Prezado Secretário do Audiovisual – interino, Sr. Alfredo Bertini

Prezado Ministro da Cultura – interino, Sr. Marcelo Calero

Prezado Presidente da República – interino, Sr. Michel Temer

Foi com estarrecimento que a Socine – Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual –  recebeu a notícia da demissão de vários funcionários da Cinemateca Brasileira, incluindo sua Coordenadora-geral, Olga Futemma.

A medida intempestiva, sem explicações ou aviso prévio, coloca em risco o trabalho de uma das maiores instituições de preservação audiovisual do mundo e que angariou o respeito de instituições congêneres de vários países e em especial da FIAF — International Federation of Film Archives.

O delicado acervo da Cinemateca requer manutenção contínua e altamente especializada. Funcionários com a mesma especialização e experiência não serão encontrados em curto prazo. Nesse sentido, temos a impressão de que nem a atual Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, nem o próprio ministro têm clareza sobre os danos que essa medida trará para um dos mais importantes patrimônios culturais do Brasil. Por isso, nós, pesquisadores de cinema, nos vemos no fundamental papel de alertar os senhores sobre os riscos que este acervo corre neste momento.

A Socine solicita ao Ministério da Cultura que reverta esse quadro gravíssimo.

Rio de Janeiro, 28 de Julho de 2016.

Ficha do Proponente

Proponente

    Patricia Cunegundes Guimaraes (UnB)

Minicurrículo

    Mestranda na Faculdade de Comunicação (FAC) da Universidade de Brasília (UnB), no período de 2016-2018, linha de pesquisa Imagem, Som e Escrita – Diálogo entre o audiovisual e a arte. Possui graduação em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1997) e Especialização em Economia para Jornalistas pela Universidade Federal do Ceará (2000). Fotógrafa e jornalista com experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Comunicação Organizacional.

Ficha do Trabalho

Título

    A fotografia de família no documentário “Diário de uma busca”

Resumo

    O trabalho analisa a importância do uso de fotografias de família como gatilho acionador de memória em “documentários de busca”. No filme “Diário de uma busca”, a cineasta Flávia Castro apoia-se em seu diário, documentos, fotografias de família e cartas para apresentar a vida de seu pai, Celso Afonso Gay de Castro, militante de esquerda morto em 1984. A partir da soma de todas as memórias afetivas, Flávia Castro tenta reconstruir muito mais do que a identidade do pai, mas a sua própria história.

Resumo expandido

    A fotografia de família é compreendida como um gatilho para acionar memórias afetivas. Cada foto guardada tem, atrás de si, uma história, embora seja uma história hierarquizada, em que, pelo menos visualmente, os momentos de fragilidade, dor e sofrimento familiares estão escondidos. Os álbuns de família, entendidos como “um conjunto de fotografias que compõem o imaginário documentado de um grupo atado por laços de intimidade – encerram uma temporalidade própria” (BUCCI, 2008).
    Para Rouillé (2009), a fotografia seria um dispositivo munido do poder misterioso e divino de ressuscitar simbolicamente os mortos, de autorizar a volta dos corpos da morte para a vida, ressuscitar o que o tempo eliminou, de inverter o curso. Barthes (2009) reforça esta ideia, quando diz que as imagens não passam de um ponto de partida para percursos regressivos intermináveis e difíceis, de infinitas retomadas.
    Para existir, a memória tem que ser compartilhada. Hirsch (2012) defende que fotografia de família pode funcionar entre o que chama de “memória pessoal” e “história social”, entre o mito público e o inconsciente pessoal. Segundo a autora, “a nossa memória nunca é totalmente ‘nossa’, nem as imagens são sempre representações não mediadas do nosso passado”. As fotografias de família compõem um importante material de pesquisa e investigação do passado. Cada vez mais, imagens da família têm-se tornado objeto de escrutínio em diversos campos, entre eles o cinema.
    De acordo com Peixoto (2011), utilizando documentos fílmicos, jornais, fotografias, desenhos e testemunhos, eles (os filmes) reconstroem um momento da história, falam do passado através de “personagens” que são confrontados com sua própria memória. Para Peixoto (2011) biografias podem ser fontes metodológicas extremamente eficazes para a compreensão dos processos de construção de memória social.
    O documentário “Diário de uma busca” (2010), da diretora Flávia Castro, cujo roteiro apresenta a história de seu pai, Celso Afonso Gay de Castro, militante de esquerda morto em 1984, apresenta um trabalho complexo de (re)constituição da memória. Apoiada no diário que escreveu desde pequena e em fotografias de família, cartas, documentos oficiais e recortes de jornais, Flávia Castro conduz, muito mais do que a história do pai, mas sua própria história.
    A intenção real do filme, que vai muito além de tentar entender as circunstâncias da morte do pai, fica bem clara logo no início, quando Flávia, narradora do documentário, diz: “Mas durante muito tempo, pensar no meu pai significava pensar na sua morte. Como se pelo seu enigma e pela sua violência, ela tivesse apagado a sua história e, com ela, parte da minha vida”.
    As fotografias de família – sejam guardadas em álbuns, esquecidas em caixas de sapato, expostas em porta-retratos ou ‘grudadas’ na geladeira – preservam nossa história ancestral e perpetuam memórias. Quando fotografamos nossos momentos familiares, normalmente criamos uma imagem idealizada das relações inter-familiares. No entanto, com o passar do tempo, a análise do conjunto de imagens revela camadas mais profundas, evocando lembranças que vão além do que o idealizado pelo fotógrafo e pelos fotografados à época. Uma fotografia de aniversário pode revelar, por exemplo, a relação conflituosa entre pais e filhos, entre irmãos; pode revelar distanciamento entre os fotografados, pode trazer à tona fatos não retratados, mas que estão impressos, em camadas ocultas, esperando um escrutínio.
    Por isso, a importância do uso de fotografias de família como detonador de memória no que se pode chamar de “documentário de busca”.
    Apesar de as memórias serem parte da vida de uma família específica, os sentimentos que elas despertam são universais. Neste sentido, o documentário Diário de uma busca, além de tentar reconstruir a vida de Celso Afonso Gay de Castro, consegue falar sobre todas as famílias que viveram o exílio e a repressão durante a ditadura militar.

Bibliografia

    BARTHES. Roland. A Câmara clara. 13. ed., Lisboa: Edições 70, 2009.
    BEZERRA, J.C. Nós, sujeitos autobiógrafos: uma história de narradores, romancistas e cineastas do Eu. Contracampo (UFF), v. 16, 2007.
    BUCCI, Eugênio. Álbum de família – Meu pai, meus irmãos e o tempo. In: MAMMI, Lourenço e MORITZ SCHWARCZ, Lilia. 8x Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
    HIRSCH, Marianne. Family Frames – Photography narrative and postmemory. 2. ed., Cambridge: Harvard University Press, 2012.
    KOSSOY, Boris. Fotografia & História – 4. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012.
    PEIXOTO, Clarice Ehlers (org). Antropologia&Imagem volume 1. Rio de Janeiro: Garamond, 2011.
    ROUILLÉ. André. A fotografia: entre documento e a arte contemporânea. São Paulo: Editora Senac, 2009.
    VEIGA, R. O menor e o maior no cinema pessoal: Diário de uma busca. Elena e Mataram meu irmão. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-
    Graduação em Comunicação, v.17, n.3, set./dez. 2014.

O XX Encontro SOCINE acontecerá na UTP, em Curitiba, de 18 a 21 de outubro de 2016.

A lista dos trabalhos aprovados pode ser acessada aqui. Os associados também podem checar a avaliação final de seus trabalhos pela sua área de associado.

Todos os aprovados precisam realizar o pagamento dentro do prazo para que sua participação seja confirmada. Os valores, após o primeiro prazo, terão acréscimos.

  • PRIMEIRO PRAZO: 25 de julho a 10 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 150,00 – Discentes: R$ 75,00
  • SEGUNDO PRAZO: 11 a 21 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 170,00 – Discentes: R$ 85,00
  • TERCEIRO PRAZO: 22 a 29 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 200,00 – Discentes: R$ 100,00

Tendo qualquer dúvida ou dificuldade, favor contatar a secretaria no e-mail socine@socine.org.br.

Prezados membros da Socine,

 

Na semana passada foi divulgado o prêmio Compós para teses e dissertações na área de Comunicação.

Gostaríamos aqui de felicitar os vencedores.

Para nossa alegria, os nove premiados – orientandos e orientadores – são membros de nossa Sociedade de Estudos.

Parabéns Clarisse Maria Castro de Alvarenga, André Brasil, Claudia Mesquita, Luis Carlos de Oliveira Jr, Ismail Xavier, Dieison Marconi Pereira, Cássio Tomaim, Erica Ramos Sarmet dos Santos e Mariana Baltar Freire!

 

O resultado

Melhor Tese 2016:  Da cena do contato ao inacabamento da história: Os últimos isolados (1967-1999); Corumbiara (1986-2009); Os Arara (1980-)”

Autora: Clarisse Maria Castro de Alvarenga

Orientador: André Brasil (UFMG)

Co-orientadora: Claudia Mesquita (UFMG)

Menção Honrosa/Tese 2016 : Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno

Autor: Luis Carlos de Oliveira Jr

Orientador: Ismail Xavier (USP)

 Melhor Dissertação 2016:

Documentário queer no Sul do Brasil (2000-2014): narrativas contrassexuais e contradisciplinares nas representações das personagens LGBT

Aluno: Dieison Marconi Pereira (UFSM)

Orientador: Cássio Tomaim  (UFSM)

Menção Honrosa/Dissertação 2016 : Sin porno no hay posporno: corpo, excesso e ambivalência na América Latina

Autora : Erica Ramos Sarmet dos Santos

Orientador : Mariana Baltar Freire (UFF)

Temos a satisfação de informar que os Anais do XIX Encontro da Socine, ocorrido em 2015,  na Unicamp, estão publicados e podem ser acessados pela nossa página.
Mais uma vez, temos duas publicações:

1 – Anais digitais: publicação dos resumos expandidos de todos os trabalhos apresentados no Encontro.

2 – Anais de textos completos: publicação dos textos completos recebidos na chamada de trabalhos.

Agradecemos a participação de todos e esperamos reencontrá-los em Curitiba para o encontro deste ano.

Atenciosamente,

A Diretoria

São 12 os Seminários Temáticos aprovados para o biênio 2015-2017 da SOCINE:

  1. Cinema e América Latina: debates estético-historiográficos e culturais;
  2. Cinema e Ciências Sociais: diálogos e aportes metodológicos;
  3. Cinema e educação;
  4. Cinema e literatura, palavra e imagem;
  5. Cinema Queer e Feminista;
  6. Cinemas em português: aproximações – relações;
  7. Corpo, gesto, performance e mise en scène;
  8. Exibição cinematográfica, espectatorialidade e artes da projeção no Brasil;
  9. Interseções Cinema e Arte;
  10. O comum e o cinema;
  11. Teoria dos Cineastas;
  12. Teoria e Estética do Som no Audiovisual.

A lista detalhada com ementa e coordenadores de cada seminário está disponível aqui.

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2016.

 

Carta aberta ao Ministério da Educação e Ministério da Cultura

 

Assunto: Base Nacional Comum Curricular

 

 

A SOCINE (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual) tem acompanhado os esforços de construção da Base Nacional Comum Curricular. Nosso comentário aqui irá se ater à especificidade de nossa área e sua relação com as propostas apresentadas na BNCC.

Dentro do texto preliminar do BNCC o componente curricular ARTE parte de uma grande área chamada linguagens. Dentro desta área as artes foram divididas em quatro grandes eixos: “artes visuais, dança, teatro e música”, conforme as licenciaturas específicas em arte, desconsiderando a Licenciatura em Cinema e Audiovisual (Resolução do CNE n. 10, de 27 de junho de 2006) e excluindo completamente o cinema como uma arte específica.

Foi essa subdivisão que nos trouxe uma primeira preocupação. Junto à todos esses subcomponentes da área de artes nos parece fundamental que esteja também o cinema. Esta atenção e necessidade não existe apenas porque trabalhamos e pesquisamos cinema e estamos atentos aos seus destinos, mas porque o cinema está intensamente presente na escola e na sociedade e, no momento da construção de uma base nacional para o currículo do ensino infantil, médio e fundamental as questões, contribuições e potencias do cinema na escola não podem ser excluídos.

Diversos componentes curriculares lançam mão de filmes de ficção, seriados, documentários para abordarem temas transversais e específicos de diferentes naturezas. O debate teórico que investigamos apontam para uma necessária vivência no âmbito escolar dos dispositivos cinematográficos desde a tenra idade seja para desenvolver a imaginação na Educação Infantil, na elaboração de cenários para o faz de conta, seja para a construção de identidade pessoal e cultural, seja pela singularidade da experiência sensível que o cinema possibilita.

Vale notar alguns fatos que sustentam nossa preocupação. Primeiramente o cinema é hoje obrigatório na escola. Graças à lei 13006/14, há uma obrigação de exibição de pelo menos duas horas de filmes brasileiros nas escolas. Esta lei, em vias de regulamentação, também exigirá que espaços físicos e materiais sejam garantidos nas escolas para sua efetivação, além da necessidade de uma real inclusão do cinema nas questões que tocam o currículo como um todo, transcendendo mesmo as linguagens específicas. Além de oferecer uma ampla versatilidade de conteúdo, a leitura de filmes e a própria produção audiovisual – inclusive com dispositivos móveis de comunicação – permite a professores e estudantes olhar para a realidade para descobri-la e inventá-la – gestos essenciais na produção de conhecimento.

Como bem é lembrado na proposta de BNC, “a formação em Arte acontece em licenciaturas específicas (artes visuais, dança, teatro e música)”, pois, também em licenciaturas de cinema. Embora talvez se presuma que “artes visuais” inclua de algum modo ao cinema, ele tem uma especificidade na formação do professor. Desde 2012 a Universidade Federal Fluminense possui uma licenciatura em cinema e a mobilização de outras universidade no mesmo caminho é evidente. Devemos ainda atentar à intensa contribuição que diversos programas de pós-graduação vêm dando às relações entre cinema e educação, algo que se evidência nos próprios encontros da sociedade que representamos, onde a cada ano temos diversos trabalhos e comunicações dedicados às relações do cinema com a educação.

Além da materialidade legal, de formação e de pesquisa que evidencia a íntima relação entre o cinema e a escola, a Rede Kino: Rede Latinoamericana de Educação, Cinema e Audiovisual, formada por professores e pesquisadores que trabalham na interface entre cinema e educação, vem mapeando projetos e iniciativas que se dedicam à essa interface, desde 2008. Projetos que acontecem em todo o país e que mobilizam centenas de escolas. Por fim, sabemos que o cinema é amplamente presente nas escolas por conta da contribuição que ele traz em tantas áreas, conteúdos e debates, da matemática às ciências, passando pelas histórias, geografias e humanidades em geral. Por todos esses motivos, pela intensa força pedagógica do cinema na escola, nos preocupa que no momento de construção de uma Base Curricular tão pouca atenção tenho sido dada ao cinema.

No nosso entender, a BNC deveria incluir um eixo Cinema e Audiovisual dentro do componente curricular artes, só assim garantiremos uma formação consistente em uma área decisiva da cultura contemporânea, além de uma experiência e uma habilidade em uma dimensão central das linguagens no mundo atual.

 

Atenciosamente

 

 

Cezar Migliorin

Presidente da SOCINE