Ficha do Proponente
Proponente
- Lara Alves da Escóssia (UFRN)
Minicurrículo
- Mestranda em Estudos da Mídia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPGEM/UFRN). É licenciada em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas e graduanda em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela mesma instituição. Atualmente, integra o Grupo de Estudos em Convergência e Narrativas Audiovisuais (CONNAU) e a Rede Nordestina de Estudos de Mídia e Esporte (Reneme). E-mail: laralvescossia@gmail.com.
Ficha do Trabalho
Título
- CORRENDO PELA OPORTUNIDADE: DESIGUALDADE DE GÊNERO, RAÇA E CLASSE NA SÉRIE F1 ACADEMY
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Este trabalho propõe uma análise de conteúdo da série F1 Academy (2025), com enfoque na exclusão feminina no automobilismo. O estudo, amparado em Akotirene (2019), Hill Collins (2022), Bordo (1997), Adelman (2003), Goellner (2003; 2021), De Lauretis (1994) e Butler (2018), investiga as desigualdades externas e internas de oportunidades, a partir dos depoimentos das competidoras. Como resultado, foi visto que divergências de raça e origem são expressivas na falta de equidade no esporte.
Resumo expandido
- Após a queda de audiência e a compra dos direitos de imagem pela Liberty Media em 2016, a Federação Internacional de Automobilismo percebeu que, para a F1 voltar a ser rentável, era necessário atingir outros públicos, incluindo o feminino. Até 2018, o único espaço reservado às mulheres era o das Grid Girls, mulheres seminuas cujos corpos serviam de anúncios publicitários para os patrocinadores (Tippett, 2020; 2023). No ano seguinte, foi criada a W Series, categoria de base feminina, para fomentar o acesso das mulheres. Sem investimentos, foi extinta em 2022.
É só em 2020 que, com os protestos antirracistas de Lewis Hamilton, começam a ter questionamentos sobre exclusão e preconceito, no contexto do movimento Vidas Negras Importam. Com isso, a FIA lançou o programa We Race As One, visando mitigar desigualdades de raça, gênero e sexualidade no automobilismo – novamente, sem sucesso.
Em vista das tentativas falhas, a Formula One Management (FOM) cria a F1 Academy (F1 A) em 2022, com o mesmo objetivo da W Series, sob a direção de Susie Wolff. Agora sob a marca da F1, a F1 A comporta, por dois anos, pilotas entre 16 e 25 anos, impulsionando as campeãs anuais para a categoria seguinte.
Em 2025, a Netflix, com a FOM, lançou uma série documental da temporada de 2024, com produção de Wolff e da Hello Sunshine e showrunning de Lisa Keane. A produção F1 Academy conta com sete episódios, de, em média, 40 min., e acompanha as pilotas nas suas rotinas, traz seus depoimentos, cortes das corridas e os bastidores da competição.
Por mostrar os principais desafios de ser uma mulher em um espaço masculinizado, F1 Academy é um objeto de análise no qual é possível observar noções de gênero, desigualdade, corpo, raça e demais interseccionalidades na representação das pilotas. Para tanto, foi realizada uma análise de conteúdo (Bardin, 2016), investigando as desigualdades internas e as externas, nas categorias: gênero, raça/origem e classe, fundamentada em Akotirene (2019), Hill Collins (2022), no tocante à interseccionalidade; Bordo (1997), Adelman (2003) e Goellner (2003; 2021), quanto à corporalidade; e De Lauretis (1994) e Butler (2018), com os conceitos de tecnologia e performance de gênero, respectivamente.
Durante a análise, foi visto como as diferenças internas são potencializadas pela competitividade e pelo tempo limitado da F1 Academy, a exemplo da necessidade de trabalho fora das pistas para as meninas que vêm de classes trabalhadoras. Os relatos de Bianca Bustamante, bem como os de Susie e do seu treinador sobre ela, expõem que o seu trabalho como influencer é fundamental para o patrocínio nas pistas, mas atrapalham o seu desempenho e concentração. Amna e Hamda Al-Qubaisi, por outro lado, são filhas de um piloto consolidado e não demonstram preocupações financeiras, sendo retratadas em ambientes de luxo.
Lia Block tem um alcance midiático natural nos Estados Unidos, por ser uma das representantes do país, e afirma não gostar dos holofotes. Já Bustamante, por ser tailandesa precisa exercer trabalho nas redes sociais para ter espaço na mídia hegemônica. Tais divergências mostram que, mesmo que as condições de corrida sejam as mesmas, uma pilota vinda de um lugar não tão privilegiado precisa competir ainda mais, dentro e fora das pistas.
Em vista disso, concluiu-se que a série F1 Academy apresentou diversas potencialidades de estudo. Diferente de outras produções audiovisuais da F1, a visão técnica feminina trouxe camadas críticas, a partir dos depoimentos das pilotas, para além dos retratos semióticos. Por fim, observou-se como a jornada das mulheres, no automobilismo, enfrenta diversos pesos que corroboram para desigualdades expressivas, e que, mesmo que o esporte esteja mais perto do que nunca de ter uma mulher no topo, ele continua longe desse cenário.
Bibliografia
- AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.
BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
COLLINS, Patricia Hill. Bem mais que ideias: a interseccionalidade como teoria social crítica. Boitempo Editorial, 2022.
DE LAURETIS, Teresa. A tecnologia do gênero. In: HOLLANDA, Heloisa (Org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 206-241.
GOELLNER, Silvana Vilonde. Corpos, gêneros e sexualidades: em defesa do direito das mulheres ao esporte. Revista do Centro de Pesquisa e Formação, São Paulo, n. 13, p. 99-112, dez/2021. Disponível em: . Acesso: 19 set. 2025.
TIPPETT, Anna. Debating the F1 grid girls: Feminist tensions in British popular culture. Feminist Media Studies, v. 20, n. 2, p. 185-202, 2020.