Ficha do Proponente
Proponente
- Fernanda Santana dos Santos (UFBA)
Minicurrículo
- Bacharel em Artes com ênfase em Cinema e Audiovisual (IHAC-UFBA) e Mestra em Estudos Étnicos e Africanos (POSAFRO-UFBA), onde defendeu, em 2025, a pesquisa “Olhares sobre cinema de mulheres negras: encruzilhadas, afetos e resistências”. Atualmente é doutoranda em Literatura e Cultura (UFBA), na linha Documentos da Memória Cultural, investigando o cinema de mulheres negras no Brasil a partir das performatividades, das estéticas das imagens e de seus procedimentos éticos.
Ficha do Trabalho
Título
- Fugir das armadilhas, construir armadilhagens: estéticas e éticas no cinema de mulheres negras
Seminário
- (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências
Resumo
- A comunicação propõe pensar com imagens a partir do cinema de mulheres negras no Brasil. Por meio de um exercício analítico implicado, mobiliza a noção de armadilhagem (Gadelha, 2020), para refletir sobre procedimentos estéticos e éticos dessas cineastas. Para tanto, analisa filmes como Cinema de Preto, Mumbi 7 cenas pós Burkina, Lápis de Cor, Kbela, entre outros, compreendendo-os como práticas radicais de imagear (Sharp, 2023) as vidas negras.
Resumo expandido
- Pensar com imagens não é um exercício neutro. É, antes, um gesto implicado. Um gesto que exige assumir o lugar de onde se olha e reconhecer que ver é sempre também ser afetada. É nesse movimento que esta comunicação se inscreve: pensar com imagens a partir do cinema produzido por mulheres negras no Brasil, tomando-as não como objetos de análise distanciada, mas como documentos que possibilitam encontros, tensões e elaborações de mundo. Nos últimos anos, esse cinema tem tensionado o campo audiovisual brasileiro. Entre curtas, médias e longas-metragens — ficções, documentários e experimentações —, as obras realizadas por mulheres negras não apenas evidenciam a pluralidade de experiências que constituem o país, mas incidem diretamente sobre os regimes de visualidade que historicamente organizaram o visível. Há, nesse movimento, uma reconfiguração em curso: das formas de produzir, de narrar e, sobretudo, de imagear (Sharp, 2023) as vidas negras. Diante dessas imagens, algumas perguntas persistem: como essas imagens propõem performatividades no interior da forma fílmica? Que estratégias estéticas e éticas são mobilizadas? E o que acontece quando o olhar que se debruça sobre elas também se reconhece implicado? Eu, como espectadora negra, não me coloco diante desses filmes em chave de distanciamento. Há algo que me convoca. Ver, aqui, é também responder. Esse gesto de leitura encontra ressonância no que bell hooks (2019) formula como olhar opositor: uma prática que recusa a passividade e reivindica a possibilidade de ver criticamente, tensionar e produzir outras imagens. Em diálogo, a noção de cinema negro no feminino, elaborada por Edileuza Penha de Souza (2020), permite situar um campo em que mulheres negras constroem imagens que fabulam, tensionam e reimaginam as vidas negras, ao mesmo tempo em que reordenam os regimes visuais dominantes, ainda que nem sempre de modo programático. Para pensar esses deslocamentos, recorro à noção de armadilhagem, conforme proposta por Juliano Gadelha (2020). A armadilha, historicamente associada a dispositivos de captura, é aqui reelaborada como “plano fugitivo”: não apenas um conceito, mas uma prática vital, um modo de tensionar os dispositivos que capturam e, simultaneamente, refazer seus mapas. No cinema, essa noção se desdobra como operação estética e ética. Não se trata apenas de fugir das armadilhas coloniais da representação estereotipada ou das imagens de controle, como formula Patricia Hill Collins (2019), mas de produzir, no interior das próprias imagens, outras condições de visibilidade. É nesse ponto que me detenho, em diálogo com filmes como Cinema de Preto (Danddara, 2004), Mumbi 7 cenas pós Burkina (Viviane Ferreira, 2010), Lápis de Cor (Larissa Fulana de Tal, 2014) e Kbela (Yasmin Thaina, 2015), dentre outros. Há, nessas obras, uma recusa à transparência e à centralidade da degradação como eixo organizador. Em seu lugar, emergem imagens que se aproximam, que demoram, que insistem — imagens que não se oferecem completamente e que mantêm zonas de opacidade. Chamo de armadilhagens essas operações que atravessam a forma fílmica: a descontinuidade, o deslocamento temporal, o corpo como arquivo, a recusa de uma legibilidade imediata. São gestos que não apenas escapam, mas que reconfiguram, instaurando desvios internos à própria linguagem. Há, aqui, também uma dimensão ética — não no sentido normativo, mas como compromisso com a ampliação do que pode uma mulher negra quando assume o controle narrativo. Longe de respostas únicas, o que esses filmes oferecem é um campo aberto de possibilidades: uma insistência na complexidade, na contradição e na imaginação. Este trabalho, portanto, se configura como um exercício analítico em elaboração. Mais do que oferecer respostas conclusivas, interessa-me acompanhar os movimentos dessas imagens, testar aproximações e sustentar perguntas.
Bibliografia
- FREITAS, Kênia; ALMEIDA, Paulo R.G. Diretoras Negras no Cinema Brasileiro. Catálogo Caixa Cultural. Org. Kênia Freitas e Paulo Ricardo G. de Almeida. 1ª Ed., Rio de Janeiro, 2017. p. 31-39.
GADELHA, José Juliano. Habitar a escuridão: materialidades negras, o olho e a quebra. CONCINNITAS (online) (RIO DE JANEIRO), v. 21, p. 127-152, 2020.
hooks, bell. Olhares negros: raça e representação. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2019
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpotela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
MOTEN, Fred. Na quebra: a estética da tradição radical preta. Tradução de Matheus Araujo dos Santos. São Paulo: Crocodilo; n-1 edições, 2023.
SHARPE, Christina. No vestígio: negridade e existência. Tradução de Jess Oliveira. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
SOUZA, Edileuza Penha de. Mulheres negras na construção de um cinema negro no feminino In: Aniki – Revista Portuguesa da Imagem em Movimento, v.7, n.1 p. 171‐188. 2020