Ficha do Proponente
Proponente
- Geisa Rodrigues (UFF)
Minicurrículo
- Geisa Rodrigues é mestre em Comunicação e Imagem pela UFF e doutora em Letras pela Puc-Rio. Professora Associada do departamento de Comunicação Social-UFF.
Ficha do Trabalho
Título
- A voz da Filha Condor em um mundo ch’ixi possível
Seminário
- Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas
Resumo
- Esta comunicação se dedica à análise de aspectos estéticos e narrativos do filme A Filha do Condor, do boliviano Alvaro Olmos Torrinco (2025). Numa aproximação com o pensamento da socióloga e ativista boliviana Silvia Rivera Cusicanqui e o conceito de um mundo C’hixi possível, observa como a identidade boliviana e latino-americana é tensionada no filme, sobretudo por meio dos afetos e das interações entre as mulheres e seus desejos postos em cena.
Resumo expandido
- Esta comunicação se dedica à análise de aspectos estéticos e narrativos do filme A Filha do Condor, do boliviano Alvaro Olmos Torrinco (2025). Situado entre os altiplanos andinos e a cidade de Cochabamba, o filme narra a vida de Clara, uma jovem aprendiz de parteira numa remota comunidade Quechua que, apesar de sua vocação ancestral, nutre o desejo de se tornar cantora Chola na cidade. Mesmo que parte da crítica associe a obra aos conflitos entre tradição e modernidade, abordados em outras películas sobre a mesma região, como a peruana Wiñaypacha (Óscar Catacora, 2017), há diferenças evidentes, não apenas estéticas, mas sobretudo no que tange a uma tessitura entre passado e presente que não se estabelece de forma antagônica, mas complementar, por meio de diferentes gerações de corpos de mulheres postas em cena, em suas nuances e contradições. Sugerimos neste trabalho uma aproximação como o pensamento da socióloga e ativista boliviana Silvia Rivera Cusicanqui, ao formular a ideia de um mundo C’hixi possível. Em primeiro lugar, a autora refuta a perspectiva cartesiana que oporia passado e presente, bem como tradição e modernidade, para pensar as existências indígenas no contexto boliviano, visto que “ ora fetichiza e reifica as culturas, ora as dilui em uma síntese inexistente ou híbrida” (Bruce, 2023). A perspectiva Ch’ixi, conforme proposta por Rivera Cusicanqui para pensar o contexto da Bolívia, configura a cor cinza para os aimaras, que à distância pareceria uniforme, resultado da mistura de cores, mas de perto sinaliza algo que se situa no entre, visto que os pontos pretos e brancos ali permanecem, problematizando, assim, as ideias de mestiçagem ou hibridização como composição de subjetividades latino-americanas (2024). A sociologia das imagens proposta pela autora instaura um olhar baseado na memória coletiva das lutas e embates indígenas que afloraram na Bolívia desde a colonização, até princípios do século XXI. Evoca, dessa forma, uma relação mais dinâmica e de coexistência- nem sempre pacífica, muito menos uniforme e linear- entre povos tradicionais e princípios e práticas coloniais. Neste sentido, ao trazer a narrativa para o universo da música folclórica Chola, em seu momento de ascensão em Cochabamba, a identidade boliviana também é tensionada por Torrinco, sobretudo por meio dos afetos e das interações entre as mulheres e seus desejos postos em cena. Pensando a identidade como um tecido de trocas e um processo de devir, é também nessa chave de inspiração no trabalho feminino que Rivera Cusicanqui considera a alteridade dos povos indígenas e mestiços . Na tessitura de uma história centrada no protagonismo feminino, o filme estabelece uma relação com a gestão da vida, da morte e da arte, ao emaranhar no desejo de Clara o ofício de parteira e o de se tornar cantora em Cochabamba. Dessa forma, assim como a tensão que evoca as contradições das identidades latino-americanas, o filme se situa também como a identidade Ch’ixi proposta por Cusicanqui, que tanto convive com as tradições como estabelece uma relação diacrônica em contato com os aportes coloniais (…) “podemos dizer que há aí um potencial: tornar-se pachuyma, colonizado e dividido, ou emancipar-se assumindo a contradição como força criativa” (2024, p. 97). É na voz e no olhar de Clara que essa potência criativa se exprime, tanto ao evocar a vida e os afetos femininos durante os partos, quanto na alegria colorida no palco de um show, que faz sua mãe desistir da tentativa de trazê-la de volta à comunidade. Por fim, ao sugerir uma temporalidade indefinida e e ao mesmo tempo circular e cíclica, desvelam-se também, no filme, formas de reger uma coetaneidade de elementos e problematizar mapas étnicos que reeditam práticas coloniais por meio das imagens.
Bibliografia
- BRUCE, Mariana. Relatos de um Mundo Ch’ixi: El Alto/Bolívia. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 17, n. 1, p. 204-234, jan./abr. 2023.
LUGONES, Maria. Rumo a um feminismo descolonial. Rev. Estud. Fem. 22 (3), Dez 2014. Disponível em https://www.scielo.br/j/ref/a/QtnBjL64Xvssn9F6FHJqnzb/?lang=pt. Acesso em 25 de Março de 2020.
MIGNOLO, Walter. La idea de America Latina: la herida colonial y la opción decolonial. Barcelona: Gedisa editorial, 2007
RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Ch’ixinakax utxiwa. Uma reflexão sobre práticas e discursos descolonizadores. São Paulo: nº1, 2021.
_____________________. Sociologia de la Imagen: Miradas Ch’ixi desde la historia andina. Buenos Aires: Tinta Limón, 2015.
___________________________, Um mundo Ch’ixi é possível: ensaios de um presente em crise. São Paulo: Elefante, 2024
SEGATO, Rita Laura. Gênero e colonialidade: em busca de chaves de leitura e de um vocabulário
estratégico descolonial», e-cadernos CES [Online], 18 | 2012