Ficha do Proponente
Proponente
- Pedro Loureiro Severien (Unicap)
Minicurrículo
- Pedro Severien é diretor de cinema, professor, curador e ativista pernambucano. Dirigiu filmes premiados como Canção para minha irmã e Loja de Répteis. Seu primeiro longa, Todas as cores da noite (2015), estreou no Slamdance e foi premiado no Festival de Vitória. Fim de semana no paraíso selvagem (2022) recebeu mais de 20 prêmios. É mestre pela Universidade de Bristol e doutor pela UFPE, autor de dois livros sobre cinema político e docente na Unicap, além de curador do Cinema São Luiz.
Ficha do Trabalho
Título
- Curadoria e acontecimento: Cinema São Luiz, cinema público popular de rua no Recife contemporâneo
Seminário
- Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual
Resumo
- O trabalho analisa a curadoria do Cinema São Luiz, no Recife, como experimentação em um cinema público de rua. Com funcionamento restrito aos fins de semana, as sessões tornam-se acontecimentos culturais que mobilizam diferentes comunidades de interesse, cultura popular e ocupação urbana. A pesquisa investiga a relação com mostras e festivais, destacando a curadoria híbrida e colaborativa como estratégia de formação de público e fortalecimento do cinema como prática social e patrimônio vivo.
Resumo expandido
- Este trabalho investiga as práticas curatoriais do Cinema São Luiz, no Recife, como um caso de reinvenção do cinema público de rua em diálogo com a comunidade audiovisual e com a cultura popular. Em contexto de reforma estrutural, que restringe o funcionamento da sala aos finais de semana, observa-se a emergência de uma dinâmica singular: as sessões passam a se configurar como “acontecimentos” culturais, intensificando a dimensão coletiva, festiva e política da experiência cinematográfica.
Parte-se da hipótese de que a limitação temporal de funcionamento, longe de reduzir o alcance da sala, potencializa sua capacidade de mobilização simbólica e social. Os finais de semana tornam-se eventos ampliados que articulam exibição, debate, presença comunitária e ocupação do espaço urbano, reforçando o papel do cinema como dispositivo de encontro e produção de sentido no território. Situado no centro da cidade, às margens do Capibaribe, o São Luiz opera como um cinema de rua que ativa relações entre arquitetura, paisagem e experiência sensível.
A curadoria é analisada como prática híbrida, que combina acolhimento de demandas externas — oriundas de cineclubes, movimentos sociais, festivais e mostras — com uma atuação prospectiva da equipe de programação. Esse modelo permite a construção de uma agenda diversa, com ênfase no cinema pernambucano e brasileiro contemporâneo, sem abrir mão de diálogos com cinematografias internacionais e clássicos. Ao mesmo tempo, promove a articulação entre produção local e circulação ampliada, tensionando as fronteiras entre o “local” e o “universal”.
O estudo também examina a relação estrutural entre o cinema público e as mostras e festivais audiovisuais, entendendo esses eventos como vetores fundamentais de ativação da sala e de formação de público. Em 2025, o Cinema São Luiz acolheu 18 mostras e festivais, além de realizar 272 sessões — 112 gratuitas —, exibindo 248 filmes e alcançando um público de mais de 33 mil pessoas, mesmo com operação restrita aos finais de semana. Esses dados indicam a centralidade das parcerias e da curadoria compartilhada na sustentabilidade cultural do espaço.
Por fim, discute-se como a integração entre programação, espaço físico e relação com a comunidade constitui um modelo de gestão cultural que fortalece o cinema como patrimônio vivo e prática social. Iniciativas como sessões mobilizadas por movimentos sociais, retrospectivas de cineastas locais, ciclos temáticos e ações educativas apontam para uma concepção expandida de curadoria, comprometida com o letramento imagético, a democratização do acesso e a formação de espectadores e realizadores.
Ao analisar o Cinema São Luiz como um “coração da memória coletiva” em funcionamento, o trabalho propõe contribuir para o debate sobre políticas de exibição, curadoria em cinemas públicos e os modos contemporâneos de articulação entre cinema, identidades culturais e território.
Bibliografia
- CESAR, Amaranta; MAIA, Carla; ALMEIDA, Carol; PATRIOTA, Ingá; MELO, Izabel de Fátima Cruz; OLIVEIRA, Janaína; FREITA, Kênia (org.). Curadoria em cinema: do pensamento em ação. 1. ed. Salvador: EDUFBA, 2025. 200 p. ISBN 978-65-5630-802-9.
LINO, Barbara et al. Cinemas de rua de Pernambuco: memória gráfica, visual e afetiva. Recife: Edição dos autores, 2026.
COSTA, Leonardo (org.); CESAR, Amaranta; MARQUES, Ana Rosa; PIMENTA, Fernanda. Desaguar em cinema: documentário, memória e ação com o CachoeiraDoc. 1. ed. Salvador: EDUFBA, 2020. ISBN 978-65-5630-137-2.
MARINONE, Isabel. Méthodes pour une histoire des rapports entre cinéma et anarchie. In: BRENEZ, Nicole (Org.); MARINONE, Isabelle (Org.). Cinémas libertaires: au service des forces de transgression et de révolte. Paris: Septentrion, 2015.
MORIM, Julia; VAILATI, Alex. O museu SUAPE: reflexões sobre a contramusealização dos acervos visuais. Iluminuras, Porto Alegre, v.24, n.65, p. 172-233, Outubro, 2023.