaimagem trata não apenas da imagem específica referenciada internamente, senão da condição imagética em si: autorreferenciais e multiestáveis, as metaimagens operam como objetos epistêmicos, dispositivos iconológicos de reflexão crítico-teórica (MITCHELL, 1994, p. 49-65).

    Reempregando a fórmula de Magritte ao intitular seu primeiro projeto pós-condenação de Isto não é um filme, o cineasta iraniano Jafar Panahi estabelece, entre o título do projeto e o seu modo de realização, entre a frase e a política das imagens, um curto-circuito autorreferencial: a quais gestos, posicionamentos e estratégias de realização refere-se a negação do estatuto fílmico da obra resultante? Desde 2010, Panahi tornou-se um sujeito interditado: preso enquanto realizava um filme sem a licença obrigatória do Ministério da Cultura e da Orientação Islâmica, foi proibido, por um período de 20 anos, de realizar filmes, escrever roteiros, sair do Irã, e comunicar-se com a imprensa. Entretanto, Panahi tem articulado ardis (NAVAI, 2015) para continuar realizando filmes de forma discreta e independente.

    Realizado enquanto Panahi ainda aguardava a confirmação da sentença, Isto não é um filme (2011) é um autorretrato feito em parceria com o documentarista Mojtaba Mirtahmasb. Panahi é filmado em seu apartamento, rememorando sua trajetória pessoal e profissional, revendo e comentando seus filmes, até decidir ler um roteiro seu que não recebeu permissão de realização, improvisando algumas passagens no tapete da sala de estar. Mas logo constata que contar um roteiro – à maneira de Marguerite Duras em O Caminhão (1977) – não equivale a realizar um filme.

    Ao evocar no título de Isto não é um filme a metaimagem de Magritte, imaginemos que sobre o cavalete da gravura haja ainda uma tela, o ecrã no qual se projeta o filme finalizado, ao qual assistimos, mas cujo estatuto fílmico é negado de antemão pelo enunciado que o intitula. E acima da tela em que se projeta o não-filme surge uma matéria amorfa que, antes vista como o cachimbo gigante, “esse cachimbo desmedido, flutuante, ideal – simples sonho ou ideia de um cachimbo” (FOUCAULT, 2014, p. 17), seria agora a ideia de um filme, o sonho de um filme a pairar sobre o não-filme. O que se realiza seria tão-somente a invocação verbal de um filme que não pôde e tampouco pode ser realizado (MET, 2008), sendo tão-somente lido; um esforço de realização que permanece na ordem da tentativa (JEANNELLE, 2014): não exatamente um filme, mas “An effort”, como descrito nos créditos finais.

    A partir da conexão entre Magritte e Panahi, este estudo reflete sobre os desdobramentos da negação fílmica em Isto não é um filme: como subterfúgio referente à contravenção implicada na filmagem clandestina; como negação do produto planejado e roteirizado, em favor da processualidade das filmagens; como suspensão do ilusionismo e rejeição da ficção. Em torno do enunciado de negação, as metaimagens de Magritte permitem analisar, para além da categoria do não-filme, o processo criativo de Panahi e as posições estéticas, éticas e políticas mobilizadas sob as condições da interdição à qual o realizador foi sentenciado.

Bibliografia

    FOUCAULT, Michel. Isto não é um cachimbo. Tradução: Jorge Coli. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra, 2014.

    FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas: Uma arqueologia das ciências humanas. Tradução: Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

    JEANNELLE, Jean-Louis. Toutes les histoires des films qui ne se sont jamais faits: modalités de l’inadvenue au cinéma. In: Fabula-LhT, n° 13, nov. 2014. Disponível em: . Acesso em: 16 abr. 2019.

    MET, Philippe. Pour un cinéma fantôme: Autour du « Harry Dickson » d’Alain Resnais et de Frédéric de Towarnicki. In: Positif, n. 565, mar. 2008. pp. 61-65.

    MITCHELL, W. T. J. Metapictures. In: MITCHELL, W. T. J. Picture Theory: Essays on verbal and visual representation. Chicago: The University of Chicago Press, 1994.

    NAVAI, Ramita. City of Lies: Love, Sex, Death, and the Search for Truth in Tehran. Nova York: PublicAffairs, 2014.