Trabalhos Aprovados 2018

Ficha do Proponente

Proponente

    Luís Alberto Rocha Melo (UFJF)

Minicurrículo

    Luís Alberto Rocha Melo é professor do Curso de Cinema e Audiovisual e do Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens do Instituto de Artes e Design da UFJF, cineasta e pesquisador. Doutor em Comunicação pela UFF, com tese sobre o cinema brasileiro independente dos anos 1940-50. Realizou, entre outros trabalhos, o curta “Cinebiogravura” (2017), e os longas “Um homem e seu pecado” (2016) e “Nenhuma fórmula para a contemporânea visão do mundo” (2012).

Ficha do Trabalho

Título

    “¡Escándalo!” e “A última noite” ou Pode o cinema ser levado a sério?

Seminário

    Audiovisual e América Latina: estudos estético-historiográficos comparados

Resumo

    Esta comunicação apresenta como estudos de caso o filme “¡Escándalo!” (Jorge Délano, 1941) e o roteiro “A última noite”, escrito por Alex Viany em 1949. Parte-se da constatação de que, nos anos 1940-50, o cinema foi representado em filmes dramáticos chilenos, enquanto que no caso brasileiro foi tematizado apenas em comédias. Seria o cinema uma atividade indigna de ser representada em filmes sérios? Ou, contrariamente, uma atividade séria demais para ser figurada pelo cinema brasileiro?

Resumo expandido

    Em comunicações anteriores apresentadas neste Seminário Temático, propus estudos comparados entre filmes chilenos e brasileiros dos anos 1940-50. No primeiro deles, discutiu-se a ilusão industrialista a partir de “La Dama de las Camelias” (José Bohr, 1947) e “Carnaval Atlântida” (José Carlos Burle, 1953). No segundo, a propósito de “Hollywood es así” (Jorge Délano, 1944) e “Berlim na batucada” (Luiz de Barros, 1944), foram examinadas diferentes representações de Hollywood. Dando continuidade às investigações desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa Historiografia Audiovisual, financiado pelo CNPq e pela Fapemig, a presente comunicação propõe como estudo de caso o longa chileno “¡Escándalo!” (Jorge Délano, 1941). Contudo, parto aqui de um impasse: nessa película, a representação que se faz do cinema não oferece termo de comparação com nenhum filme brasileiro dos anos 1940-50.

    O que torna “¡Escándalo!” um filme singular é que sua trama – que mescla melodrama, comédia romântica, musical, suspense e intriga política sem se prender a nenhum desses gêneros – é entremeada por aparições do próprio Jorge Délano rodando algumas das cenas que estão sendo representadas para o espectador. Realidade e ficção se confundem. O “filme dentro do filme” promove sucessivas camadas de interpretação sobre o que vem a ser o próprio cinema. Como diz um dos personagens da equipe de filmagem: “La vida real es una ficción, es una gran película de lo que llamamos destino; farsa, todo farsa. La verdad permanece entre sombras, oscuro.”

    A cinematografia chilena desse período contempla ao menos dois títulos que tematizam o cinema mas fogem ao estritamente cômico: além de “¡Escándalo!”, temos o caso de “El ídolo” (Pierre Chenal, 1952), sem falar de “Hollywood es así”, que resvala em muitos momentos para o drama. Já no caso brasileiro, chama atenção a ausência da representação desta atividade, mesmo que de forma indireta, em filmes dramáticos dos anos 1930-50. Seria o cinema uma atividade indigna de ser representada em filmes sérios? Ou, contrariamente, uma atividade séria demais para ser figurada pelo cinema brasileiro?

    Em “¡Escándalo!”, todas as vezes em que a equipe cinematográfica surge e a ilusão diegética é rompida, há uma espécie de “alívio cômico”. Ainda assim, não se verifica uma atitude de “autodegradação” e “desprezo”, como afirmam Bernardet (2009, p. 117) e Autran (2013, pp. 226-227) a propósito do cinema brasileiro. No filme de Délano, o cinema pode até ser uma atividade de “loucos”, mas efetivamente é através dele que sonhamos, choramos, sorrimos ou gargalhamos. “¡Escándalo!” é, nesse sentido, um elogio ao cinema.

    Em contraponto a “¡Escándalo!” apresento não um filme, mas um roteiro: “A última noite”, escrito por Alex Viany em 1949 a partir de uma ideia original de Salomão Scliar. Trata-se de um drama inteiramente passado nos bastidores de um teatro, durante uma noite de ensaio da peça “Teresa Raquin”, baseada no romance de Émile Zola. Como em “¡Escándalo!”, ficção e realidade se misturam. Ao longo do ensaio, revela-se um triângulo amoroso entre os atores, há uma tentativa de assassinato por envenenamento, e um velho ator, mudo e enlouquecido, planeja vingar-se de sua ex-mulher, uma grande dama do teatro que interpreta Madame Raquin. Nas palavras de Viany, o roteiro – que jamais foi filmado – era “todo baseado em Orson Welles” (ALEX VIANY…, 1990). De fato, o argumento prevê câmera subjetiva, profundidade de campo, closes expressionistas, luzes recortadas, bem como o uso de espelhos e a distorção de imagem (“escorço”).

    Trata-se de um projeto que pouco tem a ver com a defesa de um cinema nacional-popular, defendido por Viany a partir de 1950, mas que revela um enorme desejo de explorar as possibilidades da linguagem cinematográfica. No entanto, sintomaticamente o roteiro não se passa no cinema e sim no teatro. Retomando a pergunta anterior, seria a arte teatral, ao contrário do cinema, “nobre” o suficiente para figurar em um drama?

Bibliografia

    ALEX Viany – Um documentário em vídeo (dir.: Luís Alberto Rocha Melo e Carlos Bittencourt Paiva, Brasil, vídeo, 42 min., cor, 1990)
    AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec, 2013.
    BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo: Cia. de Bolso, 2009.
    “ESCÁNDALO”. Ecran, n. 492. Santiago: 25 jun 1940. Disponível em: http://www.cinechile.cl/archivo-692. Acesso em 10 maio 2018.
    MORALES C., Marcelo. “El ‘Escándalo’ de Jorge ‘Coke’ Délano”. Cinechile, Enciclopedia del Cine Chileno. Santiago: 20 dez 2011. Disponível em: http://www.cinechile.cl/crit&estud-188. Acesso em 10 maio 2018.
    MOUESCA, Jacqueline e ORELLANA, Carlos. Breve historia del cine chileno. Desde sus orígenes hasta nuestros días. Santiago: LOM Ediciones, 2010.
    VIANY, Alex. “A última noite”. Argumento cinematográfico (datil). S. local: 21 fev 1949, 16 p. Disponível em https://www.alexviany.com.br/busca/visualiza_item.php. Acesso em 10 maio 2018.