Prezado Secretário do Audiovisual – interino, Sr. Alfredo Bertini

Prezado Ministro da Cultura – interino, Sr. Marcelo Calero

Prezado Presidente da República – interino, Sr. Michel Temer

Foi com estarrecimento que a Socine – Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual –  recebeu a notícia da demissão de vários funcionários da Cinemateca Brasileira, incluindo sua Coordenadora-geral, Olga Futemma.

A medida intempestiva, sem explicações ou aviso prévio, coloca em risco o trabalho de uma das maiores instituições de preservação audiovisual do mundo e que angariou o respeito de instituições congêneres de vários países e em especial da FIAF — International Federation of Film Archives.

O delicado acervo da Cinemateca requer manutenção contínua e altamente especializada. Funcionários com a mesma especialização e experiência não serão encontrados em curto prazo. Nesse sentido, temos a impressão de que nem a atual Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, nem o próprio ministro têm clareza sobre os danos que essa medida trará para um dos mais importantes patrimônios culturais do Brasil. Por isso, nós, pesquisadores de cinema, nos vemos no fundamental papel de alertar os senhores sobre os riscos que este acervo corre neste momento.

A Socine solicita ao Ministério da Cultura que reverta esse quadro gravíssimo.

Rio de Janeiro, 28 de Julho de 2016.

Ficha do Proponente

Proponente

    Patrícia Kruger (FFLCH- USP)

Minicurrículo

    Patricia de Almeida Kruger é doutoranda pelo Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo com a tese Penetrando o Éden: um estudo do filme Anticristo, de Lars von Trier. Concluiu recentemente um estágio doutoral no Nordeuropa-Institut da Universidade de Humboldt/Berlim e tem publicado sobre sua pesquisa desde 2012.

Ficha do Trabalho

Título

    Explodindo a Ficção: invasões iconográficas em filmes de Lars v. Trier

Seminário

    Interseções Cinema e Arte

Resumo

    Muito tem sido discutido a respeito das alusões às artes plásticas e das fantásticas recriações que o cineasta Lars von Trier faz, em sua cinematografia, de pinturas. Pouca atenção, contudo, tem sido dada a demais elementos iconográficos que parecem “invadir” seus filmes. Pretendemos, assim, averiguar a motivação da inserção de fotos, xilogravuras, gravuras e demais referência iconográficas em alguns de seus filmes e quais as consequências políticas e estéticas dessas inusitadas “invasões”.

Resumo expandido

    O cineasta dinamarquês Lars von Trier tem constantemente travado relações não apenas com o universo do próprio cinema, mas também com outros segmentos da cultura e das artes, como a filosofia, as artes plásticas, a ópera, a música pop, a dramaturgia e a literatura. Diversas referências têm sido identificadas em suas obras que remontam a estes âmbitos – lembremo-nos, por exemplo, da referência à ópera wagneriana, já presente em Epidemia (Epidemic, 1987) e retomada em seu último trabalho, Melancolia (Melancholia, 2011); ou da importância da música pop em Dançando no escuro (Dancer in the Dark, 2000) e dos intertítulos de Ondas do destino (Breaking the Waves, 1996). Em se tratando de textos literários, e aqui estamos considerando também o texto teatral, Trier tem também explicitado a relevância de autores tais como Marquês de Sade, Bertolt Brecht e August Strindberg em vários de seus trabalhos.

    As intersecções de suas obras com as artes plásticas também são bastante significativas. O próprio Trier, a esse respeito, comparou seu filme Anticristo (Antichrist, 2009) à pintura O Grito (Skrik, 1893), do pintor norueguês Edvard Munch, em uma entrevista dada pouco depois do lançamento do filme (ROMER, 2009). Discutindo o papel de filmes para além da evocação de emoções, a comparação com a obra de Munch, um dos marcos da arte expressionista (contrária, portanto, a representações naturalistas), é bastante relevante por orientar a interpretação de Anticristo que reconhece, fundamentalmente, seus elementos anti-ilusionistas.

    As próprias composições imagéticas de diversas tomadas de Trier criam o que podemos considerar verdadeiras obras pictóricas, como os próprios intertítulo de Ondas do Destino. Esse tipo de elaboração também pode ser notado no filme Anticristo, por exemplo, nas imagens oníricas do Éden que a personagem feminina é induzida a imaginar. Nas palavras do cinegrafista Anthony Dod Mantle, em entrevista concedida ao site Time Out London: “o que você vê é tão desacelerado que pela primeira vez no cinema eu tive a impressão de assistir a um filme da maneira que eu olho para uma pintura” (JOHNSTON, 2009). Além disso, muitos críticos destacaram a evocação de imagens de Hieronymus Bosch, também nesse filme, e como Trier recria a pintura Ophellia (1852), de Sir. John Everett Millais, na obra Melancolia.

    Mas o que dizer dos elementos iconográficos (fotos, pinturas, gravuras, xilogravuras, etc) que não são criados ou aludidos por Trier, mas que “invadem” a tessitura de seus filmes? Quais seriam as motivações para se estabelecer contato com elementos da “vida real”, que explodem os limites da ficção? Que tipos de relações esses elementos trazem ao próprio ponto de vista de seus filmes? Nossa proposta é averiguar as consequências dessa prática em alguns filmes de Trier, como Europa (1991), Dogville (2003), Manderlay (2005) e Anticristo (2009). Procuraremos analisar os elementos iconográficos em seus próprios termos e também os novos significados erigidos da confrontação de filmes de Trier com essas inusitadas referências iconográficas.

Bibliografia

    BADLEY, Linda. Lars von Trier. University of Illinois Press: Chicago, Springfield, 2010
    BAINBRIDGE, Caroline. The Cinema of Lars von Trier: Authenticity and Artifice. London: Wallflower Press, 2007
    JACOBS, Steven. Framing Pictures: Film and the Visual Arts. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2012.
    JOHNSTON, Trevor. “Antichrist cinematographer Anthony Dod Mantle: interview”, in Time Out London, 2009. Disponível em http://www.timeout.com/film/features/show-feature/8257/-Antichrist-cinematographer_Anthony_Dod_Mantle-interview.html
    ROMER, K. “A hearse heading home – an interview with Lars von Trier”. In: Antichrist: Press book. London: Artificial Eye Release, 2009.
    SINNERBRINK, Robert. New Philosophies of Film: Thinking Images. New York/London: Continuum
    ZIKA, Charles. The Appearance of Witchcraft: Print and Visual Culture in Sixteenth-Century Europe. London: Routledge, 2007.

O XX Encontro SOCINE acontecerá na UTP, em Curitiba, de 18 a 21 de outubro de 2016.

A lista dos trabalhos aprovados pode ser acessada aqui. Os associados também podem checar a avaliação final de seus trabalhos pela sua área de associado.

Todos os aprovados precisam realizar o pagamento dentro do prazo para que sua participação seja confirmada. Os valores, após o primeiro prazo, terão acréscimos.

  • PRIMEIRO PRAZO: 25 de julho a 10 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 150,00 – Discentes: R$ 75,00
  • SEGUNDO PRAZO: 11 a 21 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 170,00 – Discentes: R$ 85,00
  • TERCEIRO PRAZO: 22 a 29 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 200,00 – Discentes: R$ 100,00

Tendo qualquer dúvida ou dificuldade, favor contatar a secretaria no e-mail socine@socine.org.br.

Prezados membros da Socine,

 

Na semana passada foi divulgado o prêmio Compós para teses e dissertações na área de Comunicação.

Gostaríamos aqui de felicitar os vencedores.

Para nossa alegria, os nove premiados – orientandos e orientadores – são membros de nossa Sociedade de Estudos.

Parabéns Clarisse Maria Castro de Alvarenga, André Brasil, Claudia Mesquita, Luis Carlos de Oliveira Jr, Ismail Xavier, Dieison Marconi Pereira, Cássio Tomaim, Erica Ramos Sarmet dos Santos e Mariana Baltar Freire!

 

O resultado

Melhor Tese 2016:  Da cena do contato ao inacabamento da história: Os últimos isolados (1967-1999); Corumbiara (1986-2009); Os Arara (1980-)”

Autora: Clarisse Maria Castro de Alvarenga

Orientador: André Brasil (UFMG)

Co-orientadora: Claudia Mesquita (UFMG)

Menção Honrosa/Tese 2016 : Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno

Autor: Luis Carlos de Oliveira Jr

Orientador: Ismail Xavier (USP)

 Melhor Dissertação 2016:

Documentário queer no Sul do Brasil (2000-2014): narrativas contrassexuais e contradisciplinares nas representações das personagens LGBT

Aluno: Dieison Marconi Pereira (UFSM)

Orientador: Cássio Tomaim  (UFSM)

Menção Honrosa/Dissertação 2016 : Sin porno no hay posporno: corpo, excesso e ambivalência na América Latina

Autora : Erica Ramos Sarmet dos Santos

Orientador : Mariana Baltar Freire (UFF)

Temos a satisfação de informar que os Anais do XIX Encontro da Socine, ocorrido em 2015,  na Unicamp, estão publicados e podem ser acessados pela nossa página.
Mais uma vez, temos duas publicações:

1 – Anais digitais: publicação dos resumos expandidos de todos os trabalhos apresentados no Encontro.

2 – Anais de textos completos: publicação dos textos completos recebidos na chamada de trabalhos.

Agradecemos a participação de todos e esperamos reencontrá-los em Curitiba para o encontro deste ano.

Atenciosamente,

A Diretoria

São 12 os Seminários Temáticos aprovados para o biênio 2015-2017 da SOCINE:

  1. Cinema e América Latina: debates estético-historiográficos e culturais;
  2. Cinema e Ciências Sociais: diálogos e aportes metodológicos;
  3. Cinema e educação;
  4. Cinema e literatura, palavra e imagem;
  5. Cinema Queer e Feminista;
  6. Cinemas em português: aproximações – relações;
  7. Corpo, gesto, performance e mise en scène;
  8. Exibição cinematográfica, espectatorialidade e artes da projeção no Brasil;
  9. Interseções Cinema e Arte;
  10. O comum e o cinema;
  11. Teoria dos Cineastas;
  12. Teoria e Estética do Som no Audiovisual.

A lista detalhada com ementa e coordenadores de cada seminário está disponível aqui.

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2016.

 

Carta aberta ao Ministério da Educação e Ministério da Cultura

 

Assunto: Base Nacional Comum Curricular

 

 

A SOCINE (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual) tem acompanhado os esforços de construção da Base Nacional Comum Curricular. Nosso comentário aqui irá se ater à especificidade de nossa área e sua relação com as propostas apresentadas na BNCC.

Dentro do texto preliminar do BNCC o componente curricular ARTE parte de uma grande área chamada linguagens. Dentro desta área as artes foram divididas em quatro grandes eixos: “artes visuais, dança, teatro e música”, conforme as licenciaturas específicas em arte, desconsiderando a Licenciatura em Cinema e Audiovisual (Resolução do CNE n. 10, de 27 de junho de 2006) e excluindo completamente o cinema como uma arte específica.

Foi essa subdivisão que nos trouxe uma primeira preocupação. Junto à todos esses subcomponentes da área de artes nos parece fundamental que esteja também o cinema. Esta atenção e necessidade não existe apenas porque trabalhamos e pesquisamos cinema e estamos atentos aos seus destinos, mas porque o cinema está intensamente presente na escola e na sociedade e, no momento da construção de uma base nacional para o currículo do ensino infantil, médio e fundamental as questões, contribuições e potencias do cinema na escola não podem ser excluídos.

Diversos componentes curriculares lançam mão de filmes de ficção, seriados, documentários para abordarem temas transversais e específicos de diferentes naturezas. O debate teórico que investigamos apontam para uma necessária vivência no âmbito escolar dos dispositivos cinematográficos desde a tenra idade seja para desenvolver a imaginação na Educação Infantil, na elaboração de cenários para o faz de conta, seja para a construção de identidade pessoal e cultural, seja pela singularidade da experiência sensível que o cinema possibilita.

Vale notar alguns fatos que sustentam nossa preocupação. Primeiramente o cinema é hoje obrigatório na escola. Graças à lei 13006/14, há uma obrigação de exibição de pelo menos duas horas de filmes brasileiros nas escolas. Esta lei, em vias de regulamentação, também exigirá que espaços físicos e materiais sejam garantidos nas escolas para sua efetivação, além da necessidade de uma real inclusão do cinema nas questões que tocam o currículo como um todo, transcendendo mesmo as linguagens específicas. Além de oferecer uma ampla versatilidade de conteúdo, a leitura de filmes e a própria produção audiovisual – inclusive com dispositivos móveis de comunicação – permite a professores e estudantes olhar para a realidade para descobri-la e inventá-la – gestos essenciais na produção de conhecimento.

Como bem é lembrado na proposta de BNC, “a formação em Arte acontece em licenciaturas específicas (artes visuais, dança, teatro e música)”, pois, também em licenciaturas de cinema. Embora talvez se presuma que “artes visuais” inclua de algum modo ao cinema, ele tem uma especificidade na formação do professor. Desde 2012 a Universidade Federal Fluminense possui uma licenciatura em cinema e a mobilização de outras universidade no mesmo caminho é evidente. Devemos ainda atentar à intensa contribuição que diversos programas de pós-graduação vêm dando às relações entre cinema e educação, algo que se evidência nos próprios encontros da sociedade que representamos, onde a cada ano temos diversos trabalhos e comunicações dedicados às relações do cinema com a educação.

Além da materialidade legal, de formação e de pesquisa que evidencia a íntima relação entre o cinema e a escola, a Rede Kino: Rede Latinoamericana de Educação, Cinema e Audiovisual, formada por professores e pesquisadores que trabalham na interface entre cinema e educação, vem mapeando projetos e iniciativas que se dedicam à essa interface, desde 2008. Projetos que acontecem em todo o país e que mobilizam centenas de escolas. Por fim, sabemos que o cinema é amplamente presente nas escolas por conta da contribuição que ele traz em tantas áreas, conteúdos e debates, da matemática às ciências, passando pelas histórias, geografias e humanidades em geral. Por todos esses motivos, pela intensa força pedagógica do cinema na escola, nos preocupa que no momento de construção de uma Base Curricular tão pouca atenção tenho sido dada ao cinema.

No nosso entender, a BNC deveria incluir um eixo Cinema e Audiovisual dentro do componente curricular artes, só assim garantiremos uma formação consistente em uma área decisiva da cultura contemporânea, além de uma experiência e uma habilidade em uma dimensão central das linguagens no mundo atual.

 

Atenciosamente

 

 

Cezar Migliorin

Presidente da SOCINE