Ficha do Proponente
Proponente
- Juliana Santoros Miranda (UAM)
Minicurrículo
- Juliana Santoros Miranda é fotógrafa, jornalista, mestra e doutoranda em Comunicação pelo PPGCOM/UAM e se encontra em conclusão de período de doutorado-sanduíche no departamento de Antropologia Cultural da Universiteit Utrecht. Pesquisa a representação do povo curdo em coberturas da comunicação e produções audiovisuais e integra os grupos “Imagens em Conflito: Estética e Política no Cinema do Oriente Médio” (Grupic/UAM) e “Núcleo de Pesquisa Interdisciplinar em Estudos Curdos” (Nupiec/PUC-MG).
Ficha do Trabalho
Título
- Arquivos em itinerância: montagem e soberania visual curda em Guerrilla Archive (2024)
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- A pesquisa analisa o filme Guerrilla Archive (2024) e o acervo de Setar Faithi sobre a resistência curda no Irã. Investiga como a imagem técnica, na diáspora, atua como agenciamento político, constituindo um território de soberania visual. Através da remontagem crítica e do cinema de laboratório, o arquivo torna-se memória viva e coletiva. O estudo foca na materialidade do rastro e na resistência dessa visualidade contra apagamentos, afirmando o direito de narrar a própria história via imagens.
Resumo expandido
- A presente proposta investiga o documentário Guerrilla Archive (2024), dirigido por Chowra Makaremi, Shahrzad Mojab e Setar Faithi, centrando-se no acervo iconográfico de Faithi. Militante do Komala, partido fundado em 1969 por líderes estudantis e intelectuais em Teerã, Faithi documentou a insurgência contra a instauração da República Islâmica do Irã após 1979, convertendo a prática fotográfica em um gesto de resistência política. A pesquisa problematiza processos de arquivamento fundamentando-se no conceito de agenciamento estético e político (Mello, 2016). Questiona-se de que maneira a imagem técnica, ao ser desterritorializada e movida para a diáspora, assume uma função constituinte de um “lugar” cuja soberania geográfica é sistematicamente negada. Sob essa perspectiva, a imagem técnica deixa de ser um dado passivo para se tornar uma força que, através da remontagem, tensiona a história e desloca o registro visual para o campo da intervenção política. Distanciando-se do uso meramente ilustrativo do arquivo para uma confirmação do real, o filme estabelece uma remontagem crítica que não apenas documenta a luta, mas a agencia como potência formal, ultrapassando a função documental tradicional. Configura-se, assim, um cinema de laboratório (Brenez, 2014), no qual a montagem não é uma constatação de mundo, mas uma forma de produzir outras visualidades. Faithi, ao admitir sua condição de fotógrafo não-profissional e os erros técnicos cometidos até o aperfeiçoamento de seu trabalho ao longo das práticas fotográficas, produz uma imagem-rastro (Dubois, 1993), aberta a sucessivas ressignificações. O conjunto reexamina o passado curdo não enquanto evento encerrado, mas como uma memória visual viva que sobrevive às tentativas de apagamento estatal-imperial. A análise se detém, portanto, sobre a condição desterritorializada desses registros na diáspora: diante da negação do território físico do Curdistão iraniano pelo Estado, a sobrevivência dessa memória passa a depender estritamente da mobilidade e da itinerância de seus suportes. O incidente das fotografias dispersas sobre a neve no Canadá materializa o que Arlette Farge (2009) define como o sabor do arquivo, instância em que o rastro é uma presença tátil e afetiva. Essa materialidade precária do suporte, longe de ser uma perda, é o que convoca o espectador a um engajamento ético e físico do guardião, tornando o arquivo um local de relações em movimento. O gesto de Faithi ao carregar essas fotos em painéis de protesto (e em transmissões online em redes sociais) configura uma história potencial (Azoulay, 2024), ao reativar o que está no arquivo aguardando para ser mobilizado. A constituição de uma comunidade de cinema (Guimarães, 2015) manifesta-se na natureza coletiva do acervo. Ao reconhecerem o gesto documental de Faithi, civis passaram a enviar-lhe suas próprias fotografias, transformando o acervo em um nó de memórias comuns que transcende a posse individual desses arquivos. Além das imagens de batalha, esse potente processo de autoexpressão e registro da intimidade produz uma visualidade construída em espaços de convivência e resistência cotidiana. O doméstico torna-se o último reduto da soberania visual e da projeção de corpos políticos (Schäfers, 2020; 2022), onde mães lavam lençóis de sangue e enterram mártires nos jardins de suas casas por interdição estatal. Tais práticas reivindicam o direito de narrar a própria história. Organizar, divulgar e exibir um acervo, neste contexto, se constitui como exercício de soberania alternativa frente aos ataques contínuos dos Estados-nação. Metodologicamente, o trabalho ampara-se na análise fílmica voltada aos procedimentos de montagem e na articulação teórica entre estética e micropolítica. Conclui-se que o gesto da remontagem permite que o arquivo curdo funcione como agenciamento de um mundo e nação/etnia que insiste em resistir e desafiar tentativas de apagamentos, por meio da partilha e da insistência em existir por meio das imagens.
Bibliografia
- AZOULAY, Ariella A. História potencial: desaprender o imperialismo. São Paulo: Ubu, 2024.
BRENEZ, Nicole. Cada filme é um laboratório. Entrevista. Revista Cinética, 2014.
DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas: Papirus, 1993.
FARGE, Arlette. O sabor do arquivo. São Paulo: Edusp, 2009.
GUIMARÃES, César. O que é uma comunidade de Cinema. Revista Ecopós, v. 18, n. 1, 2015.
MAKAREMI, Chowra; MOJAB, Shahrzad; FAITHI, Setar. Guerrilla Archive. 2024.
MELLO, Jamer Guterres de. Agenciamentos estéticos e políticos no audiovisual contemporâneo: imagens de arquivo na obra de Harun Farocki. Tese (Doutorado em Comunicação) – UFRGS, Porto Alegre, 2016.
SCHÄFERS, Marlene. Voices that Matter: Kurdish Women and the Politics of Self-Expression in Turkey. Chicago: University of Chicago Press, 2022.
SCHÄFERS, Marlene. Projecting a Body Politic: Photographs, Time, and Immortality in the Kurdish Movement. Material Temporalities, [S. l.], 2020.