Trabalhos Aprovados 2018

Ficha do Proponente

Proponente

    Daniel P. V. Caetano (UFF)

Minicurrículo

    Professor Adjunto do Depto. de Artes e Estudos Culturais da UFF, em Rio das Ostras. Formou-se em Cinema pela UFF e fez mestrado e doutorado em Literatura Brasileira pela PUC-RJ. Organizador dos livros
    “Cinema Brasileiro 1995-2005 – Ensaios sobre uma década” e “Serras da Desordem”, sobre o filme homônimo. Já produziu e dirigiu dois longas-metragens, um documentário e quatro curtas. Foi colaborador da revista Filme Cultura entre 2010 e 2013; anteriormente, foi colaborador de outras revistas.

Ficha do Trabalho

Título

    Avacalha e se esculhamba? Cinema Cafajeste, paródia e mal-estar

Resumo

    Conforme é observado nos estudos dedicados ao período, a maior parte dos filmes agrupados dentro do chamado Cinema Marginal rompia com as convenções narrativas, entre outras razões, pela recusa a aspectos de apresentação de tramas e motivações dos personagens. Outra parte dos filmes daquele período, no entanto, se caracterizava por cumprir essas convenções numa chave explicitamente irônica. Esta apresentação pretende retornar ao mal-estar daquele cinema e compreender sua persistência.

Resumo expandido

    Se os filmes do Cinema Marginal, em sua maior parte, romperam com os modelos narrativos vigentes e com as expectativas do público, houve um grupo menor, mas expressivo da produção marginalista que investiu num discurso duplo: ao mesmo tempo em que os filmes “entregavam” o que era contratado pelos espectadores no modelo de difusão cinematográfica da época, eles o fizeram de modo transgressivo, apimentado. Assim, se por um lado a maior parte dos filmes ditos udigrudis não se prestava aos modelos de cinema de gênero habituais e era difícil compreender o enredo que estava sendo narrado, indicando que estes filmes não se sentiam constrangidos a comunicar esses enredos (em certos casos, nem mesmo a os desenvolverem), houve uma parcela menor, mas também expressiva, de filmes que procuraram se enquadrar parcialmente nos modelos de gênero, ainda que de forma irônica e transgressora – como se aceitassem seguir uma receita já conhecida de todos, mas fizessem questão de acrescentar ingredientes indigestos e muita pimenta.
    Este movimento dito “cafajeste” está na gênese do chamado Cinema Marginal e não é possível compreender de todo o mal estar que toma conta daquela geração sem compreendê-lo. Afinal de contas, aquela foi a geração que se formou consciente da “incapacidade criativa de copiar” de que falou Paulo Emilio Salles Gomes (professor de vários deles na Escola São Luiz) no seu célebre texto “Uma situação colonial”. A paródia sempre foi uma tradição marcante nos filmes brasileiros (conforme observou João Luiz Vieira ainda no final da década de 1970), e essa geração não fez mais do que explicitar o mal-estar oculto na atitude auto-derrisória, na crença de que aqui ninguém pode fazer nada direito e por isso “avacalha e se esculhamba”.
    Esta corrente “irônica” surge logo no início do período do Cinema Marginal com “As Libertinas” (de João Callegaro, Carlos Reichenbach e Antonio Lima) e “O bandido da luz vermelha” (de Rogério Sganzerla). Foi para promover “As libertinas” (que acabou obtendo excelente resultado nas bilheterias) que Callegaro escreveu o manifesto “Nasce o cinema cafajeste”, em que afirmava que:
    “Cinema cafajeste é cinema de comunicação direta. É o cinema que aproveita a tradição de 50 anos de exibição do “mau” cinema americano, devidamente absorvido pelo espectador e que não se perde em pesquisas estetizantes, elocubrações intelectuais, típicas de uma classe média semi-analfabeta. É a estética do teatro de revistas, das conversas de salão de barbeiro, das revistinhas pornográficas. É a linguagem do “Notícias Populares”, do “Combate Democrático” e das revistinhas “especializadas” (leia-se Carlos Zéfiro). É Oswald de Andrade e Líbero Rípoli Filho; é “Santeiro do Mangue” e “Viúva, Porém Honesta”: obras primas.”
    Embora tenha sido tão crucial para a formação daquela geração, a persistência do modelo irônico, “cafajeste”, foi e segue sendo pouco observada, tornando-se uma lacuna na compreensão daquela movimentação geracional – prejudicando a compreensão que se tem de alguns dos principais cineastas oriundos daquele momento, como os já citados Reichenbach e Sganzerla, mas também de outros como Andrea Tonacci (a relação agônica que seu “Bang bang” estabelece com o cinema de gênero é inteiramente obscurecida) e Ivan Cardoso. E, curiosamente, os raros casos em que filmes daquela leva chegaram a se tornar vistos por um grande público acabam sendo pouco compreendidos e analisados.
    Por isso, esta comunicação pretende tentar rever o mal-estar crítico daqueles filmes para compreender as questões provocadas e a trajetória dos filmes e realizadores nos anos seguintes, pretendendo observar uma certa persistência dos aspectos mais críticos que geraram aquele mal-estar.

Bibliografia

    ARAÚJO, Inácio, Cinema de boca em boca – escritos sobre cinema (org. TOSI, Juliano). São Paulo: Imprensa Oficial, 2010
    CALLEGARO, João “Nasce o cinema cafajeste”. Material de imprensa de As Libertinas (1968), disponível no MAM-RJ.
    FERREIRA, Jairo, Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986, e Limiar, 2000 (2ª ed.).
    LYRA, Marcelo, Carlos Reichenbach: o cinema como razão de viver. São Paulo: Imprensa Oficial, 2004.
    RAMOS, Fernão. Cinema Marginal (1968/1973) – a representação em seu limite. São Paulo: Brasiliense, 1987.
    REMIER, Ivan Cardoso – o mestre do terrir. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008.
    SGANZERLA, Rogério. Encontros: Rogério Sganzerla (org. CANUTO, Roberta). Rio de Janeiro: Azougue, 2007.
    VIEIRA, João Luiz “Este é meu, é seu, é nosso: introdução à paródia no cinema brasileiro”, Revista Filme Cultura nº 41/42, de maio de 1983.
    XAVIER, Ismail, Alegorias do subdesenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1993.