Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    amanda iegli tech (ESPM-SP)

Minicurrículo

    Amanda Iegli Tech é jornalista, mestre em Sociologia (UFRGS) e doutoranda em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM-SP). Integra o Grupo de Pesquisa SENSE – Comunicação, Consumo, Imagem e Experiência.

Ficha do Trabalho

Título

    Arquivos do a-histórico: história potencial nos cinemas Guarani Mbya e Maxakali

Resumo

    O presente trabalho investiga de que modo cineastas indígenas contemporâneos produzem arquivos dissensuais aos arquivos imperiais, tomando como corpus os cinemas Guarani Mbya e Maxakali. A partir do diálogo entre a história potencial (AZOULAY, 2024) e os acontecimentos a-históricos (DE LA CADENA, 2010), argumenta-se que esses filmes não buscam reparação dentro da partilha do sensível hegemônica, mas propõem uma cosmopolítica que a excede, interpelando o documentário em seus fundamentos.

Resumo expandido

    O que acontece quando o real sai dos moldes, ontologicamente, do que consideramos como passível de verdade? Esta questão orienta o presente trabalho, que propõe investigar as transformações nas noções de arquivo fílmico indígena no Brasil a partir de uma perspectiva que articula história potencial (AZOULAY, 2024) e o acontecimento a-histórico (DE LA CADENA, 2010).

    As noções de arquivo atravessam de maneira constitutiva a história da presença indígena nas imagens em movimento no Brasil. Num primeiro momento, a imagem opera como instrumento de catalogação a serviço da Primeira República, vinculada a práticas museológicas e ao projeto civilizatório do Estado (DANTAS, 2025): trata-se de um arquivo colonial, etnográfico, no qual o indígena é objeto de imagens que o capturam. Num segundo momento, a partir de experiências como o Vídeo nas Aldeias, a câmera passa a ser compartilhada, instaurando um regime de mediação indigenista (LACERDA, 2018) e de co-criação; um arquivo cuja representação passa a ser construída junto dos filmados, mas ainda operado sob um regime de tradução para o sensível ocidental.

    Na contemporaneidade, no entanto, filmes realizados por cineastas indígenas como Ariel Kuaray Ortega e Sueli Maxakali e Isael Maxakali (junto de seus parceiros não-indígenas) nos colocam diante de um momento qualitativamente distinto: a construção de um arquivo que não parece buscar tradução ou reparação e que, dialogando com Ariella Azoulay, produz histórias potenciais de acontecimentos que, apesar de nossa tentativa, enquanto espectadores, de entendê-los como mito ou ficcionalização de um acontecimento fundador de suas origens e crenças, se tratam, na verdade, de um desentendimento ontológico.

    Os escritos de Marisol De La Cadena (2024) sobre os seres-terra nos tensionam, enquanto pesquisadores de cinemas indígenas, a questionarmos nossa pressa em buscar, nas imagens, traduções diretas, frestas na partilha do sensível. Trata-se, portanto, de romper ontologicamente com nossas separações modernas entre natureza e humanidade. Entretanto, como a própria autora propõe: “de que maneira seria capaz o a-histórico — aquilo que não possui parte alguma do sensível — re-partilhar o sensível?” (p.487).

    O que esses cinemas fazem não é, portanto, rasgar a partilha do sensível de dentro, mas propor uma cosmovida que a excede e a desafia sem precisar confrontá-la nos seus próprios termos. Trata-se, assim, de um movimento duplo: por um lado, a construção de registros de acontecimentos até então classificados como a-históricos; por outro, a produção de um arquivo ontologicamente dissensual aos arquivos imperiais, que Azoulay nos convida a ler como história potencial. Interessa-nos, portanto, compreender quais os procedimentos estéticos, narrativos e imagéticos que operam essa dissensualidade: de que modo esses filmes confundem as noções clássicas de documento? Como os seres e temporalidades não-humanos são tratados não como recurso simbólico, mas como agentes históricos da imagem? Que tipo de questionamento tais filmes promovem em relação ao que “se espera” de um cinema indígena — inclusive em relação ao cinema de temática indígena quando realizado sem cineastas indígenas?

    Para isso, buscamos estabelecer um diálogo entre os cinemas de Ariel Ortega e Sueli Maxakali e o quadro teórico da história potencial, que contribui, no limite, para uma cosmopolítica dos cinemas indígenas contemporâneos. Por fim, buscamos contribuir para o debate sobre arquivos, decolonialidade e cinema, propondo que o cinema indígena contemporâneo não apenas amplia o campo do documentário, mas o interpela em seus fundamentos ontológicos.

Bibliografia

    AZOULAY, Ariella Aisha. História potencial: desaprender o imperialismo. São Paulo: Ubu Editora, 2024.

    BRASIL, André. Bicicletas de Nhanderu: lascas do extracampo. Devires – Cinema e Humanidades, v. 9, n. 1, p. 98-117, 2012.
    DANTAS, Geyzon Bezerra. Ciência e espetáculo: registros e práticas cinematográficas sobre povos indígenas brasileiros nos anos 1910. ILUMINURAS, v. 26, n. 70/1, p. 174-195, 2025.
    DE LA CADENA, Marisol. Seres-Terra: cosmopolítica em mundos andinos. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2024.
    FELIPE, Marcos Aurélio. Políticas e práticas de arquivação nas cinematografias indígenas: arquivo e contra-arquivo em perspectiva. E-Compós, 2025.
    LACERDA, Rodrigo. O cinema indígena colaborativo do Vídeo nas Aldeias e o patrimônio cultural imaterial. 2018.
    MBEMBE, Achille. O poder do arquivo e seus limites. Tradução de Camila Matos, 2022. Disponível em: https://memoriayficcao.wor