Prezado Secretário do Audiovisual – interino, Sr. Alfredo Bertini

Prezado Ministro da Cultura – interino, Sr. Marcelo Calero

Prezado Presidente da República – interino, Sr. Michel Temer

Foi com estarrecimento que a Socine – Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual –  recebeu a notícia da demissão de vários funcionários da Cinemateca Brasileira, incluindo sua Coordenadora-geral, Olga Futemma.

A medida intempestiva, sem explicações ou aviso prévio, coloca em risco o trabalho de uma das maiores instituições de preservação audiovisual do mundo e que angariou o respeito de instituições congêneres de vários países e em especial da FIAF — International Federation of Film Archives.

O delicado acervo da Cinemateca requer manutenção contínua e altamente especializada. Funcionários com a mesma especialização e experiência não serão encontrados em curto prazo. Nesse sentido, temos a impressão de que nem a atual Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, nem o próprio ministro têm clareza sobre os danos que essa medida trará para um dos mais importantes patrimônios culturais do Brasil. Por isso, nós, pesquisadores de cinema, nos vemos no fundamental papel de alertar os senhores sobre os riscos que este acervo corre neste momento.

A Socine solicita ao Ministério da Cultura que reverta esse quadro gravíssimo.

Rio de Janeiro, 28 de Julho de 2016.

Ficha do Proponente

Proponente

    Pedro de Araujo Nogueira Tinen (Unicamp)

Minicurrículo

    Pedro Tinen é mestrando no programa de pós-graduação em Multimeios na Unicamp, onde pesquisa sobre o erotismo e as políticas identitárias no cinema do diretor japonês Nagisa Oshima, com orientação de Gilberto Alexandre Sobrinho. Com graduação em Comunicação Social, entre 2013 e 2014, realizou uma pesquisa de iniciação científica na área de cinema queer e ficção científica, com orientação de Karla Bessa.

Ficha do Trabalho

Título

    Desejo e nacionalismo em Tabu, de Nagisa Oshima

Resumo

    Tabu (1999), do diretor japonês Nagisa Oshima, aborda o desejo homoerótico enquanto temática e estética. Inserido no gênero jidaigeki (drama de época), Tabu se volta para o momento anterior à criação do estado moderno japonês para inferir sobre como o imaginário nacionalista emergente é articulador da produção de desejo. Este trabalho busca, a partir da problemática queer e feminista, analisar o potencial crítico das estratégias cinematográficas de Oshima ao elo entre corpo, desejo e nação.

Resumo expandido

    O diretor Nagisa Oshima, um dos principais expoentes da Nouvelle Vague Japonesa, ou Nuberu Bagu, como foi chamada pelos próprios japoneses, foi um dos mais importantes diretores do cinema japonês e mundial. Conhecido no Brasil principalmente pelo filme O Império dos Sentidos, Oshima é reconhecido pelo seu caráter transgressor e radical, exposto ao longo de sua filmografia, que se estendeu de 1959 até 1999. Tendo empregado com frequência o erotismo e a sexualidade como recursos de subversão das narrativas do sistema patriarcal japonês, em seu último filme, Tabu (Gohatto, 1999), ele abordou a homossexualidade, tratando da constituição da sexualidade masculina japonesa.
    O filme discute o Nanshoku termo geralmente traduzido como “erotismo masculino” e que fazia parte do Bushido, código de ética da classe samurai. O tema do desejo sexual entre homens é contado em meio à história da milícia Shinsen, criada no final do período Edo (1603 – 1867) para proteger o Shogunato Tokugawa das forças modernizadoras que se instalam no poder durante o período Meiji (1868 – 1912). Até o final do período Edo, o Japão, de maneira geral, tratava com naturalidade o desejo entre pessoas do mesmo sexo. É somente a partir da implantação do projeto de “nacionalismo oficial” (ANDERSON, 1986: 147) enquanto política de Estado e durante o processo de modernização da era Meiji, que o país começa a importar do ocidente o estigma das relações homossexuais, e quando as práticas do Nanshoku passam a ser taxadas como incoerentes com a noção de civilização que o Japão buscava adotar.
    Em Tabu, o homoerotismo é tanto uma temática quanto estética. Do ponto do vista temático, ele aponta, com certo grau de pessimismo, para uma revisão histórica, partindo das perspectivas do conflito sexual, do erotismo e da fragilidade das instituições políticas. Enquanto, do ponto de vista estético, há um deslocamento da escopofilia e do voyeurismo heteronormativo do cinema narrativo, tendo em vista que o jogo de olhares, intra e extra diegéticos, são submetidos ao olhar da curiosidade e do desejo homossexual. Um desejo que reconstitui os ideais de masculinidade que compõe a corporalidade do homem japonês.
    Dando atenção para como o pensamento nacionalista é produtor de um corpo erotizado, a partir de práticas normatizadoras do desejo, destaca-se a importância de uma leitura queer do filme. Este trabalho faz essa leitura abarcando as questões levantadas na Teoria Queer por Judith Butler (1990) e também partindo das discussões sobre sexualidade e nacionalismo colocadas por Michel Foucault (1976) e Benedict Anderson (1986). O livro seminal de Butler, Problemas de Gênero, foi um importante marco para estabelecer as bases da desconstrução da noção de gênero como uma construção cultural sobre um corpo sexuado, hegemonicamente presente no pensamento feminista no início dos anos de 1990. Na discussão que trata especificamente dos estudos queer no Japão, utilizo como textos base: o livro Cartographies of desire: Male-male sexuality in Japanese discourse, 1600-1950, de Gregory Pflugfelder (1999) e o artigo Nagisa Oshima’s Vast Historical Project and the Theme of Homoeroticism in Taboo (Gohatto), de Yoshihiro Yasuhara (2007).
    No que se refere aos estudos fílmicos, a análise parte do trabalho das teóricas: Teresa de Lauretis (1987) e Laura Mulvey (1989). Dois nomes importantes na consolidação de uma análise fílmica crítica, considerando a pertinência de se apropriar da noção de gênero (gender) como ferramenta privilegiada para adentrar a proliferação de imagens e a reiteração de um imaginário cinematográfico.

Bibliografia

    ANDERSON, Benedict. Imagined communities: reflections on the origin and spread of nationalism. Londres: Verso, 1986.
    BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990.
    DE LAURETIS, Teresa. Technologies of gender: essays on theory, film, and fiction. Bloomington: Indiana University Press, 2010, c1987.
    FOUCAULT, Michel. Historia da sexualidade 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2006, c1976.
    MULVEY, Laura. Visual and other pleasures. Bloomington; Indianapolis: Indiana University, 1989.
    PFLUGFELDER, Gregory M. Cartographies of desire: Male-male sexuality in Japanese discourse, 1600-1950. Berkeley: University of California Press,1999.
    YASUHARA, Yoshihiro. “Nagisa Oshima’s Vast Historical Project and the Theme of Homoeroticism in Taboo (Gohatto)”. In: Literature/Film Quarterly, v. 35, n. 1, 2007, p. 350-357.

O XX Encontro SOCINE acontecerá na UTP, em Curitiba, de 18 a 21 de outubro de 2016.

A lista dos trabalhos aprovados pode ser acessada aqui. Os associados também podem checar a avaliação final de seus trabalhos pela sua área de associado.

Todos os aprovados precisam realizar o pagamento dentro do prazo para que sua participação seja confirmada. Os valores, após o primeiro prazo, terão acréscimos.

  • PRIMEIRO PRAZO: 25 de julho a 10 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 150,00 – Discentes: R$ 75,00
  • SEGUNDO PRAZO: 11 a 21 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 170,00 – Discentes: R$ 85,00
  • TERCEIRO PRAZO: 22 a 29 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 200,00 – Discentes: R$ 100,00

Tendo qualquer dúvida ou dificuldade, favor contatar a secretaria no e-mail socine@socine.org.br.

Prezados membros da Socine,

 

Na semana passada foi divulgado o prêmio Compós para teses e dissertações na área de Comunicação.

Gostaríamos aqui de felicitar os vencedores.

Para nossa alegria, os nove premiados – orientandos e orientadores – são membros de nossa Sociedade de Estudos.

Parabéns Clarisse Maria Castro de Alvarenga, André Brasil, Claudia Mesquita, Luis Carlos de Oliveira Jr, Ismail Xavier, Dieison Marconi Pereira, Cássio Tomaim, Erica Ramos Sarmet dos Santos e Mariana Baltar Freire!

 

O resultado

Melhor Tese 2016:  Da cena do contato ao inacabamento da história: Os últimos isolados (1967-1999); Corumbiara (1986-2009); Os Arara (1980-)”

Autora: Clarisse Maria Castro de Alvarenga

Orientador: André Brasil (UFMG)

Co-orientadora: Claudia Mesquita (UFMG)

Menção Honrosa/Tese 2016 : Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno

Autor: Luis Carlos de Oliveira Jr

Orientador: Ismail Xavier (USP)

 Melhor Dissertação 2016:

Documentário queer no Sul do Brasil (2000-2014): narrativas contrassexuais e contradisciplinares nas representações das personagens LGBT

Aluno: Dieison Marconi Pereira (UFSM)

Orientador: Cássio Tomaim  (UFSM)

Menção Honrosa/Dissertação 2016 : Sin porno no hay posporno: corpo, excesso e ambivalência na América Latina

Autora : Erica Ramos Sarmet dos Santos

Orientador : Mariana Baltar Freire (UFF)

Temos a satisfação de informar que os Anais do XIX Encontro da Socine, ocorrido em 2015,  na Unicamp, estão publicados e podem ser acessados pela nossa página.
Mais uma vez, temos duas publicações:

1 – Anais digitais: publicação dos resumos expandidos de todos os trabalhos apresentados no Encontro.

2 – Anais de textos completos: publicação dos textos completos recebidos na chamada de trabalhos.

Agradecemos a participação de todos e esperamos reencontrá-los em Curitiba para o encontro deste ano.

Atenciosamente,

A Diretoria

São 12 os Seminários Temáticos aprovados para o biênio 2015-2017 da SOCINE:

  1. Cinema e América Latina: debates estético-historiográficos e culturais;
  2. Cinema e Ciências Sociais: diálogos e aportes metodológicos;
  3. Cinema e educação;
  4. Cinema e literatura, palavra e imagem;
  5. Cinema Queer e Feminista;
  6. Cinemas em português: aproximações – relações;
  7. Corpo, gesto, performance e mise en scène;
  8. Exibição cinematográfica, espectatorialidade e artes da projeção no Brasil;
  9. Interseções Cinema e Arte;
  10. O comum e o cinema;
  11. Teoria dos Cineastas;
  12. Teoria e Estética do Som no Audiovisual.

A lista detalhada com ementa e coordenadores de cada seminário está disponível aqui.

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2016.

 

Carta aberta ao Ministério da Educação e Ministério da Cultura

 

Assunto: Base Nacional Comum Curricular

 

 

A SOCINE (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual) tem acompanhado os esforços de construção da Base Nacional Comum Curricular. Nosso comentário aqui irá se ater à especificidade de nossa área e sua relação com as propostas apresentadas na BNCC.

Dentro do texto preliminar do BNCC o componente curricular ARTE parte de uma grande área chamada linguagens. Dentro desta área as artes foram divididas em quatro grandes eixos: “artes visuais, dança, teatro e música”, conforme as licenciaturas específicas em arte, desconsiderando a Licenciatura em Cinema e Audiovisual (Resolução do CNE n. 10, de 27 de junho de 2006) e excluindo completamente o cinema como uma arte específica.

Foi essa subdivisão que nos trouxe uma primeira preocupação. Junto à todos esses subcomponentes da área de artes nos parece fundamental que esteja também o cinema. Esta atenção e necessidade não existe apenas porque trabalhamos e pesquisamos cinema e estamos atentos aos seus destinos, mas porque o cinema está intensamente presente na escola e na sociedade e, no momento da construção de uma base nacional para o currículo do ensino infantil, médio e fundamental as questões, contribuições e potencias do cinema na escola não podem ser excluídos.

Diversos componentes curriculares lançam mão de filmes de ficção, seriados, documentários para abordarem temas transversais e específicos de diferentes naturezas. O debate teórico que investigamos apontam para uma necessária vivência no âmbito escolar dos dispositivos cinematográficos desde a tenra idade seja para desenvolver a imaginação na Educação Infantil, na elaboração de cenários para o faz de conta, seja para a construção de identidade pessoal e cultural, seja pela singularidade da experiência sensível que o cinema possibilita.

Vale notar alguns fatos que sustentam nossa preocupação. Primeiramente o cinema é hoje obrigatório na escola. Graças à lei 13006/14, há uma obrigação de exibição de pelo menos duas horas de filmes brasileiros nas escolas. Esta lei, em vias de regulamentação, também exigirá que espaços físicos e materiais sejam garantidos nas escolas para sua efetivação, além da necessidade de uma real inclusão do cinema nas questões que tocam o currículo como um todo, transcendendo mesmo as linguagens específicas. Além de oferecer uma ampla versatilidade de conteúdo, a leitura de filmes e a própria produção audiovisual – inclusive com dispositivos móveis de comunicação – permite a professores e estudantes olhar para a realidade para descobri-la e inventá-la – gestos essenciais na produção de conhecimento.

Como bem é lembrado na proposta de BNC, “a formação em Arte acontece em licenciaturas específicas (artes visuais, dança, teatro e música)”, pois, também em licenciaturas de cinema. Embora talvez se presuma que “artes visuais” inclua de algum modo ao cinema, ele tem uma especificidade na formação do professor. Desde 2012 a Universidade Federal Fluminense possui uma licenciatura em cinema e a mobilização de outras universidade no mesmo caminho é evidente. Devemos ainda atentar à intensa contribuição que diversos programas de pós-graduação vêm dando às relações entre cinema e educação, algo que se evidência nos próprios encontros da sociedade que representamos, onde a cada ano temos diversos trabalhos e comunicações dedicados às relações do cinema com a educação.

Além da materialidade legal, de formação e de pesquisa que evidencia a íntima relação entre o cinema e a escola, a Rede Kino: Rede Latinoamericana de Educação, Cinema e Audiovisual, formada por professores e pesquisadores que trabalham na interface entre cinema e educação, vem mapeando projetos e iniciativas que se dedicam à essa interface, desde 2008. Projetos que acontecem em todo o país e que mobilizam centenas de escolas. Por fim, sabemos que o cinema é amplamente presente nas escolas por conta da contribuição que ele traz em tantas áreas, conteúdos e debates, da matemática às ciências, passando pelas histórias, geografias e humanidades em geral. Por todos esses motivos, pela intensa força pedagógica do cinema na escola, nos preocupa que no momento de construção de uma Base Curricular tão pouca atenção tenho sido dada ao cinema.

No nosso entender, a BNC deveria incluir um eixo Cinema e Audiovisual dentro do componente curricular artes, só assim garantiremos uma formação consistente em uma área decisiva da cultura contemporânea, além de uma experiência e uma habilidade em uma dimensão central das linguagens no mundo atual.

 

Atenciosamente

 

 

Cezar Migliorin

Presidente da SOCINE