Trabalhos Aprovados 2018

Ficha do Proponente

Proponente

    Roberta Veiga (UFMG)

Minicurrículo

    Doutora em Comunicação pela UFMG e professora adjunta na linha Pragmáticas da Imagem no Programa de Pós-Graduação dessa instituição. Editora da revista Devires: Cinema e Humanidades; integrante do comitê científico do forumdoc.bh (Festival de Cinema Etnográfico de Belo Horizonte); pesquisadora do grupo Poéticas da Experiência (UFMG). Tem vários artigos e capitulos de livro publicados sobre cinema, traduziu o livro Nothing Happens: Chantal Akerman’s Hyperrealist Everyday, de Ivone Margulies.

Ficha do Trabalho

Título

    Notações feministas no cinema de Helena Solberg

Seminário

    Mulheres no cinema e audiovisual

Resumo

    Nessa comunicação pretendo argumentar que as obras dos anos 70 de Helena Solberg antecipam cinematograficamente um programa feminista plural, intersecional, que será formalizado nos 90 (terceira onda do feminismo). Trata-se de demonstrar, a cada dispositivo fílmico, que escritura e método atuam de modo a deslocar o olhar eurocêntrico da mulher universal ao engajar rostos e vozes femininas singulares. Busca-se pensar ainda como esse gesto feminizador se desdobra nas obras seguintes da cineasta.

Resumo expandido

    No ensejo da retrospectiva de Helena Solberg, ocorrida no Brasil, nos meses de março e abril desse ano, proponho percorrer a obra dessa cineasta brasileira notando e anotando as interseções entre realização cinematográfica e atuação feminista. Mais especificamente, a intenção é construir possíveis relações entre os dispositivos fílmicos – método de filmagem, estratégias formais e argumento narrativo – criados por Helena ao longo de sua trajetória (de 1966 até hoje) e as práticas e o pensamento feminista nessa mesmo período.
    Mais do que dizer que Helena é uma cineasta feminista, pioneira no Brasil, para construir possíveis modulações e conformações entre seu cinema e o(s) feminismo(s), nos parece adequado perguntar frente a suas obras: o que significa e o que significou histórica e esteticamente para um robusto conjunto de seus filmes ter a perspectiva da mulher como proposta política, como forma para o cinema engajado? Como o olhar da mulher realizadora para outras mulheres, ou como o método de “estar entre” mulheres, possibilitou ao cinema de Helena uma articulação potente entre estética e política, entre o dispositivo cinema e o engajamento no presente de sua produção, principalmente nos anos setenta? E como essa articulação metodológica e formal se desdobrou ao longo de sua carreira? Assim podemos dizer não de uma cineasta ou de um cinema feminista, mas de uma concepção política do feminino e, por aí, de um pensamento feminista que seus filmes no conjunto, e na relação uns com os outros, evoca.
    Ancorada a essas questões que nos ligam imediatamente as formas e forças fílmicas, a hipótese que me arrisco a lançar e que pretendo explorar junto ao Seminário Temático Mulheres no Cinema, é de que Solberg, através das modulações em seu método de abordagem do universo filmado, e da diferença em sua escritura fílmica, antecipa em sua produção da década de 70, realizada junto ao coletivo de mulheres Women’s International Film Project, nos EUA, um debate profícuo trazido, de modo mais contundente, pelo feminismo a partir dos anos noventa (terceira onda). Trata-se das perspectivas que propõem a particularização e diversificação das demandas, pautas e reivindicações femininas, que faria emergir as mulheres de outras raças e de classes populares, descentralizando a figura da mulher branca e de classe média como um universal. O argumento é de que os filmes Emerging Woman, Simplesmente Jenny e Double Day, realizados em 74, 75, 77 respectivamente – denominada “trilogia da mulher”, por Mariana Tavares – em seu método e forma, apostarão na singularidade dos femininos e no modo como a diferença entre suas lutas relativiza a categoria mulher, desenhando um gesto pós-estruturalista e intersecional já naquela época.
    Seja pela montagem dialética que interpõe arquivos e vozes encenadas das mulheres americanas brancas e negras do século XIX, em Emerging Woman; seja na presença intensa e extensa do rosto, do corpo e do discursos, das mulheres latinas – argentinas, mexicanas, bolivianas, venezuelanas – em Double Day e Simplesmente Jenny, ou no encontro da cineasta branca de elite com sua alteridade radical, a “outra de classe”, a questão é que nessa trilogia Helena convoca o povo por vir, mas o convoca duplamente: não só o outro dos homens brancos empoderados – os trabalhadores, negros e pobres –, mas o outro do outro, a mulher de “raça”. É pela perspectiva da mulher – olhar, voz, corpo – e por sua capacidade de escrever a história a contrapelo, por uma alteridade desdobrada que o povo pôde surgir nas telas de cinema dos EUA; é ainda através de uma micropolítica do cotidiano, das falas pessoais e da entrada na intimidade, que problemas sistêmicos, estruturais, do capitalismo machista vem à baila. Além da análise detida do método e forma nesses filmes, será feita notações acerca dos desdobramentos desse gesto nos filmes que se seguiram, como: Das Cinzas…Nicarágua hoje (1982); Carmem Miranda: Banana is my business (1994); e Vida de Menina (2004).

Bibliografia

    AMARAL, Leonardo; ITALIANO, Carla (Orgs.) Catálogo Retrospectiva Helena Solberg. BH: Filmes de Quintal, 2018.
    BUTLER, Judith. Problemas de Gênero. RJ: Civilização Brasileira, 2010.
    CRENSHAW, Kimberle. A Intersecionalidade na discriminação de raça e gênero. Cruzamento: raça e gênero. Brasília: Unifem.
    HOLLANDA, Heloisa B. Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. RJ: Rocco, 1994
    HOLANDA, Karla e TEDESCO, Marina. Feminino e Plural: mulheres no cinema brasileiro. SP: Papirus. 2017.
    HOOKS, Bell. Feminism is for everybody: passionate politics. NY: Routledge, 2015.
    KILOMBA, Grada. Plantation Memories: episodes of everyday racismo. Münster: Unrast Verlag, 2012.
    TAVARES, Mariana. Helena Solberg: do cinema novo ao documentário contemporâneo. SP: Imp.Oficial, 2014.
    VEIGA, Ana M. Cineastas brasileiras em tempos de ditadura. Tese de doutorado. UFSC, 2013.
    SARTI, Cynthia A. O feminismo brasileiro desde os anos 1970: revisitando uma trajetória. Estudos feministas, 2004.