Ficha do Proponente
Proponente
- Thiago Rodrigues de Almeida (UFPE)
Minicurrículo
- Thiago Rodrigues de Almeida é realizador e pesquisador de animação, graduado pela Universidade Federal de Pernambuco em Cinema e Audiovisual (2023). Autor de três curtas-metragens universitários em animação stop motion de papel: “Quando o infinito chega ao fim” (2022), “Central Tocaia” (2023) e “A Cachoeira dos Pássaros” (2023/2024). Atualmente é mestrando em Comunicação no Programa de Pós-Graduação da UFPE, onde pesquisa cinema de animação, com foco na técnica stop motion e no gênero horror.
Ficha do Trabalho
Título
- Pseudocumentário como crítica nostálgica: o horror animado em “La Casa Lobo”
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- “La Casa Lobo” é um pseudodocumentário chileno que explora o gênero do horror utilizando a técnica de stop motion como forma de crítica à nostalgia. Por meio de uma análise fílmica, investiga-se como a obra apresenta os horrores do passado a partir da estranheza da animação. Assim, buscando evidenciar uma crítica à nostalgia fascista, que ignora as atrocidades ocorridas, exposta no filme por meio de um horror artístico construído quadro a quadro.
Resumo expandido
- Na América Latina, abordar o passado é um trabalho constante de reabertura de feridas não resolvidas, especialmente no que diz respeito ao processo de colonização e ao período da ditadura militar, marcado pela violência e pelo autoritarismo. No entanto, há uma nostalgia, por parte da sociedade, em relação a esse passado, como se a vida fosse melhor antes. Ao refletir sobre essa visão idealizada, o autor Andreas Huyssen argumenta que a nostalgia, para algumas pessoas, “pode ser uma utopia às avessas. No desejo nostálgico, a temporalidade e a espacialidade estão necessariamente ligadas” (2014, p. 91). Na presença de líderes extremistas e conservadores na política e na mídia contemporânea, o passado frequentemente ressurge em seus discursos como um reduto de bons costumes e moralidade. Em contrapartida, um dos meios de expor os horrores cometidos nesses períodos por poderes autoritários e conservadores é o cinema. Em “La Casa Lobo”, cria-se um falso documentário que narra a descoberta de uma gravação perdida, encontrada em uma antiga vila localizada no sul do Chile, conhecida como Colônia Dignidad. Esse local realmente existiu e foi construído para abrigar militares e civis vindos da Alemanha no pós-Segunda Guerra Mundial, onde posteriormente ocorreram torturas, assassinatos e a atuação de uma seita macabra.
Realizado no Chile em 2018, o filme é um pseudodocumentário de horror animado em técnica de stop motion, dirigido por Cristóbal León e Joaquín Cociña. Construída como um conto que se assemelha a um pesadelo, a narrativa acompanha uma menina chamada Maria, que foge da colônia após deixar porcos escaparem, sendo punida com 100 dias de castigo. Ela encontra abrigo em uma casa, onde conhece dois porcos que, mais tarde, transformam-se em crianças. Ao redor da casa, um lobo as persegue. Embora não seja visível, sua presença é constante, tentando induzir Maria a sair, manipulando seus pensamentos e ações, levando-a a se enxergar como uma pessoa má, desvirtuada e merecedora de punição.
Na linguagem do cinema de animação, essa hibridização entre ficção e documentário, aliada ao uso da animação, permite trabalhar diferentes gêneros graças à sua versatilidade (Denis, 2010). Além disso, ao considerar animações artesanais, como a obra em questão, destaca-se a criação manual, que evidencia texturas, materialidade e sombras, conferindo um aspecto distinto das animações digitais (Graça, 2006), contribuindo para o estranhamento das cenas em “La Casa Lobo”. Diferentemente de outros falsos documentários realizados em live-action, essa obra não gera confusão com a realidade. Essa ausência de ambiguidade decorre tanto da desconstrução e do entendimento do que é um documentário e de seu formato animado na contemporaneidade (Serra, 2017), quanto da percepção de que objetos inanimados não se movem sozinhos, sendo a técnica do filme facilmente identificável pelo público (Purves, 2006).
Isso, porém, não compromete a crítica do filme, pois a repulsa e a agonia provocadas por sua construção estética criam um ambiente propício ao horror (Carroll, 1999); a câmera treme a todo instante; o som constrói uma atmosfera caótica e dá suporte às metamorfoses inquietantes dos cenários e das personagens; As crianças-porcos (latinas) são queimadas acidentalmente por fogo e ressuscitadas, após ingerirem mel alemão, como crianças loiras, brancas e de olhos azuis, tornando-se educadas e “boas”. Ao final, essas duas crianças amarram Maria e tentam comê-la viva.
A crítica emerge nos detalhes e na reflexão gerada pelas constantes distorções e transformações dos cenários e personagens. O horror moderno traz novos olhares e provocações sociais (Cánepa; Carreiro, 2025), e, em La Casa Lobo, manifesta-se como uma crítica ao conservadorismo, ao nazismo e às ditaduras por meio da estranheza (Freud, 1976) causada pela técnica stop motion, evidenciado na moralidade de um grupo que se considera superior, mas que revela um moralismo hipócrita e violento.
Bibliografia
- CÁNEPA, Laura Loguercio; CARREIRO, Rodrigo. Cinema de Horror: uma introdução. São Paulo: Gênio Editorial, 2025.
CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Tradução: Roberto Leal Ferreira. Campinas, SP: Papirus, 1999.
DENIS, Sébastien. O cinema de animação. Lisboa: Texto & Grafia, 2010.
FREUD, Sigmund. O estranho. Rio de Janeiro: Imago, 1976
GRAÇA, Marina Estela. Entre olhar e o gesto. Elementos para uma poética da imagem animada. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2006.
HUYSSEN, Andreas. Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais, politícas da memória. Rio de Janeiro: Contraponto – Museu de Arte do Rio, 2014.
PURVES, Barry. Stop-motion. Porto Alegre: Bookman, 2011.
SERRA, Jennifer Jane. A vida animada: (re)construções do mundo histórico através do documentário animado. Campinas, SP: [s.n.], 2017.