Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Fabiana Barboza Ribeiro (USP)

Minicurrículo

    Doutoranda no programa de Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Pesquisa atualmente os intervalos técnicos e poéticos da animação e o cinema japonês. Graduada em Comunicação Social: Rádio e TV pela Universidade Federal do Rio de
    Janeiro (UFRJ).

Ficha do Trabalho

Título

    Animar a cidade: Tóquio entre o real e o imaginário no cinema de Satoshi Kon

Resumo

    O trabalho investiga como Satoshi Kon faz emergir imagética e sensorialmente a cidade de Tóquio em Perfect Blue (1997), Padrinhos de Tóquio (2003) e Paprika (2006). Entre o real e o imaginário, a metrópole torna-se espaço de delírio, vulnerabilidade e encontro. Partindo do problema de como pensar paisagem e experiência urbana na animação, analisa-se de que modo essas espacialidades permitem repensar as relações entre cinema e espaço para além do referencial fotográfico.

Resumo expandido

    A metrópole de Tóquio é facilmente reconhecível na filmografia de Satoshi Kon (1963-2010), diretor de animação japonês. Renderizada em paisagens de prédios, linhas de trem, ruelas, lixeiras urbanas e grandes outdoors, a cidade surge de forma hiper-realista, habitável e sensível. Impõe-se, mesmo imóvel, sobre os personagens animados. Em Perfect Blue (1997), Padrinhos de Tóquio (2003) e Paprika (2006), Kon decide sobrepor a cidade a seus personagens, constituindo uma espacialidade ativa.
    A proposta parte do desejo de responder a um problema teórico nos estudos de animação e espaço: como pensar paisagem, experiência urbana e espectatorialidade quando a imagem não é indexicalmente fotográfica, mas construída pela animação? Sua ontologia impede simples transposição de teorias do cinema, exigindo a percepção da produção de outra materialidade sensorial. Nos filmes de Kon, uma das técnicas pelas quais essa construção se manifesta é pela etapa de Harmony (ハーモニー, harmonia), em que linhas de animação sobre detalhes dos planos de fundo aproximam visualmente objetos e superfícies, tornando praças, edifícios, estações e bairros mais táteis e habitáveis. Mesmo imóveis, parecem estar prestes a se mover.
    A confusão entre ilusão e realidade tende a atravessar suas obras. Em Perfect Blue, a protagonista, uma idol em transição para a carreira de atriz, vive a paranoia e a perda de identidade em meio aos trajetos de trem, reflexos de vitrines e ao caos imagético da cidade. Em Paprika, a relação entre sonho e consciência invade a concretude da cidade, dissolvendo fronteiras entre espaço psíquico e urbano e tornando Tóquio permeável ao delírio. Um desfile caótico de yokais, objetos cotidianos, grandes robôs e figuras gigantes à moda kaiju atravessa suas ruas, articulando símbolos da modernidade metropolitana, imaginário religioso e imagens recorrentes de desastre presentes na cultura visual japonesa. Padrinhos de Tóquio apresenta três personagens em situação de rua que encontram um bebê abandonado em meio ao lixo. Encontram e evitam continuamente a morte e o desastre pela cidade cujos contrastes se impõem com toda força na coexistência de imagens conflitantes entre o real e o cartunesco, a tragédia e a comédia. Acampamentos de pessoas em situação de rua se amontoam sob imensos e modernos prédios governamentais, símbolos das transformações urbanas de Tóquio no pós-guerra e dos crescentes desempregos e vulnerabilidades sociais do período de recessão econômica, inseparável das reformas metropolitanas e expansão acelerada dos subúrbios.
    Pilar dessa contradição é o aspecto bizarro da animação junto ao realismo dos cenários. Baseando-se em fotografias tiradas a caminho do trabalho, mas sem traçá-las linha a linha, os animadores criaram uma malha de detalhes que poderia ser Tóquio – ou era a Tóquio mesma em que eles viviam.
    Satoshi Kon faz emergir sensorialmente uma Tóquio distante tanto da imagem futurista neon quanto das representações violentas e exotizantes do submundo criminoso japonês, já recorrentes na mídia. Nem a Tóquio futurista e idealizada, nem um cenário de fim-de-mundo: a cidade nesses filmes é caótica e ambígua, assim como os personagens que a habitam. Nesse lugar e através dele, o diretor anima essas histórias intersticiais entre o real e o imaginário: crises de identidade em meio a apartamentos fechados e multidões; a bondade e a vulnerabilidade de seres estranhos (estranhados) nas ruas; o delírio e a cura ao se enfrentar com o próprio eu e expô-lo ao mundo. Por meio da análise comparativa, o trabalho busca investigar como essas espacialidades animadas permitem repensar as relações entre cinema, espaço e paisagem tomando animação não como exceção ao referencial fotográfico, mas como uma forma própria de imaginar, experienciar e materializar a cidade.

Bibliografia

    COALDRAKE, W. H. Architecture and Authority in Japan. London: Routledge.,1996.
    BRUNO, G. Atlas of Emotion: Journeys in Art, Architecture, and Film. London: Verso, 2002.
    LEFEBVRE, M. (org.). Landscape and Film. London: Routledge, 2006.
    PALLANT, Chris (ed.). Animated landscapes: history, form and function. New York; London: Bloomsbury Academic, 2015.
    SAND, J. Tokyo Vernacular: Common Spaces, Local Histories, Found Objects. Berkeley; London: University of California Press. 2013.