Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gabriela (PUC-Rio)

Minicurrículo

    Mestranda em Comunicação Social pela PUC-Rio, na linha Comunicação e Experiência. Graduada em Cinema pela mesma instituição. Atua como assistente de curadoria e aquisições no Canal Curta!. Desenvolve pesquisa sobre cinema brasileiro, memória e arquivo. Integra o coletivo audiovisual MUSGO e coordena a produtora Matula Cultural.

Ficha do Trabalho

Título

    Ler o vestígio: arquivo, contra-arquivo e a história de Paralelos Trágicos

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    O trabalho analisa Paralelos Trágicos (1967), primeiro longa-metragem de ficção do Mato Grosso, para discutir as descontinuidades da história do cinema brasileiro a partir do arquivo. Com base em vestígios documentais, investiga como um filme historicamente existente passa a ser administrado como ausência. O caso permite refletir sobre as políticas da memória e a marginalização de produções fora do eixo Rio–São Paulo.

Resumo expandido

    O trabalho parte de Paralelos Trágicos (1967), dirigido por Abboud Lahdo e produzido por Bernardo Elias Lahdo, primeiro longa-metragem de ficção realizado no então Mato Grosso uno, para discutir as descontinuidades da história do cinema brasileiro a partir do arquivo. A produção foi amplamente acompanhada pela imprensa, exibida em diferentes cidades e integrada ao debate cinematográfico de seu tempo, chegando à pré-seleção do Festival de Brasília. Ainda assim, ao longo das décadas, passa a ser recorrentemente nomeada como “filme perdido”.

    O deslocamento entre presença histórica e posterior ausência orienta a análise. A partir de vestígios – críticas de imprensa, registros de circulação, documentos institucionais e materiais preservados em cinematecas -, investiga-se como uma obra efetivamente existente passa a ser progressivamente administrada como ausência. O arquivo é compreendido como campo de disputa, no qual se definem as condições de visibilidade, legibilidade e permanência das imagens.

    A reflexão dialoga com a formulação de Paulo Emílio Salles Gomes acerca da fragilidade estrutural da memória cinematográfica brasileira, marcada por descontinuidades na produção, na preservação e na transmissão das obras (GOMES, 1996). A trajetória de Paralelos Trágicos permite observar como filmes produzidos fora do eixo Rio–São Paulo ocupam uma posição instável na historiografia, frequentemente deslocados para o campo da exceção ou da curiosidade regional, processo já indicado por leituras críticas do período (BERNARDET, 1975).

    A abordagem se aproxima de perspectivas que tratam o arquivo como dispositivo ativo de regulação do passado. A partir da noção de história potencial, o arquivo é entendido como estrutura que simultaneamente conserva e contém, produzindo zonas de latência e suspensão (AZOULAY, 2024). Nesse contexto, o rótulo “filme perdido” opera como forma de estabilização da ausência, contribuindo para a interrupção da investigação histórica.

    Essa leitura também se articula a uma compreensão do arquivo como prática, marcada por gestos de seleção, organização e inscrição de experiências (ARTIÈRES, 1998). Ao considerar esses processos, torna-se possível observar como a ausência do filme não resulta apenas de perdas materiais, mas de modos específicos de produção e gestão da memória.

    A noção de “filme-vestígio” é mobilizada para dar conta dessa condição. Paralelos Trágicos persiste como materialidade arquivada, ainda que em estado precário, e como conjunto de registros que atestam sua circulação, ao mesmo tempo em que sua experiência permanece parcialmente inacessível. A questão desloca-se, assim, da perda para os modos de transmissão e reinscrição histórica.

    Metodologicamente, o trabalho se constrói a partir da leitura desses vestígios como índices das condições que possibilitaram a existência, a circulação e o apagamento relativo do filme. Esse gesto aproxima-se de práticas de contra-arquivo, ao reinscrever no campo da análise uma obra cuja ausência foi naturalizada e ao interrogar os modos pelos quais determinadas imagens permanecem à margem.

    Ao acompanhar esse percurso, o trabalho busca contribuir para uma reflexão sobre os regimes de visibilidade que estruturam a história do cinema brasileiro, evidenciando como o arquivo participa ativamente da produção do que pode ou não ser lembrado. O caso de Paralelos Trágicos permite observar como certas imagens permanecem em suspensão, entre presença e ausência, tensionando as relações entre arquivo, memória e história.

Bibliografia

    ARTIÈRES, Philippe. Arquivar a própria vida. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, p. 9–34, 1998.

    AZOULAY, Ariella Aïsha. História potencial: desaprender o imperialismo. Tradução de Célia Euvaldo. São Paulo: Ubu, 2024.

    BAHIA, Lia. Discursos, políticas e ações: processos de industrialização do campo cinematográfico brasileiro. São Paulo: Itaú Cultural; Iluminuras, 2012.

    BERNARDET, Jean-Claude. Subúrbio carioca (RJ). Movimento: Cena Brasileira, São Paulo, n. 124, p. 25, 6 out. 1975.

    GOMES, Paulo Emílio Salles. Pequeno cinema antigo. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

    GUIZZO, José Octávio. Panorama um tanto desolador. Revista Charme, Campo Grande, ano I, n. 1, p. 21–23, 1966.

    HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX, 1914–1991. Tradução de Marcos Santarri