Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Nathalia Matozo da Silva (UFF)

Minicurrículo

    Mestranda e graduanda em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pelo programa de pós graduação PPGCINE e bolsista da CNPq. Arquiteta e urbanista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Ficha do Trabalho

Título

    Retrofuturismo como regime estético e temporal: a crise da futuridade em distopias contemporâneas

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Em diálogo com a leitura de Mark Fisher sobre os conceitos de “hauntologia” e “lento cancelamento do futuro”, este trabalho propõe uma ampliação do entendimento de “retrofuturismo” na direção de arte audiovisual, compreendendo-o não só como a reciclagem estética de formas do passado, mas um regime temporal marcado pelo retorno de passados não resolvidos. Propõe-se a análise de “Severance” e “O Último Azul”, obras nas quais o futuro surge como eco do passado, seja estética ou narrativamente.

Resumo expandido

    Franco Berardi e Mark Fisher diagnosticam que a atual onda nostálgica que recicla estéticas do passado é mais do que um simples sinal do esgotamento da imaginação, mas sintomática de uma crise da futuridade. Os autores postulam, respectivamente, a ocorrência de um “lento cancelamento do futuro” e o bloqueio de horizontes imposto pelo “realismo capitalista”. Nesse contexto, este trabalho propõe uma expansão do conceito de retrofuturismo a partir da análise de distopias audiovisuais contemporâneas.
    Parte-se da constatação de que o termo é, em geral, mobilizado para descrever operações de ordem estética — sobretudo a recombinação de estilos visuais do passado na construção de imaginários de futuro. Tal definição é produtiva para analisar parte significativa do cinema e das séries anglófonas recentes, nas quais objetos, interiores, tecnologias e arquiteturas históricas são reencenados como signos futuristas. Contudo, essa abordagem mostra-se insuficiente para compreender obras que, embora não apresentem marcas visuais retrofuturistas evidentes, ainda assim operam a partir de uma relação complexa entre passado e futuro, como é o caso de diversas distopias latino-americanas.
    Diante desse limite, propõe-se que o retrofuturismo possa ser compreendido não apenas como uma amálgama estética, mas também como um operador narrativo capaz de reencenar experiências históricas, especialmente em contextos marcados pela crise da futuridade. A articulação entre essas duas dimensões (estética e temporal) permite ampliar o alcance analítico do conceito, tornando-o capaz de abarcar tanto produções que externalizam o anacronismo através da forma quanto aquelas em que essa lógica se manifesta na organização do tempo narrativo.
    Essa dupla abordagem responde, portanto, à necessidade de compreender como diferentes obras constroem, por vias distintas, uma mesma experiência histórica: a dificuldade de imaginar o futuro como ruptura, seja por meio da materialidade visível da direção de arte, seja pela persistência de temporalidades assombradas no nível da narrativa.
    Diante desse limite, argumenta-se que o retrofuturismo pode ser compreendido em dois níveis complementares: como regime estético e como regime temporal. No primeiro caso, trata-se da mobilização formal de estilos pretéritos para imaginar o porvir. No segundo, refere-se à persistência de temporalidades assombradas, nas quais passados não resolvidos retornam e bloqueiam a emergência de futuros inéditos. Essa formulação permite deslocar o conceito de uma categoria estritamente visual para uma chave analítica capaz de abarcar diferentes experiências históricas da distopia contemporânea.
    No plano estético, observa-se o papel central da direção de arte na produção de atmosferas distópicas. Mais do que ambientar a narrativa, ela organiza materialmente sensações de opressão, estranhamento e desorientação por meio de escolhas relativas à arquitetura, escala, iluminação, textura e disposição dos corpos no espaço. Nesse processo, determinados estilos arquitetônicos passam a operar como signos políticos. Ambientes associados ao mid-century modern evocam promessas de progresso, domesticidade e estabilidade posteriormente revertidas em imagens de controle e conformismo, como em Severance. Já formas brutalistas ou megainfraestruturais frequentemente condensam imaginários de autoritarismo, ruína e monumentalidade estatal.
    No plano temporal, o retrofuturismo manifesta-se de modo particularmente relevante em obras latino-americanas, nas quais o futuro tende a surgir menos como novidade do que como repetição diferencial do passado. Em vez de projetarem horizontes radicalmente novos, tais narrativas encenam a continuidade de desigualdades históricas, violências coloniais e promessas modernizadoras fracassadas. O futuro aparece, assim, como algo estranhamente familiar: um presente prolongado, atravessado por espectros do passado. A comparação entre Severance e O Último Azul evidencia essa distinção no trabalho proposto.

Bibliografia

    Mestranda em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pelo programa de pós graduação PPGCINE e bolsista da CNPq. Arquiteta e urbanista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Formação Complementar Aberta em Cinema e Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com habilitação nas temáticas de Narrativa, Memória, Imaginário e Imagem. Foi bolsista da Iniciação Científica ”Beagá Déco: memória gráfica da cidade ao papel” premiada com o Destaque de Relevância Acadêmica; integrante voluntária da Iniciação Científica ”A cidade e sua lírica geometria decorativa: patrimônio gráfico e popular, da cidade ao papel”; monitora da Extensão Oficina Virtual Integrada (OVI) e participante do PET Arquitetura, onde desenvolveu estudos sobre cidade, imagem e utopia, com foco nas representações do imaginário urbano utópico em narrativas visuais.