Ficha do Proponente
Proponente
- Thaís Itaboraí Vasconcelos (ESPM)
Minicurrículo
- Thaís Itaboraí Vasconcelos é mestre em Artes, Cultura e Linguagens pela UFJF (2022) e graduada em Cinema pela UFF (2014). Pesquisa montagem, documentário e relações entre cinema e espaço e atua como docente na ESPM e FIAP. Também atua como montadora, com experiência em cinema e em projetos para canais como Globo, GNT, Canal Futura, SescTV e TV Brasil, e dirigiu, entre outros, os curtas José (2010), Regando Bigodes (2012) e Substantivo (2023).
Ficha do Trabalho
Título
- Filmar uma cidade: o real e suas fissuras na realização de “Sinfonia de um Lugar”
Resumo
- A partir do atravessamento do real, a apresentação busca articular prática e teoria para refletir sobre como filmar a cidade a partir do documentário “Sinfonia de um lugar”. Inicialmente centrado nas memórias e relações afetivas com Juiz de Fora, o projeto dialoga com as sinfonias urbanas. Uma tragédia climática em 2026 desloca o olhar e levanta questões éticas e estéticas sobre filmar o real, a memória e a potência das imagens diante da catástrofe.
Resumo expandido
- Como filmar uma cidade? Buscamos aqui articular as dimensões da prática da realização fílmica e sua reflexão teórica, elegendo a relação entre cinema e cidade como tema e tendo como recorte o relato pessoal do processo de realização do projeto documental Sinfonia de um lugar. Nos últimos anos, como pesquisadora do audiovisual, dediquei-me ao estudo da representação do espaço urbano, em especial aos filmes denominados sinfonias urbanas. Paralelo a isso, como realizadora, comecei a filmar em 2025 o projeto documental Sinfonia de um lugar. O filme inicialmente buscava se concentrar em fragmentos de entrevistas de moradores da cidade de Juiz de Fora, minha cidade natal, e suas memórias e relação com o espaço urbano, tratando temas como pertencimento, território e identidade, explorando não os problemas cotidianos, mas as conexões afetivas e poéticas que estruturam a experiência urbana. Nas filmagens, vinha explorando a dimensão poética e reflexiva da experiência urbana e buscava pensar como a cidade de Juiz de Fora ainda é ligada ao seu passado industrial, a “Manchester Mineira”. Daí a escolha pela relação com as sinfonias urbanas, momento histórico de exaltação do espaço. Na estrutura narrativa prevista no roteiro inicial, eu buscava sair dessa exaltação das cidades sinfônicas para um cinema mais expositivo, seguindo de maneira fluida a relação da cidade com o cinema ao longo da história, com um breve salto das sinfonias para o cinema de registro e observação. Ao estudar a relação cidade e cinema, entende-se como marco de fim de um ciclo de exaltação do urbano as cidades destruídas do contexto do pós-guerra e da Grande Depressão. As sinfonias urbanas perdem sua força não só pelas alterações econômicas, mas pelas mudanças da própria linguagem do cinema com o advento do cinema falado. Nesse sentido, o cineasta e pesquisador Jean-Louis Comolli (2008) discorre sobre como a relação cidade/cinema tem como ponto de mudança irremediável as cidades destruídas pelos bombardeios na Segunda Guerra Mundial, momento em que se questiona a própria possibilidade de se filmar. Na minha concepção inicial de roteiro, essa era uma elipse. No entanto, o real atravessa a prática: em fevereiro de 2026, Juiz de Fora vive uma tragédia climática. Deslizamentos, alagamentos e uma fissura em um dos cartões-postais da cidade, o Morro do Cristo. O que se torna em jogo, além do luto coletivo, é o questionamento sobre como filmar, e se deve-se filmar, o que está ali. Pergunta-se se o material bruto já filmado segue com algum valor ou se os fatos que atravessam o imaginário da cidade já não têm como ser os mesmos. Dentre o corpo fílmico a ser discutido, destaco “Hiroshima, meu amor” (1959), de Alain Resnais, que busca ao filmar Hiroshima com um distanciamento histórico discutir memória, trauma e esquecimento. Além de materiais jornalísticos e filmes sobre as enchentes do Rio Grande do Sul como “Rua do Pescador nº 6” (2025), de Bárbara Paz, e “A Cheia do Rio Grande” (2024) de Carolline Leite.
Na apresentação, buscaremos retomar autores, filmes e o material bruto captado antes e após a tragédia para refletir sobre os desafios de filmar o real, buscando constituir sedimentos e camadas para pensar sobre o filmar as cidades, em especial as cidades destruídas.Questionamos, por fim, se, como espectadores de 2026 imersos em um turbilhão de imagens de catástrofe, estas ainda conservam potência para atravessar o olhar ou se já nos tornamos indiferentes a elas.
Bibliografia
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