Ficha do Proponente
Proponente
- Wallie Ruy Monteiro Fernandes (UAM)
Minicurrículo
- Wallie Ruy é Mestranda em Comunicação Audiovisual pela UAM e Graduada em Artes Cênicas pela UFOP. Atriz, artivista e integrante do Teatro Oficina, construiu sólida carreira no teatro, cinema e TV. Idealizou e protagonizou “Wonder!! Vem pra Barra Pesada”, obra indicada ao Prêmio Shell 2023. No cinema, destacou-se no filme “Marie”, vencendo o prêmio especial do júri em Gramado. Atuou em séries como “Carcereiros”, “Aruanas” e “Reality Z”,. É também diretora, dubladora e preparadora de elenco.
Ficha do Trabalho
Título
- Modos de (não) ver a Travestilidade: Presença e Captura de Claudia Wonder no Cinema dos Anos 70
Seminário
- Tenda Cuir
Resumo
- Este trabalho analisa a participação de Claudia Wonder nos filmes “O Marginal”, “O Mulherengo” e “A Mulata que Queria Pecar” para investigar as persepções da travestilidade no cinema brasileiro dos anos 70. Entre o transformismo, o bordel e o mictório, a presença de Claudia emerge como excesso e ruído. Investigo como essa performance, embora capturada pelo escárnio e pela deslegitimação de sua mulheridade, instaura gestos precários de (re)existência que tensionam a norma do olhar.
Resumo expandido
- Este trabalho investiga os modos de visualidade/visibilidade e a representação da travestilidade no cinema brasileiro da década de 1970. Tomei como objeto norteador a participação de Claudia Wonder nos filmes O Marginal (Carlos Manga, 1974), O Mulherengo (Carlos Mansur, 1976) e A Mulata que Queria Pecar (Victor Di Mello, 1977). Tais obras circulam em territórios híbridos entre a pornochanchada e o cinema marginal, sob a égide do subdesenvolvimento, da censura e de dispositivos de controle moral dos corpos dissidentes.
A partir de John Berger, compreendemos o cinema como um modo do olhar atravessado por relações de poder, no qual certos corpos são sistematicamente construídos como objetos de visão e deslegitimação. Em O Marginal, Claudia com seus dezessete anos surge de um soturno espaço de uma boate de transformistas. Embora utilize sua fala para tencionar a apropriação dos espaços pelas classes abastadas, o gesto de tirar a peruca diante do protagonista revela a violência simbólica de uma época que exigia a negação da mulheridade para validar a presença transvestigênere.
Em O Mulherengo, a captura opera pelo silenciamento e pelo confinamento espacial: reduzida à figuração em um bordel, a travestilidade é confinada à margem da narrativa, existindo apenas como adereço de um cenário de rechaço social.
A análise aprofunda-se em A Mulata que Queria Pecar, onde o aumento da visibilidade de tela da sua personagem Patrícia é mediada pelo escárnio; Do cochicho das personagens cisgêneras ao clichê arquetípico do uso do mictório em pé, o filme utiliza o corpo de Wonder para reiterar clichês e falácias sobre a genitália/biologia. A mulheridade é apresentada como algo “montável”, passível de ser deslegitimada pela revelação do nome morto e pela exposição de um corpo em transição, transformando o genuino desejo masculino em consequente pânico social.
Inserido na Tenda Cuir, este trabalho reivindica uma historiografia afetiva e insurgente, capaz de ativar as frestas do passado para pensar as potencialidades de (re)existência no audiovisual contemporâneo.
Bibliografia
- BERGER, John. Modos de ver. Tradução de Lúcia Olinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. 16. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
ELSAESSER, Thomas; HAGENER, Malte. Teoria do cinema: uma introdução através dos sentidos. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Campinas: Papirus, 2011.
GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
MARCONI, Dieison. Ensaios sobre autorias queer no cinema brasileiro contemporâneo. Belo Horizonte: Selo PPGCOM UFMG, 2021.
WILLIAMS, Linda. Film Bodies: Gender, Genre, and Excess. Film Quarterly, [s. l.], v. 44, n. 4, p. 2-13, 1991.
XAVIER, Ismail. Alegorias do subdesenvolvimento: Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal. São Paulo: Brasiliense, 1993.