Ficha do Proponente
Proponente
- Esther Degen (UFF)
Minicurrículo
- Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (PPGCine-UFF) e graduada em Comunicação Social com ênfase em Publicidade e Propaganda pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ). Sua pesquisa aborda a potência sensorial da construção sonora de filmes classificados como Horror Corporal (Body Horror) com foco na afetação do corpo do espectador na direção de sensações de nojo e abjeção.
Ficha do Trabalho
Título
- Ossos que soam, corpos que sentem: maternidade, abjeção e materialidade sonora em Huesera (2022)
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- O presente trabalho analisa Huesera (2022) a partir dos recursos excessivos presentes no corpo fílmico que conduzem o espectador à associação do horror à pressão social da maternidade. Se debruça ainda sobre tendências estilísticas sonoras do gênero de terror, como o uso de sons acusmáticos e leitmotivs de efeitos sonoros, articulando os conceitos de sujeito cinestésico, abjeção, auralidade háptica e materialidade sonora à afetação do nojo, pensando como a afetação se dá no corpo do espectador.
Resumo expandido
- O presente trabalho faz parte de uma investigação mais extensa atualmente sendo realizada no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense, cujo enfoque é o potencial da banda sonora de mobilização do espectador na direção de afetos como nojo e abjeção em filmes do subgênero conhecido como horror corporal (body horror).
A análise de Huesera (2022), uma produção méxico-peruana e primeiro longa de Michelle Garza Cervera, é valiosa por se tratar de uma obra que aborda a maternidade sob uma lente diferente da de costume em filmes de Horror. Além disso, oferece a oportunidade de se debruçar sobre um exemplo do uso de filmes de um subgênero em firme ascensão para a realização de críticas sociais, bem como sobre seu potencial de mobilização sensorial do público na direção do horror. O trabalho parte da observação dos recursos excessivos presentes nas múltiplas instâncias audiovisuais que compõem o corpo fílmico com base no conceito de excesso desenvolvido por Baltar (2012). Nesse sentido, destaca as recorrentes referências e representações de aranhas presentes na cenografia do filme, pensando a profunda associação da aranha ao feminino e à maternidade. Entende-se que a reiteração do ícone da aranha configura um recurso excessivo comum em filmes de terror e que serve para “conduzir todos os elementos que compõem a tessitura do discurso fílmico para um mesmo ponto de convergência” (BALTAR, 2012, p. 135), que, em Huesera, opera na lógica pedagógica de associar o horror à pressão social da maternidade.
Pensando que a construção desses sentidos perpassa o engajamento afetivo do espectador através dos múltiplos componentes da obra fílmica (BALTAR, 2012) e a centralidade dos efeitos sonoros na modulação do afeto, conforme discutido por Carreiro (2019), o estudo se debruça sobre a banda sonora do filme. Examina-se como o efeito sonoro de estalos de ossos, associado à entidade monstruosa do filme, a “Huesera”, desde sua primeira aparição, adquire, pelos princípios de síncrese e valor agregado de Chion (2019), uma carga semântica de abjeção no sentido de Kristeva (1982). A entidade Huesera é figura do cadáver, exemplo máximo de abjeção, do que o sujeito precisa expulsar para existir, e o som de ossos que estalam e se quebram passa a comunicar essa abjeção de forma autônoma. O uso acusmático dos efeitos sonoros de estalos opera não apenas como leitmotiv da entidade monstruosa, mas também como ferramenta de afetação sensorial, inscrevendo a abjeção e o horror no corpo do espectador antes mesmo que a figura apareça em quadro.
A análise mobiliza então as noções de sujeito cinestésico (SOBCHACK, 2004), auralidade háptica (COULTHARD, 2012) e materialidade sonora (BIRTWISTLE, 2010) para argumentar que o som em Huesera, mais que comunicar significados, atua diretamente sobre o corpo do espectador, produzindo sensações táteis. A atenção a sequências específicas do filme demonstra como texturas sonoras – particularmente as que se associam com materialidades de natureza orgânica e molhada – operam na produção de nojo, como pensado por Kolnai (2003). Nesse caso, a escuta se desloca do plano semântico para uma percepção das qualidades sonoras em si, aproximando-se da noção de “objeto sonoro” (SCHAEFFER, 2017) e evidenciando a autonomia material do som. O conjunto dessas análises revela como Huesera aciona o corpo do espectador na direção da abjeção e do nojo a fim de subverter as convenções do horror sobre maternidade para fazê-lo recair sobre a própria norma social que impõe a maternidade às mulheres.
Bibliografia
- BALTAR, Mariana. Tessituras do excesso: notas iniciais sobre o conceito e suas implicações tomando por base um Procedimento operacional padrão. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, v. 39, n. 38, p. 124–146, 2012.
BIRTWISTLE, Andy. Cinesonica: Sounding Film and Video. Manchester: Manchester University Press, 2010.
CARREIRO, Rodrigo. Por uma teoria do som no cinema de horror: padrões recorrentes de estilo. Ícone, Recife (UFPE), v. 17, n. 3, p. 251-269, 2019.
COULTHARD, Lisa. Haptic aurality: resonance, listening and Michael Haneke. Film-Philosophy, v. 16, n. 1, 2012, p. 16-29.
KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. New York: Columbia University Press, 1982.
KOLNAI, Aurel. “Disgust”. In. KORSMEYER, Carolyn; SMITH; Barry. (Orgs). On Disgust. Chicago and La Salle: Open Court. 2003.
SOBCHACK, V. Carnal Thoughts: Embodiment and Moving Image Culture. Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 2004.