Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Simplicio Neto Ramos de Sousa (ESPM)

Minicurrículo

    Diretor e Roteirista de documentários como “Onde a Coruja Dorme” e “Carioca era um Rio”. Bacharel em Ciências Sociais pela UFRJ, Mestre e Doutor em Comunicação pelo PPGCOM-UFF. Pesquisa o realismo no cinema brasileiro. Foi Professor Substituto no Dep. de Cinema e Vídeo da UFF, de 2008 a 2010. Hoje é Professor Assistente I do Curso de Cinema e Audiovisual da ESPM-Rio. Curador e Editor de Catálogo de Mostras nos CCBBs, como “Cineastas e Imagens do Povo” e “Os múltiplos lugares de Roberto Farias”

Ficha do Trabalho

Título

    A Câmera na Areia: praia e paisagem litorânea no Cinema Brasileiro

Seminário

    Cinema e Espaço

Resumo

    Proposta de análise comparada de sequências praianas em filmes brasileiros de quatro fases históricas: Clássica (“Aitaré da Praia”, “O Canto do Mar”), Moderna (“Os Cafajestes”, “Barravento”, “Fome de Amor”, “A Mulher de Todos”, “As Libertinas”), Pós-Moderna (“Garota Dourada”, “Menino do Rio”) e Contemporânea (“O Som ao Redor”, “Aquarius”, “Praia do Futuro”), investigando como diferentes estéticas, gêneros e narrativas transformam o espaço físico do litoral em lugar dramático

Resumo expandido

    Propomos aqui uma análise da representação da praia e do litoral brasileiro no Cinema Nacional, segundo as metodologias da Análise Fílmica, Estrutural da Narrativa e Comparada, observando como o mesmo espaço físico da orla se transforma, por autores e contextos históricos e regimes estéticos diferentes, em lugares dramáticos diversos (ZANI, 2015). Para Aumont e Marie (2004), o cinema faz do espaço, “mero resultado das propriedades miméticas básicas”, um lugar “organizado em função da ficção que aí decorre”. Gardies (2011) afirma que é pelos lugares “que podemos ascender à compreensão do espaço, sobretudo na sua funcionalidade narrativa”. Yi-Fu Tuan (1974) define o lugar como o “espaço humanizado” pela identificação com o personagem. Martin Lefebvre (2011) demonstra que o cinema é o meio em que a tensão entre paisagem como contemplação e como espaço vivido se manifesta. No período Clássico, a praia surge como espaço idílico no Cinema Silencioso. Em “Aitaré da Praia” (1925, Gentil Roiz), o litoral é o cronotopo do drama romântico-social (BAKHTIN, 2014). “Aitaré” mostra no litoral pernambucano “o heroísmo dos bravos jangadeiros do Nordeste” (RAMOS; SCHVARZMAN, 2018, v.1). Já o retrato da paisagem litorânea em O Canto do Mar (1953, Alberto Cavalcanti) é criticado por Glauber Rocha em sua Revisão Crítica, por seu “tratamento fotográfico” que “estilizava a paisagem”, um “grave erro da estética”, cometido pela “colonizada” e “cosmopolita” Vera Cruz em Caiçara (1950, Adolfo Cieli), mas em praias sudestinas (ROCHA, 2003). No Cinema Brasileiro Moderno, a praia é palco de polêmicas e rupturas. Em “Os Cafajestes” (1962, Ruy Guerra), a câmara na mão “explodiu”, e jump-cuts e faux raccords “desconstroem” as areias de Cabo Frio e o hedonismo dos playboys cariocas que o fazem lugar dramático do vácuo existencial. Em “Barravento” (1962, Glauber Rocha), “a praia” agora “participa do drama de toda a comunidade negra”, a orla de Itapoã um microcosmo de conflito social e étnico-cultural, em que a areia é o território do choque entre o misticismo e a conscientização política. Em “Fome de Amor” (1968, Nelson Pereira dos Santos), filma em Paraty o litoral das casas de veraneio de uma elite em fuga, e assim serve à “alegoria política” e ao “balanço crítico das ilusões do intelectual”(XAVIER, 2001). O litoral é desarticulado pois a montagem fragmenta a percepção espacial do espectador, mobilizando o estilo para fins de estranhamento existencial (BORDWELL, 1985). Rogério Sganzerla leva a contracultura para “as praias do litoral paulista” em “A Mulher de Todos” (1969) e “Bandido da Luz Vermelha” (1968), num gesto de “barbarismo”, como fala Bernardet (BERNARDET, 1991). Cinema Marginal, Boca do Lixo, Pornochanchada: de “As Libertinas” (1968) a “Ilha dos Prazeres Proibidos” (1979), Carlos Reichenbach usa a praia como espaço do corpo e da erotização contracultural hedonista, explorando o “espaço pictórico” e irônico das orlas ocupadas por corpos marginais (BORGES, 2019). Com a chegada de um Cinema Brasileiro Pós-Moderno, Antônio Calmon ganha as bilheterias com uma praia que é lugar do lazer juvenil e da trilha sonora “pop” de “Menino do Rio” (1982) e ”Garota Dourada” (1983): É um lugar aberto a sociedade de consumo e suas “grifes” de “sportsware”, a um comportamento mercantilizado Redefine-se a praia, distanciando-se do esforço neo-realista e modernista anterior (PUCCI JR, 2008). Agora, no Cinema Contemporâneo, a praia é o lugar do deslocamento e da vigilância. Em “Praia do Futuro” (2014), Karim Aïnouz filma o litoral cearense como lugar de melancolia e fuga; em “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho, na praia de Boa Viagem, a presença invisível dos tubarões “recua os limites do visível” (GARDIES, 1993)

Bibliografia

    BAKHTIN, M. _Questões de literatura e de estética_. SP: Hucitec, 2014.
    BERNARDET, Jean-Claude. O vôo dos anjos. São Paulo: Brasiliense, 1991
    BORDWELL, D. Narration in the Fiction Film. Madison: UW Press, 1985.
    BORGES, C. Sobre a noção de três espaços no cinema. _Ars_, n.36, 2019.
    GARDIES, A. _Le récit filmique_. Paris: Hachette, 1993.
    LEFEBVRE, Martin. On Landscape in Narrative Cinema. _Canadian Journal of Film Studies_, v. 20, n. 1, p. 61-78, 2011.
    PUCCI JR., R. L. _Cinema Brasileiro Pós-Moderno_. P.Alegre: Sulina, 2008.
    RAMOS, Fernão P.; SCHVARZMAN, Sheila (orgs.). _Nova História do Cinema Brasileiro_. São Paulo: Sesc, 2018. 2v.
    ROCHA, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Cosac & Naif, 2003.
    SOUSA, S. N. R. _A Realidade Brasileira no Cinema_. Tese – PPGCOM/UFF, 2014.
    XAVIER, I. _O cinema brasileiro moderno_. SP: Paz e Terra, 2001.
    XAVIER, I. _Alegorias do subdesenvolvimento_. SP: Brasiliense, 1993.