Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Vanessa Cordeiro Marques (PUC)

Minicurrículo

    Mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, com pesquisa sobre a montagem como gesto político no cinema de Miguel Gomes. Atua no mercado audiovisual há mais de duas décadas, com experiência em supervisão de pós-produção para cinema, televisão e streaming. Foi professora de produção de finalização no curso de Direção da Academia Internacional de Cinema durante quatro anos. Em 2015, dirigiu e montou o curta-metragem “Uma Viagem à Cidade das Canções”.

Ficha do Trabalho

Título

    Processos em disputa: a pós-produção audiovisual em contexto de automação

Resumo

    Este trabalho investiga a pós-produção audiovisual como espaço de articulação de processos, decisões e fluxos de trabalho no contexto contemporâneo de automação. A partir da prática profissional, discute-se como a incorporação de sistemas algorítmicos reconfigura modos de organização e pensamento, ao mesmo tempo em que evidencia limites de interpretação, ao contexto e à experiência sensível.

Resumo expandido

    Este trabalho parte da pós-produção audiovisual como um campo de articulação entre fluxos técnicos, decisões e organização de material. Mais do que uma etapa final, trata-se de um espaço onde se negociam tempo, forma e sentido, reunindo operações que atravessam a imagem, a montagem propriamente dita, a som, e etc. É nesse lugar, ao mesmo tempo técnico e decisório, que se tornam mais visíveis certas transformações recentes nos modos de organizar e pensar o audiovisual.

    A incorporação de sistemas de automação — entre eles ferramentas baseadas em inteligência artificial — introduz novos modos de operar sobre o material. Processos como indexação, transcrição, organização de arquivos e mesmo sugestão de cortes passam a ser parcialmente delegados a sistemas que operam por reconhecimento de padrões e antecipação de resultados. Mais do que acelerar etapas, essas ferramentas incidem sobre a lógica dos fluxos, reorganizando a distribuição das decisões ao longo do processo.

    Nesse contexto, a pós-produção pode ser pensada em sentido ampliado, como um campo que prolonga e reconfigura operações tradicionalmente associadas à montagem. O que está em jogo não é apenas uma mudança de ferramentas, mas um deslocamento na forma como os processos são concebidos. Como sugere Erick Felinto, tecnologias não se limitam a funções instrumentais, mas participam da produção de modos de pensamento. A automação tende, nesse sentido, a privilegiar soluções estabilizadas, previsíveis e operacionalizáveis.

    Por outro lado, a prática da pós-produção evidencia limites claros para esse tipo de operação. A tomada de decisão envolve aspectos que não se deixam reduzir a padrões: relações de ritmo, contexto, ambiguidade e experiência acumulada. A partir de César Guimarães, é possível pensar essas dimensões no campo da experiência sensível, que excede a lógica da informação. De modo semelhante, Suely Rolnik aponta para processos de criação atravessados por forças que não se estabilizam em formas fixas, o que torna visível o alcance limitado de sistemas baseados em reconhecimento.

    O que se configura, portanto, não é a substituição do gesto técnico, mas uma reconfiguração de suas condições. A pós-produção passa a operar em um regime híbrido, no qual decisões são parcialmente automatizadas, ao mesmo tempo em que certas dimensões do processo se tornam ainda mais dependentes de julgamento e articulação situada.

    Pensar a pós-produção hoje, nesse sentido, implica considerá-la como um espaço privilegiado para observar as transformações contemporâneas do audiovisual, em que mudanças nos dispositivos técnicos incidem diretamente sobre os modos de organização, decisão e relação com o material.

Bibliografia

    FELINTO, Erick. A religião das máquinas: ensaios sobre imaginário e tecnologia.
    GUIMARÃES, César. O cinema e a experiência do sensível.
    ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo.
    SIMONDON, Gilbert. Do modo de existência dos objetos técnicos.
    MANOVICH, Lev. A linguagem das novas mídias.
    PARIKKA, Jussi. What is Media Archaeology?