Ficha do Proponente
Proponente
- Thiago Pontes Virginio (UFPB)
Minicurrículo
- Thiago Pontes Virgínio é mestrando em Comunicação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde pesquisa a interface entre o processo criativo cinematográfico e a acessibilidade estética sob a ótica do Desenho Universal. Cineasta e pesquisador, desenvolve investigações sobre o enquadramento acessível, utilizando hibridações metodológicas entre a Autoetnografia e a Crítica Genética.
Ficha do Trabalho
Título
- O processo criativo de um cinema acessível: o cineasta como primeiro tradutor de sua criação
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- A pesquisa investiga o cinema como dispositivo de exclusão sensorial e propõe o “enquadramento acessível” sob a ótica do Desenho Universal. Crítica ao modelo de adaptação tardia, o estudo utiliza o curta Rubor para articular Autoetnografia e Crítica Genética, validando a subjetividade do cineasta como tradutor estético. Ao integrar a acessibilidade à gênese criativa, busca-se romper a interdição ontológica de corpos dissidentes, promovendo uma ética da imagem e a emancipação do espectador.
Resumo expandido
- O cinema, e sua concepção criativa, atuam como dispositivos de não-subjetivação de corpos dissidentes, impedindo a ação de sua potencialidade na construção das subjetividades de espectadores que não atendem ao padrão corporal suposto pela sua forma, advinda de seu processo criativo. A partir do conceito de dispositivo foucaultiano e nas teorias da fenomenologia da percepção (Merleau-Ponty, 1999; Sobchack, 2004), observa-se a tendência visocêntrica e ocularcêntrica da máquina fílmica, que promove uma interdição ontológica e epistemológica àqueles que fogem ao modelo de “espectador padrão”, especialmente àqueles com deficiência visual (Mayer, 2012). No cenário brasileiro, embora impulsionada por marcos legais, como a Lei Brasileira de Inclusão e as normativas da Agência Nacional de Cinema (Ancine), a acessibilidade audiovisual ainda enfrenta o desafio de superar o modelo produtivo de “adaptação tardia” (Romero-Fresco, 2019, p. 2), com a implementação de tecnologias assistivas (audiodescrição, legendas para surdos e ensurdecidos, janela de Libras) apenas após o fim da produção cinematográfica. Essa metodologia falha na promoção de experiências de consumo fruíveis, dificultando a solução de barreiras de acesso a informações relevantes para o espectador, limitando o acesso à sintaxe cinematográfica e suas potencialidades estéticas e narrativas para a compreensão e experiência sensível das obras cinematográficas.
Diante desse contexto, esta pesquisa adota o enquadramento cinematográfico como um elemento da sintaxe cinematográfica a ter seu processo criativo investigado em interface à promoção da acessibilidade comunicacional do filme através de todo o processo de produção, aplicando princípios do Desenho Universal na criação cinematográfica. Para investigar a transição do modelo de adaptação para o de criação, o estudo adota como objeto o processo criativo do curta-metragem Rubor, a partir de uma abordagem metodológica híbrida que articula a Autoetnografia e a Crítica Genética. Esta escolha parte da necessidade de validar a subjetividade do artista-pesquisador, em que a Autoetnografia permite uma escrita de si corporificada (Gama; Raimondi; Barros, 2021), enquanto a Crítica de Processo fornece as bases para o estudo do processo de criação artística (Salles, 2008). Essa imbricação permite realizar uma “engenharia reversa” da criação da obra, conectando a memória do diretor (dados subjetivos) aos documentos de processo, como roteiros e storyboards (dados materiais), para permitir a proposição de uma tradução intersemiótica e estética no próprio processo criativo do autor, que assume um papel de primeiro tradutor de suas criações.
Neste sentido, a investigação do processo criativo de Rubor aponta a acessibilidade como um catalisador de complexidade estética na criação e comunicação dos enquadramentos cinematográficos. Se o cinema hegemônico opera sob uma “interdição ontológica” aos corpos dissidentes, a aplicação do Desenho Universal na criação propõe uma fenomenologia da percepção expandida (Mayer, 2012). Como aponta Merleau-Ponty (1999), a percepção não é um evento puramente cerebral, mas um engajamento do corpo no mundo, então, ao projetar o filme prevendo redundâncias sensoriais e estímulos sonoros integrados, o cineasta exerceria o que Sobchack (2004) descreve como a “visão tátil” do cinema, garantindo que a experiência estética não seja uma concessão, mas um direito de fruição plena. Ao deslocar a acessibilidade da pós-produção para a gênese, o autor rompe com a “adaptação tardia” (Romero-Fresco, 2019) e estabelece uma nova ética da imagem. O resultado pode ser um fazer cinematográfico que não apenas descreve o mundo para quem não vê, mas que reconstrói a sintaxe do enquadramento como um dispositivo de inclusão e de emancipação do espectador.
Bibliografia
- GAMA, Fabiene; RAIMONDI, Gustavo Antonio; BARROS, Nelson Filice de. Apresentação – Autoetnografias, escritas de si e produções de conhecimentos corporificadas. Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro), n. 37, e21300, 2021.
MAYER, Flávia Affonso. O cinema e a interdição ontológica da deficiência. Revista de Comunicação Dialógica, Rio de Janeiro, n. 6, p. 154-171, 2012.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
ROMERO-FRESCO, Pablo. Accessible Filmmaking: Integrating Media Accessibility into the Film Production Process. London: Routledge, 2019.
SALLES, Cecília Almeida. Crítica genética: fundamentos dos estudos genéticos sobre o processo de criação artística. 3. ed. rev. São Paulo: EDUC, 2008.
SOBCHACK, Vivian. Carnal Thoughts: Embodiment and Moving Image Culture. Berkeley: University of California Press, 2004.