Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Artur Renzo (FFLCH-USP)

Minicurrículo

    Artur Renzo é doutorando em Estudos Culturais pela FFLCH-USP, onde desenvolve pesquisa sobre cinema estadunidense sob orientação de Marcos Soares. Mestre e bacharel em Filosofia (USP), possui graduação em Cinema (Faap). Editor e tradutor, integra o conselho editorial da revista Margem Esquerda.

Ficha do Trabalho

Título

    Barry Lyndon e o capitalismo gângster

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Barry Lyndon como filme de gângster? Embora raramente abordado por esse viés, o filme de Stanley Kubrick compartilha com o gênero evidentes afinidades formais e temáticas. Esta comunicação propõe fazer uma leitura do longa no contexto da crise de legitimação dos anos 1970 e da concomitante retomada do filme de gângster pela Nova Hollywood, a fim de discutir sua possível atualidade à luz do debate contemporâneo sobre a “gangsterização” do capitalismo.

Resumo expandido

    Barry Lyndon (1975) permanece uma espécie de incógnita para a fortuna crítica materialista de Stanley Kubrick. Fredric Jameson sintetiza bem essa perplexidade ao confessar mais de uma vez seu estranhamento diante da aparente “gratuidade” da escolha do século XVIII europeu como ambientação, mesmo admitindo tratar-se de um “grande filme” (Jameson, 1980 e 2022). Para o crítico, essa inadequação delineia um problema de figuração histórica que o diretor enfrenta de maneira mais consequente em seu filme seguinte, O iluminado (1980). No entanto, pode ser produtivo interrogar a historicidade de Barry Lyndon a partir de seu filme anterior. Afinal, Laranja mecânica (1971) apresenta uma estrutura bipartite que reaparece em Barry Lyndon: a ascensão e queda de um protagonista à margem da ordem estabelecida, em um percurso de formação mediado pela criminalidade. Se o filme de 1971 projeta um futuro distópico marcado pela delinquência e pela anomia, o de 1975 retrocede às vésperas da Revolução Francesa para revelar, por baixo do fino verniz idealista e romântico das pinturas de época, uma sociedade inescrupulosa igualmente regida por violência, rapina e fraude.

    Dez anos depois, em um ensaio famoso, Charles Tilly recorreria à imagem do crime organizado para descrever a formação dos Estados modernos; e são numerosos os paralelos traçados entre a ascensão de práticas de acumulação por espoliação a partir dos anos 1970 e a chamada acumulação primitiva que caracterizaria os primórdios do capitalismo (Harvey, 2004). Se estudiosos têm se debruçado sobre Laranja mecânica como reflexão sobre o desmanche do Estado de bem-estar social e a incorporação da rebeldia contracultural dos anos 1960 na violência da virada neoliberal (Soares, 2016; Martins, 2019), talvez faça sentido ler também o filme de 1975 a partir desse mesmo quadro das afinidades entre Estado e crime organizado, tornadas agudas em momento de crise. Seria, portanto, a desagregação do pacto social do pós-guerra o pretexto para essa figuração das bases violentas constitutivas do Estado moderno no século XVIII?

    Entre o lançamento de Laranja mecânica e Barry Lyndon ocorre também um fenômeno decisivo para as décadas seguintes do cinema estadunidense: O poderoso chefão. Não deixa de ser sintomático que o sucesso de bilheteria de 1972 (e 1974) que redefiniria os rumos da Nova Hollywood seja justamente um filme de gângster. Além de impulsionar uma nova onda de franquias, os longas de Coppola devolveram centralidade a um gênero cuja forma clássica, consolidada nos anos 1920 e 1930, girava em torno da ascensão e queda de um outsider – figura que Robert Warshow caracterizou como o herói trágico americano. No plano estético, a aproximação remonta ao menos à peça A resistível ascensão de Arturo Ui, idealizada por Brecht em 1941 para satirizar o Terceiro Reich por meio de uma analogia com o gangsterismo da Chicago dos anos 1930.

    A proposta de interrogar Barry Lyndon a partir desse campo de referências também atina com a tração que a ideia de “capitalismo gângster” vem ganhando no século XXI, diante da ascensão de regimes ditos “iliberais”, como recurso para explicar o estilo e o apelo de figuras como Trump e Bolsonaro. Recentemente, Martin Jay recuperou a atualidade da teoria frankfurtiana dos rackets à luz de O irlandês (2019), de Scorsese. Na televisão e nos streamings, o fascínio duradouro pelo gênero permanece visível em produtos culturais como The Sopranos (1999-2007) e Peaky Blinders (2013-2022) – seriados que além de somarem milhões de espectadores no mundo todo, também suscitam formas particularmente intensas de identificação e culto em torno de seus protagonistas. À maneira da leitura exemplar de Jameson sobre O poderoso chefão, o desafio é tentar decifrar nos produtos culturais de massa não apenas sua “função ideológica” como também sua “função transcendente”.

Bibliografia

    ARANTES, Paulo. “Arturo Ui”, Extinção. São Paulo, Boitempo, 2007, pp. 193-7.
    JAMESON, Fredric. Signatures of the Visible. Nova York, Routledge, 1992.
    _____. “War as a Rhizome”, LRB, v. 44, n. 15, 4 ago. 2022.
    JAY, Martin. “The Age of Rackets? Trump, Scorcese and the Frankfurt School”. Immanent Critiques. Londres, Verso, 2023, p. 115-133.
    HARVEY, David. “The ‘new’ imperialism: accumulation by dispossession”. SocialistRegister, n. 40, 2004, pp. 63-87.
    MARTINS, Luiz Renato. “O triste fim do Welfare State: a parábola de Kubrick”, CríticaMarxista, n. 48, p.9-17, 2019
    NOCHIMSON, Martha. Dying to Belong: Gangster Movies in Hollywood and Hong Kong. Londres, Blackwell, 2007.
    SORAES, Marcos. “A crítica à mercantilização do dissenso em Stanley Kubrick”, Socine, 2016.
    TILLY, Charles. “War Making and State Making as Organized Crime”. Bringing the State Back. Cambridge UP, 1985, pp. 169-91.
    WARSHOW, Robert. “The Gangster as Tragic Hero” [1949]. The Immediate Experience. Nova York, Atheneum 1970.