Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Andrey Rodrigues Chagas (UFRJ)

Minicurrículo

    Doutor e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura (linha Tecnologias da Comunicação e Estéticas) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Possui Graduação em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Possui graduação em Administração pela Faculdade Pan Amazônica (2010-2013). Pesquisa: Relações de gênero, sexualidades e raças na Amazônia; Relações culturais afro-indígenas; memória e arquivo; territorialidades e subjetividades Amazônidas.

Ficha do Trabalho

Título

    Corpo arquivo: bichas confabulando para criar memórias e desejos.

Resumo

    O presente trabalho busca uma análise sobre a ausência, presença e um construção corporificada de bichas na produção de vídeos biográficos e curtas, onde a dissidência seja não apenas uma fissura, mas um processo de tornar esses corpos como primeiro plano de uma memória viva, desejos e vontades.

Resumo expandido

    Memória e corpo como arquivo são peças fundamentais para conseguirmos construir outro modo de olhar para corpos de bichas ainda pouco vistos em telas, falo de corpos dissidentes que fogem das regras da sexualidade, violência ou mesmo do modo operacional de se estar no mundo (heterossexual), longe da caricatura ou mesmo do apelo do corpo másculo, seja na hipersexualização ou na rejeição. Falo de uma produção onde a bicha esteja no exercício do cotidiano da vida, na plenitude de sua presença e na vivacidade de sua memória, um corpo que se faz visível desde a história desse mundo, antes mesmo da heterossexualidade. Assim, esse trabalho propõe uma reflexão sobre essa ausência/presença através de construções de imagens/vídeos autobiográficos e escavatórios de memória sobre os desejos vivos que fazem parte da trajetória de uma bicha, como também um registro de histórias/narrativas do existir daquelas que vieram e estão e as possibilidades que moviam seus sorrisos. Partindo do documentário A Morte Branca do Feiticeiro Negro (2020) de Rodrigo Ribeiro, proponho uma reflexão acerca da presença, ausência e construção de uma corporeidade bicha atrelada a expansão de suas vidas e narrativas. Em A morte branca do feiticeiro negro, nos deparamos com a ausência e destruição da memória, um apagamento e soterramento dos corpos negros/racializados do Brasil, o documentário nos faz encarrar os fragmentos dos arquivos de uma memória e imagens de arquivos para narrar o silenciamento de corpos negros em diáspora. Em um primeiro movimento há um resgate de memória e imagens que deem conta de narrar um outro lugar de desejo, registros que compunha para uma narrativa dissidente, também analisar alguns curtas e produção de vídeos onde a corporeidade bicha ou dissidente esteja presente, como em o Babado da Toinha – a baiana que faz seu dendê (2020) de Sérgio Bloch, onde Toinha narra sua história até a feitura de seu acarajé, exercitando um lugar outro de possibilidade e vontade, também no curta Bailão (2009) de Marcelo Caetano, onde o corpo não perde sua dimensão viva e material, pelo contrário se posta em dançar e viver a cidade. Um segundo movimento é a fabulação critica através de registros autorais e arquivos, um vídeo-ensaio através de imagens/fotografias que narrem vontades e desejos bichas, que fale de bicha no tempo, dessa forma os arquivos se chocam para produzir memórias vivas. A escolha de a morte branca do feiticeiro negro é uma fenda, uma aposta em fazer memórias e romper arquivos como força de produção de outros significantes, aqui que as corporeidades bichas, principalmente bichas racializadas sejam produtoras de outras narrativas e imagens dissidentes delas mesmas. Como fazer imagens emergirem de outras imagens?
    Juntos as análises dos curtas/documentários/vídeos e produção de vídeo-ensaio, autores que ajudam a construir essa reflexão e exercício de deslocamento são Leda Maria Martins e Saidiya Hartman, Chistina Sharpe, Néstor Perloguer, Virginie Despentes e outros, pensando corpo, performance, tempo e arquivo, sexualidades e modos de operar a vida.

Bibliografia

    CHAGAS, Andrey Rodrigues. Bicha preta o que nos conta?. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Cultura). UFRJ, Rio de Janeiro, 2020.
    CVETKOVICH, Ann. An Archive of Feeling: Trauma, Sexuality and Public Feelings. Durham: Duke University Press, 2001.
    DESPENTES, Virginie. Teoria King Kong. Tradução Márcia Bechara – São Paulo: n-1 edições. 2016.
    HARTMAN, Saidiya. Perde a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. 1. Ed. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
    MARTINS, Leda Maria. Performance do Tempo Espiralar. In: RAVETTI, Graciela; ARBEX, Márcia (Org.). Performance, Exílio, Fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Belo Horizonte: Faculdade de Letras/UFMG, 2002. P. 69-91.
    PERLONGHER, Nestor Osvaldo. O negócio do michê: prostituição viril em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1987.
    POLLAK, Michel. A homossexualidade masculina, ou: a felicidade no ghetto? In: Sexualidades Ocidentais. Lisboa: Contexto. 1987.