Prezado Secretário do Audiovisual – interino, Sr. Alfredo Bertini

Prezado Ministro da Cultura – interino, Sr. Marcelo Calero

Prezado Presidente da República – interino, Sr. Michel Temer

Foi com estarrecimento que a Socine – Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual –  recebeu a notícia da demissão de vários funcionários da Cinemateca Brasileira, incluindo sua Coordenadora-geral, Olga Futemma.

A medida intempestiva, sem explicações ou aviso prévio, coloca em risco o trabalho de uma das maiores instituições de preservação audiovisual do mundo e que angariou o respeito de instituições congêneres de vários países e em especial da FIAF — International Federation of Film Archives.

O delicado acervo da Cinemateca requer manutenção contínua e altamente especializada. Funcionários com a mesma especialização e experiência não serão encontrados em curto prazo. Nesse sentido, temos a impressão de que nem a atual Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, nem o próprio ministro têm clareza sobre os danos que essa medida trará para um dos mais importantes patrimônios culturais do Brasil. Por isso, nós, pesquisadores de cinema, nos vemos no fundamental papel de alertar os senhores sobre os riscos que este acervo corre neste momento.

A Socine solicita ao Ministério da Cultura que reverta esse quadro gravíssimo.

Rio de Janeiro, 28 de Julho de 2016.

Ficha do Proponente

Proponente

    KENIA CARDOSO VILACA DE FREITAS (UCB)

Minicurrículo

    Pós-doutoranda pelo Mestrado em Comunicação na UCB. Doutora pela Eco/UFRJ e mestre em Comunicação pela Unicamp. Graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Departamento de Comunicação Social da Ufes.

Ficha do Trabalho

Título

    Afrofuturismo e a diáspora negra: uma viagem temporal por imagens

Resumo

    O trabalho pretende analisar filmes que lidam com a experiência da diáspora negra explorando o universo da ficção especulativa e dos curto-circuitos temporais. As reflexões serão traçadas a partir dos filmes: “Space is the place” (John Coney, EUA, 1974), “Last angel of history” (John Akomfrah, Reino Unido, 1996) e “Branco sai, Preto Fica”, (Adirley Queirós, Brasil, 2014). Nesses filmes, os personagens negros vivenciam processos diaspóricos diversos (geográfica e culturalmente), porém em todos o amalgama entre passado, presente e futuro é um um elemento central da história e da sua potência estética e política. Assim, nós tentaremos entender que perspectiva é essa nesses filmes afrofuturistas: utópica ou distópica? Como eles imaginam e fabulam o passado? Como especulam e alucinam o futuro? Nosso objetivo será o de explorar as especulações e as interseções das temporalidades em cada uma dessas narrativas nas suas respectivas construções das viagens temporais dos seus personagens.

Resumo expandido

    Em “Space is the place” (John Coney, EUA, 1974), o jazzista Sun Ra retorna a Terra (após anos em exílio extraplanetário, acompanhado apenas por sua banda). Nessa volta, a missão do músico é a de libertar a população negra do planeta, levando-os para a nova colônia extreterrena. Para realizar o seu objetivo ele terá de duelar em jogo de cartas com o diabo. A disputa consiste em uma série de desafios (que se desenrolam em décadas diversas) entre Ra e o diabo pela alma dos negros americanos.
    Em “Last angel of history” (John Akomfrah, Reino Unido, 1996), o “ladrão de dados” deve viajar através do tempo e espaço em busca de uma encruzilhada onde ele fará escavações arqueológicas a procura de fragmentos da história e das tecnologias que revelarão o código que guarda a chave para o seu futuro. Nessa metanarrativa, o que a estrutura do filme revela é a própria construção do movimento afrofuturista – por imagens de arquivo diversas e por entrevistas com teóricos e artistas negros construtores do movimento.
    No filme “Branco sai, preto fica” (Adirley Queirós, Brasil, 2014), Dimas Cravalanças é um viajante no tempo, vindo diretamente de 2073. A sua missão é a de coletar evidências no passado sobre as ações repressivas da polícia no baile charme do Quarentão, na Ceilândia, DF, Brasil. O crime do Estado brasileiro aconteceu em 1986, mas Dimas foi mandado para cerca de 30 anos depois do acontecimento, caindo com a sua máquina do tempo nos dias atuais. Esses eventos traumáticos do passado são o ponto de referência da parte verídica da narrativa. E o presente é uma versão distópica da capital brasileira e dos seus entornos.
    Partindo das narrativas desses três filmes, este trabalho pretende analisar filmes que lidam com a experiência da diáspora negra explorando o universo da ficção especulativa e dos curto-circuitos temporais. Como os personagens reais, ficcionais e autofabulados desses filmes, podemos dizer que as populações negras em diáspora são os descendentes diretos de alienígenas, abduzidos de uma cultura para outra pela escravidão. A comparação do processo de diáspora da população africana com a construção de uma narrativa de ficção científica extraterrestre não deixa de ser brutal, potente e, ao mesmo tempo, curiosa – visto que tão poucos negros e negras protagonizam (como criadores e/ou personagens) o universo das fantasias futuríticas no cinema. Essa ideia é o ponto a partir do qual Mark Dery cunha o termo Afrofuturismo para tratar das criações artísticas que, por meio da ficção científica, inventam outros futuros para as populações negras atuais.
    Mais do que previsões ou premonições do futuro, as narrativas de ficção científica são formas especulativas de pensar o presente. Kudwo Eshun traduz essa ideia em uma concisa e certeira frase: “A existência negra e a ficção científica são uma e a mesma”. Para o escritor de ficção científica Samuel R. Delany, há uma ligação direta entre a privação da construção de um passado das populações negras em diáspora pós-escravidão e a escassa produção de imagens futuras para as populações negras.
    Iremos analisar então os filmes que tratam da experiência da diáspora negra, explorando o universo da ficção especulativa e dos curto-circuito temporais que esses filmes engatilham. Para isso, seguiremos os rastros incertos destes personagens viajantes no tempo que zigzagueiam entre passado, futuro e presente. Cada viajante vivencia processos diaspóricos diversos (geográfica e culturalmente), porém em todos o amalgama temporal é um um elemento central da história e da sua potência estética e política. Assim, nós tentaremos entender que perspectiva é essa das narrativas: utópica ou distópica? Como eles imaginam e fabulam o passado? Como especulam e alucinam o futuro? Nosso objetivo será o de explorar as especulações e as interseções das temporalidades em cada uma dessas narrativas cinematográficas, a partir das viagens temporais dos seus personagens.

Bibliografia

    DELANY, S. R. The necessity of tomorrows. In: Starboard Wine: more notes on the language of science fiction. New York: Dragon Press, 1983.
    DERY, M. “Black to the future: interviews with Samuel R. Delany, Greg Tate and Tricia Rose”. In: Flame Wars: the discourse of cyberculture. Durham, NC: Duke University Press, 1994.
    ESHUN, K. “Further considarations on Afrofuturism”. In: The New Centennial Review, Volume 3, Number 2, Summer 2003, pp. 287-302.
    __________. More Brilliant Than the Sun: Adventures in Sonic Fiction. London: Quartet Books, 1998.
    FREITAS, K. (org.). Afrofuturismo: cinema e música em uma diáspora intergaláctica. São Paulo, Festival Catalogue: November, 2015.
    HARAWAY, D. Sowing Worlds: a seedbag for terraforming with earth others. In: GROBOWICZ, M., MERRICK, H. (Orgs.). Beyond the cyborg: adventures with Donna Haraway. Nova Iorque: Columbia University Press, 2013.
    WOMACK, Y. Afrofuturism: The world of black sci-fi and fantasy culture. Chicago: Lawrence Hill Books, 2013.

O XX Encontro SOCINE acontecerá na UTP, em Curitiba, de 18 a 21 de outubro de 2016.

A lista dos trabalhos aprovados pode ser acessada aqui. Os associados também podem checar a avaliação final de seus trabalhos pela sua área de associado.

Todos os aprovados precisam realizar o pagamento dentro do prazo para que sua participação seja confirmada. Os valores, após o primeiro prazo, terão acréscimos.

  • PRIMEIRO PRAZO: 25 de julho a 10 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 150,00 – Discentes: R$ 75,00
  • SEGUNDO PRAZO: 11 a 21 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 170,00 – Discentes: R$ 85,00
  • TERCEIRO PRAZO: 22 a 29 de agosto de 2016 – Docentes e profissionais: R$ 200,00 – Discentes: R$ 100,00

Tendo qualquer dúvida ou dificuldade, favor contatar a secretaria no e-mail socine@socine.org.br.

Prezados membros da Socine,

 

Na semana passada foi divulgado o prêmio Compós para teses e dissertações na área de Comunicação.

Gostaríamos aqui de felicitar os vencedores.

Para nossa alegria, os nove premiados – orientandos e orientadores – são membros de nossa Sociedade de Estudos.

Parabéns Clarisse Maria Castro de Alvarenga, André Brasil, Claudia Mesquita, Luis Carlos de Oliveira Jr, Ismail Xavier, Dieison Marconi Pereira, Cássio Tomaim, Erica Ramos Sarmet dos Santos e Mariana Baltar Freire!

 

O resultado

Melhor Tese 2016:  Da cena do contato ao inacabamento da história: Os últimos isolados (1967-1999); Corumbiara (1986-2009); Os Arara (1980-)”

Autora: Clarisse Maria Castro de Alvarenga

Orientador: André Brasil (UFMG)

Co-orientadora: Claudia Mesquita (UFMG)

Menção Honrosa/Tese 2016 : Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno

Autor: Luis Carlos de Oliveira Jr

Orientador: Ismail Xavier (USP)

 Melhor Dissertação 2016:

Documentário queer no Sul do Brasil (2000-2014): narrativas contrassexuais e contradisciplinares nas representações das personagens LGBT

Aluno: Dieison Marconi Pereira (UFSM)

Orientador: Cássio Tomaim  (UFSM)

Menção Honrosa/Dissertação 2016 : Sin porno no hay posporno: corpo, excesso e ambivalência na América Latina

Autora : Erica Ramos Sarmet dos Santos

Orientador : Mariana Baltar Freire (UFF)

Temos a satisfação de informar que os Anais do XIX Encontro da Socine, ocorrido em 2015,  na Unicamp, estão publicados e podem ser acessados pela nossa página.
Mais uma vez, temos duas publicações:

1 – Anais digitais: publicação dos resumos expandidos de todos os trabalhos apresentados no Encontro.

2 – Anais de textos completos: publicação dos textos completos recebidos na chamada de trabalhos.

Agradecemos a participação de todos e esperamos reencontrá-los em Curitiba para o encontro deste ano.

Atenciosamente,

A Diretoria

São 12 os Seminários Temáticos aprovados para o biênio 2015-2017 da SOCINE:

  1. Cinema e América Latina: debates estético-historiográficos e culturais;
  2. Cinema e Ciências Sociais: diálogos e aportes metodológicos;
  3. Cinema e educação;
  4. Cinema e literatura, palavra e imagem;
  5. Cinema Queer e Feminista;
  6. Cinemas em português: aproximações – relações;
  7. Corpo, gesto, performance e mise en scène;
  8. Exibição cinematográfica, espectatorialidade e artes da projeção no Brasil;
  9. Interseções Cinema e Arte;
  10. O comum e o cinema;
  11. Teoria dos Cineastas;
  12. Teoria e Estética do Som no Audiovisual.

A lista detalhada com ementa e coordenadores de cada seminário está disponível aqui.

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2016.

 

Carta aberta ao Ministério da Educação e Ministério da Cultura

 

Assunto: Base Nacional Comum Curricular

 

 

A SOCINE (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual) tem acompanhado os esforços de construção da Base Nacional Comum Curricular. Nosso comentário aqui irá se ater à especificidade de nossa área e sua relação com as propostas apresentadas na BNCC.

Dentro do texto preliminar do BNCC o componente curricular ARTE parte de uma grande área chamada linguagens. Dentro desta área as artes foram divididas em quatro grandes eixos: “artes visuais, dança, teatro e música”, conforme as licenciaturas específicas em arte, desconsiderando a Licenciatura em Cinema e Audiovisual (Resolução do CNE n. 10, de 27 de junho de 2006) e excluindo completamente o cinema como uma arte específica.

Foi essa subdivisão que nos trouxe uma primeira preocupação. Junto à todos esses subcomponentes da área de artes nos parece fundamental que esteja também o cinema. Esta atenção e necessidade não existe apenas porque trabalhamos e pesquisamos cinema e estamos atentos aos seus destinos, mas porque o cinema está intensamente presente na escola e na sociedade e, no momento da construção de uma base nacional para o currículo do ensino infantil, médio e fundamental as questões, contribuições e potencias do cinema na escola não podem ser excluídos.

Diversos componentes curriculares lançam mão de filmes de ficção, seriados, documentários para abordarem temas transversais e específicos de diferentes naturezas. O debate teórico que investigamos apontam para uma necessária vivência no âmbito escolar dos dispositivos cinematográficos desde a tenra idade seja para desenvolver a imaginação na Educação Infantil, na elaboração de cenários para o faz de conta, seja para a construção de identidade pessoal e cultural, seja pela singularidade da experiência sensível que o cinema possibilita.

Vale notar alguns fatos que sustentam nossa preocupação. Primeiramente o cinema é hoje obrigatório na escola. Graças à lei 13006/14, há uma obrigação de exibição de pelo menos duas horas de filmes brasileiros nas escolas. Esta lei, em vias de regulamentação, também exigirá que espaços físicos e materiais sejam garantidos nas escolas para sua efetivação, além da necessidade de uma real inclusão do cinema nas questões que tocam o currículo como um todo, transcendendo mesmo as linguagens específicas. Além de oferecer uma ampla versatilidade de conteúdo, a leitura de filmes e a própria produção audiovisual – inclusive com dispositivos móveis de comunicação – permite a professores e estudantes olhar para a realidade para descobri-la e inventá-la – gestos essenciais na produção de conhecimento.

Como bem é lembrado na proposta de BNC, “a formação em Arte acontece em licenciaturas específicas (artes visuais, dança, teatro e música)”, pois, também em licenciaturas de cinema. Embora talvez se presuma que “artes visuais” inclua de algum modo ao cinema, ele tem uma especificidade na formação do professor. Desde 2012 a Universidade Federal Fluminense possui uma licenciatura em cinema e a mobilização de outras universidade no mesmo caminho é evidente. Devemos ainda atentar à intensa contribuição que diversos programas de pós-graduação vêm dando às relações entre cinema e educação, algo que se evidência nos próprios encontros da sociedade que representamos, onde a cada ano temos diversos trabalhos e comunicações dedicados às relações do cinema com a educação.

Além da materialidade legal, de formação e de pesquisa que evidencia a íntima relação entre o cinema e a escola, a Rede Kino: Rede Latinoamericana de Educação, Cinema e Audiovisual, formada por professores e pesquisadores que trabalham na interface entre cinema e educação, vem mapeando projetos e iniciativas que se dedicam à essa interface, desde 2008. Projetos que acontecem em todo o país e que mobilizam centenas de escolas. Por fim, sabemos que o cinema é amplamente presente nas escolas por conta da contribuição que ele traz em tantas áreas, conteúdos e debates, da matemática às ciências, passando pelas histórias, geografias e humanidades em geral. Por todos esses motivos, pela intensa força pedagógica do cinema na escola, nos preocupa que no momento de construção de uma Base Curricular tão pouca atenção tenho sido dada ao cinema.

No nosso entender, a BNC deveria incluir um eixo Cinema e Audiovisual dentro do componente curricular artes, só assim garantiremos uma formação consistente em uma área decisiva da cultura contemporânea, além de uma experiência e uma habilidade em uma dimensão central das linguagens no mundo atual.

 

Atenciosamente

 

 

Cezar Migliorin

Presidente da SOCINE