Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Letícia Gomes de Assis (UFSCar)

Minicurrículo

    Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), na linha de História e Políticas do Audiovisual, com a pesquisa “Trajetórias do curso de Cinema da Universidade de Brasília (1965-2002): pensamentos e práticas cinematográficas”, financiada pela FAPESP. É graduada (2018) e mestra (2023) em Imagem e Som pela mesma universidade. Integra o grupo de pesquisa Audiovisual na América Latina: Economia e Estética.

Ficha do Trabalho

Título

    O Curso Profissional de Cinema na Universidade de Brasília (1970-1972)

Resumo

    O trabalho recupera a trajetória do ensino de Cinema na UnB entre os anos de 1970 e 1972, quando o curso é retomado após sua interrupção em 1965. A partir da reconstituição da experiência e da análise dos filmes Vestibular 70 e Brasília Ano 10, realizados através do curso, discuto como aprofundamento da repressão política após o AI-5 atravessou pensamentos e práticas de ensino de Cinema na UnB, consolidando a produção de curtas-metragens documentais como um de seus principais eixos de atuação

Resumo expandido

    Em 1965, a Universidade de Brasília (UnB) esteve entre as primeiras Instituições de Ensino Superior a implantar um curso regular para a carreira de Cinema no Brasil. A iniciativa, no entanto, foi interrompida no mesmo ano de sua implementação, devido ao aprofundamento da crise instaurada na universidade com o golpe civil-militar de 1964.
    Após a suspensão das atividades do curso, ações ligadas à difusão da cultura cinematográfica seguiram ocorrendo em Brasília, em diálogo, mas sem vinculação direta com a universidade. Esta retomada teria sido conduzida, a princípio, por Jean-Claude Bernardet, em 1968, que “permaneceu na chefia do Departamento [de Cinema e Fotografia] tendo como monitor o ex-aluno Paulo Roberto Tourinho e como novos professores os cineastas Maurício Capovilla e Fernando Duarte” (Universidade, 2018, p. 18). Nesse mesmo ano, as mobilizações estudantis contra o aparato repressivo intensificam-se nacionalmente e, na UnB, culminam em uma invasão policial ocorrida em 29 de agosto, quando a Polícia Militar, amparada pelo Exército, matou um estudante e deixou diversos feridos[1] (Motta, 2014, p. 97). No fim de 1968, Bernardet e Capovilla deixam o curso, sendo sucedidos pelo ingresso de Cecil Thiré e Vladimir Carvalho como docentes do departamento (Universidade, 2018, p. 18). Neste período, estrutura-se o “Curso Profissional de Cinema”, sob a coordenação de Vladimir Carvalho, contando também com o já mencionado Fernando Duarte, além de Geraldo Sobral Rocha, aluno do curso de 1965 e presidente do Clube de Cinema de Brasília (Universidade, 2018, p. 19).
    A ênfase na produção de documentários permaneceu como traço importante do curso de Cinema tanto em 1965 como nos anos 1970, observável através de sua produção cinematográfica centrada neste formato. Entre os filmes deste período, destacam-se Vestibular 70 (Vladimir Carvalho e Fernando Duarte, 1970) e Brasília Ano 10 (Geraldo Sobral Rocha, 1970), que seguiam o modelo da única produção realizada através do curso em 1965, Fala Brasília (Nelson Pereira dos Santos, 1966), na qual um docente dirige o filme assistido por alunos.
    Vestibular 70 (1970) registra a realização do exame para ingresso na UnB em 1970, reunindo mais de cinco mil candidatos e candidatas de diversas regiões do país. O documentário articula entrevistas em voice over à imagens do dia de realização da prova, conferindo à narrativa, através da trilha sonora e musical que articula sons eletroacústicos e a presença da canção Os Argonautas, conferindo ao filme certo tom de ironia e melancolia diante da euforia dos estudantes que se preparam para um futuro incerto em contexto de repressão.
    Brasília Ano 10 (1970), realizado em comemoração ao décimo aniversário da cidade, é outro curta documental que se dedica à representação da capital. O filme justapõe trechos de textos do filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre, do arquiteto Lúcio Costa e da carta de Pero Vaz de Caminha, compondo a banda sonora de forma a costurar tal locução como ilustração e contraponto às imagens da cidade, que registram atividades oficiais das festividades.
    Proponho discutir esta experiência refletindo sobre a forma como o aprofundamento da repressão política, após o Ato Institucional nº 5 (AI-5), atravessou os pensamentos e práticas de ensino de Cinema na UnB. Argumento que, neste contexto, a produção de curtas-metragens documentais se consolidou como prática central de investigação da realidade social, sustentando que ambos os filmes deste período materializam jogos de acomodação e resistência (Motta, 2014) próprios do contexto universitário sob a ditadura.

Bibliografia

    LAGNY, M. Cine y historia: problemas y métodos en la investigación cinematográfica. Barcelona: Bosch, 1997.
    MONFRINI, A. A fase brasiliense do cinema de Vladimir Carvalho: um projeto de história e memória popular para Brasília. 2023. Dissertação (Mestrado em Meios e Processos Audiovisuais) – ECA/USP, 2023. DOI: 10.11606/D.27.2023.tde-15082023-113500.
    MORICONI, S. Cinema – Apontamentos para uma história. Brasília: Instituto Terceiro Setor, 2012.
    MOTTA, R. P. S. As universidades e o regime militar: cultura política brasileira e modernização autoritária. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
    SALMERON, R. A. A universidade interrompida: Brasília 1964-1965. 2. ed. Brasília: Editora UnB, 2007.
    SILVA, L. R. A formação em Cinema em Instituições de Ensino Superior Brasileiras. 2004. Dissertação (Mestrado) – ECA/USP, 2004.
    SOUZA, J. I. M. Paulo Emílio no paraíso. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.
    UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Plano Político-Pedagógico: Habilitação Audiovisual. Brasília: FAC/UnB, 2018.