Ficha do Proponente
Proponente
- Huli de Paula Balász (USP)
Minicurrículo
- Doutoranda em Meios e Processos Audiovisuais (USP), pesquisa estratégias políticas e estéticas de desarticulação de opressões na obra de Eunice Gutman na redemocratização brasileira, com foco em experimentação e arquivo. Mestra em Imagem e Som (UFSCar), investigou relações intermidiáticas entre cinema e performance no documentário. Bacharela em Cinema e Audiovisual (UFPel), tratou do irrepresentável na ficção e montou o curta Deus (2016). Escreveu e dirigiu Podados (2015) e Anhanguera, 92 (2025)
Ficha do Trabalho
Título
- Só no carnaval (1982): um aceno da redemocratização brasileira para um mundo sem fim
Resumo
- Investiga-se as realizações da cineasta Eunice Gutman nos primeiros anos da redemocratização brasileira, buscando compreender suas contribuições para a reflexão sobre gênero. A partir da análise de Só no carnaval (dirigido com Regina Veiga, 1982), e com breves incursões em Tempo de ensaio (1986) e Mulheres: uma outra história (1988), a pesquisa examina em que medida foram mobilizadas estratégias políticas e estéticas para abordar as opressões de gênero sem recorrer a audiovisualidades desiguais.
Resumo expandido
- Este trabalho se propõe a analisar como as realizações de Eunice Gutman ao longo de décadas fazem parte do audiovisual brasileiro que vem reinventando mundos. Para tanto, investiga-se as realizações audiovisuais da cineasta nos primeiros anos da redemocratização brasileira, buscando compreender suas contribuições para a reflexão sobre questões de gênero. A partir da análise de Só no carnaval (dirigido com Regina Veiga, 1982) e com breves incursões em Tempo de ensaio (1986) e Mulheres: uma outra história (1988), a pesquisa examina as estratégias estéticas e políticas mobilizadas para representar questões de gênero sem recorrer à reprodução explícita do sofrimento. O estudo articula as tensões entre estética e política e incorpora reflexões teóricas sobre identidade e gênero, a partir da noção de performatividade de Judith Butler.
Atualmente há uma grande preocupação com a preservação da memória audiovisual de mulheres, considerando um contexto em que poucas obras feitas por mulheres receberam cuidados arquivísticos sistemáticos. Nas últimas décadas, os estudos sobre as realizadoras audiovisuais da redemocratização brasileira têm destacado a relevância das mulheres na produção cultural, considerando tanto o contexto de efervescência política e cultural a partir dos anos 1980 (HAMBURGER, 2022) quanto as persistentes desigualdades de gênero no setor cinematográfico e audiovisual (HOLANDA, 2020). Nesse contexto ganha destaque o curta-metragem Só no Carnaval (Eunice Gutman; Regina Veiga, 1982), um documentário de 13 minutos gravado em 35mm e que apresenta o Bloco das Piranhas no subúrbio carioca da Penha, onde homens se vestem de mulher com fantasias e maquiagens feitas por suas esposas. A obra contrapõe essa realidade, em um segundo momento, com cenas da Banda de Ipanema, formada por travestis da Zona Sul, bairro nobre da cidade, cuja presença gera reações diversas, incluindo críticas e indignação de espectadores.
O filme se estrutura em dois principais momentos, no primeiro deles vemos esses foliões no bloco das Piranhas, que compartilham depoimentos sobre a experiência de se vestir de mulher para celebrar algo que brincam ocorrer “só no carnaval”. Nos estandartes, aparecem dizeres como “Piranha Geni”, “Piranha Top-Less” e “Piranha Paloma”. As fantasias dos foliões, que incluem algumas crianças, meninos e meninas, algumas delas acompanhadas por mulheres não fantasiadas, revelam, tanto a figura da mulher comum, com seios de pano, quanto personagens variadas: mulheres vintage, misses, trabalhadoras domésticas ou donas de casa e grávidas, sendo uma delas uma noiva com um vestido branco e curto.
No segundo segmento aparece o bloco da Banda de Ipanema, maior e mais diverso, marcado pela presença LGBT e onde desfilam em grande parte pessoas cuir, drags queen e travestis. Os gestos, nesse segmento, são mais marcados e definidos; as indumentárias, muito mais coloridas, opulentas e chamativas, como se essa composição estivesse mais ao alcance por já integrar, de alguma forma, o cotidiano desses foliões.
O primeiro bloco, ainda que festivo e despretensioso, revela um nicho restrito que flerta com um espírito autoritário. O segundo, por sua vez, mais antigo e diverso, encarna melhor o espírito festivo e democrático do carnaval, refletindo também o clima do início da década de 1980, um momento de reabertura política no Brasil.
Imagens de arquivo são exibidas como registros de carnavais passados, em que aparecem fotos desde 1913 com homens se vestido de mulher, pontuando a longevidade da prática e encerrando o filme num tipo de celebração esperançosa, ao rememorar um tempo não tão longínquo à década de 1980 e ao mesmo tempo acenando para os novos tempos políticos que voltariam a se abrir.
Bibliografia
- BUTLER, Judith. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
ESPERANÇA, Hanna. Diretoras brasileiras e a representação da mulher em documentários dos anos 1980. 2020. UFSCar, 2020.
HAMBURGER, Esther. Desigualdades sociais, a crise da democracia e o audiovisual. Ñawi: arte diseño comunicación, Vol. 6, núm. 2, 85-103, 2022.
HOLANDA, Karla. Por que não existiram grandes cineastas mulheres no Brasil? Dossiê Imaginações rebeldes: Disputas e derivações da artepensamento feminista. Cadernos Pagu, 2020
HOLLANDA, Heloísa Buarque de. Introdução. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2019
VIEIRA, Sophia. Pajubá: a linguagem secreta entre travestis e mulheres trans em tempos de repressão. Jornal da USP, 2025.
VILELA, Letícia. O cinema documental de Eunice Gutman: feminismo e política no Brasil dos anos 1980. Trabalho de conclusão de curso. UFJF, 2019.