Ficha do Proponente
Proponente
- Ingá Maria Lima Patriota (UFPE)
Minicurrículo
- Ingá é educadora popular, crítica cultural e curadora de cinema. Graduada em Cinema e Audiovisual (UFF) é atualmente mestranda em Psicologia Social (UFPE). Integrou comissões de seleção em festivais e mostras de eventos c FINCAR – Festival Internacional de Cinema de Realizadoras, XII Janela Internacional de Cinema do Recife, FestCurtas BH e CachoeiraDoc. Coordena a frente de Cinema Sem-Teto, iniciativa dedicada à realização de curadorias populares e projeção de filmes em ocupações por moradia.
Ficha do Trabalho
Título
- Implicar a curadoria ao comum
Seminário
- Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual
Resumo
- Neste trabalho, investigamos a proposição de uma curadoria em cinema implicada na sua relação com territórios comuns ou comunalizantes. Partimos de uma sessão de quatro curta-metragens que, com gestos próprios ao cinema, demonstram uma crença nas possibilidades de participar da vida comum e adentramos as proposições ético-políticas presentes no livro “Curadoria em cinema: do pensamento em ação” ao ativar uma prática curatorial direcionada a ressoar territórios, saberes e movimentos da sociedade.
Resumo expandido
- O livro “Curadoria em cinema: do pensamento em ação” foi escrito por sete curadoras engajadas em processos coletivos distintos de curadoria em cinema. O conjunto da obra é atravessado pela compreensão do ato de curadoria como uma tessitura de relações entre imagens, pessoas, territórios, comunidades, saberes e movimentos da sociedade. Este trabalho busca relacionar a proposição do livro com uma sessão de seu lançamento, ocorrida no Recife, que contou com a exibição de quatro curta-metragens brasileiros. São eles “Quilombos” de Riane Nascimento; “Acercadacana” de Felipe Peres Calheiros, “Estamos todos aqui” de Chica Santos e Rafel Melim e “Corpos políticos” do coletivo Mulheres no Audiovisual Pernambuco.
Aqui, propõe-se a elaboração a respeito de como o movimento realizado por esse conjunto de filmes enseja na própria curadoria a necessidade de trabalhar pelas formas de vida que as imagens propagam. Uma curadoria implicada na convicção das possibilidades do cinema de participar da vida comum que os filmes apontam. Combina-se, portanto, uma breve análise fílmica dos quatro curta-metragens da sessão com a defesa e investigação acerca de uma proposição sobre a prática curatorial no Brasil hoje.
Os filmes citados dão a ver corpos em perigo, vidas ameaçadas e enfrentam as ameaças por meio de uma amplitude de possibilidades próprias ao cinema. As experiências de curadoria descritas se relacionam com territórios em disputa, ressoando suas metodologias. Isso acontece porque há, nos filmes descritos bem como nos espaços de exibição, uma convicção naquilo que pode o cinema ao emprestar sua matéria para aquilo que o excede – a comunidade, a luta e a política.
“Quilombos” é gravado dentro do quilombo de Santiago do Iguape na cidade de Cachoeira e carrega consigo o ato de convidar as mulheres do quilombo a empunhar o facões e andarem em bando com suas lâminas erguidas. Isso acontece por conta do filme, mas incide fisicamente em uma cena comum que o extrapola. Em “Acercadacana” essa crença nos gestos do cinema pode ser percebida quando a câmera do filme é direcionada para guardas de uma usina na Zona da Mata pernambucana que resolvem fugir às pressas. O ato de levantar câmera provoca uma mise-en-scene capaz de retirar o medo lançado à protagonista ameaçada e devolvê-lo aos seus algozes.
Tal convicção também é compartilhada em “Estamos todos aqui” na maneira como o documentário incorpora a ficção para si, posto que o filme convoca suas entrevistadas a serem também atrizes e, no limite, roteiristas, de uma jornada comum. Em “Corpos políticos”, a operação de montagem parte dessa crença na relação cinema-vida por meio da contraposição da violência dos discursos institucionalizados com as cenas de levante, com a ocupação efusiva das ruas em marcha.
Nessa toada, proponho que a curadoria pode existir, assim como os filmes, também mobilizada pela crença na sua própria capacidade de intervir na esfera comum. Trata-se, em parte, de se comprometer, num ambiente de exibição, com a desestabilização de mundo que os filmes provocam, com o veneno incompatível com a exploração que as suas imagens liberam.
Para isso, proponho aproximar metodologicamente a sessão dos quatro filmes às experiências de vínculo entre espaços de cinema e territórios comuns ou comunalizantes, partindo do conceito de comum presente na obra da socióloga Silvia Federicci. Como exemplo, direciono o olhar para experiências de ressonância entre sessões de cinema e territórios comuns capazes de ecoar a proposta de curadoria aqui descrita. São elas: a relação do X Festival de Documentários de Cachoeira, o CachoeiraDoc, com os quilombos do Recôncavo Baiano; o vínculo entre a formulação da frente de Cinema Sem-Teto, ligada ao Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem-Teto (MTST), e as ocupações por moradia em Recife; e a correlação entre o Festival Internacional de Cinema de Realizadoras, o Fincar, com as práticas organizativas do movimento feminista.
Bibliografia
- BONA, Dénètem Touam. Cosmopoéticas do refúgio. Tradução de Milena P. Duchiade. Rio de Janeiro: Cultura e Barbárie, 2020.
CARDOZO, Maria. Curadoria da perspectiva das mulheres. In: CESAR, Amaranta; MARQUES, Ana Rosa; PIMENTA, Fernanda; COSTA, Leonardo (org.). Desaguar em cinema: documentário, memória e ação com o CachoeiraDoc. Salvador: EDUFBA, 2020. p. 221–238.
CESAR, Amaranta; MAIA, Carla; ALMEIDA, Carol; PATRIOTA, Ingá; MELO, Izabel de Fátima Cruz; OLIVEIRA, Janaína; FREITAS, Kênia. Curadoria em cinema: do pensamento em ação. Salvador: EDUFBA, 2025.
FEDERICI, Silvia. Reencantando o mundo: feminismo e a política dos comuns. Tradução de Coletiva Sycorax. São Paulo: Elefante, 2019.
MONDZAIN, Marie-Jose. Nada Tudo Qualquer coisa Ou arte das imagens como poder de transformação. In: NAZARÉ, Leonor; SILVA, Rodrigo (orgs). A república por vir: arte, política e pensamento para o Século XXI. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011.