Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gabriel de Souza Vieira (PPGCine-UFF)

Minicurrículo

    Gabriel de Souza Vieira é mestrando no PPGCine-UFF, onde desenvolve, sob a orientação da Professora Doutora Lúcia Ramos Monteiro, sua pesquisa sobre cinema brasileiro contemporâneo, dentro do campo dos Estudos Comparados, investigando as relações espectrais e hauntologicas de imagem e som no cinema brasileiro do capitalismo tardio. É bacharel em Cinema também pela UFF, com seu trabalho de conclusão de curso: ”Habitar as Ruínas – fantasmas, distopia e revolução no cinema de Adirley Queirós”.

Ficha do Trabalho

Título

    Fantasmas do Neoliberalismo Brasileiro: Processos Hauntologicos no Cinema Brasileiro Contemporâneo

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    A comunicação a ser apresentada tem como objetivo, a partir da metodologia dos Estudos Comparados do cinema, relacionar e analisar processos estéticos e formais de um grupo de filmes do cinema contemporâneo brasileiro, partindo de Mato Seco em Chamas (2022) de Adirley Queirós e Joana Pimenta, e indo ao encontro de outras obras que lidam com a noção de hauntologia na sua representação, conceito proposto por Jacques Derrida e desenvolvido por Mark Fisher.

Resumo expandido

    A comunicação tem o objetivo de traçar paralelos estéticos, estilísticos e formais entre um grupo de filmes do cinema brasileiro contemporâneo a partir da utilização do conceito de Hauntologia. A Hauntologia é um termo elaborado por Jacques Derrida em 1993 em seu livro Espectros de Marx: o estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional e depois desenvolvido e ampliado como ferramenta de leitura das mídias e da cultura por Mark Fisher em seu livro de 2014 Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão, assombrologia e futuros perdidos. A figura central de estudo da Hauntologia é o espectro e suas representações, de maneira que o espectro é visto como uma manifestação não-física, porém observável das contradições do mundo contemporâneo do capitalismo tardio, do neoliberalismo e do pós-fim da história. Olhar para os espectros, essa coisa que existe na ausência, que existe sem existir, pela visão de Derrida e também de Fisher, é uma forma de compreender o estado do tempo do mundo contemporâneo e as formas como surgem representações sensoriais, estéticas e formais dessas contradições, que mesmo quando gritantes parecem se apresentar sob um véu, seja esse véu da ideologia, do progresso ou do avanço tecnológico. Tentar olhar através desse véu da realidade pode revelar onde se esconde algo assustador, que assombra o mundo, mas também algo que possa desconstruí-lo para reconstruí-lo. Partindo da Hauntologia e seu foco nas assombrações do mundo neoliberal de capitalismo tardio, é possível trazer à luz duas propostas as quais esta comunicação se propõe a fazer: primeiro utilizar a Hauntologia para olhar para o cinema, que nas palavras de Derrida é a arte fantasmagórica por natureza, mas que para além disso, em termos culturais e econômicos, representa uma incontestável força de disputa cultural e das tensões de classe da sociedade, seja no que que está no filme, como no que está fora dele; segundo, virar o olhar para os países onde o neoliberalismo tem sua forma mais agressiva e assustadora: os países de economia dependente, o sul global, a margem do sistema, as colônias do imperialismo. Desta maneira, essa comunicação se propõe a juntar essas duas perspectivas para pensar o cinema contemporâneo brasileiro olhando para um grupo de filmes que foram escolhidos a partir de uma curadoria em que se buscou processos de representação que podem ser lidos pela chave hauntológica, e dessa maneira, parecem evidenciar as contradições do capitalismo tardio e do neoliberalismo no Brasil, na periferia do sistema. Neste grupo, um filme centralizou os horizontes inicialmente, como se fosse o objeto mais denso ao qual os outros gravitam em torno. Este filme foi Mato Seco em Chamas (2022), de Adirley Queirós e Joana Pimenta. A partir dele, outros filmes se colocaram em órbita neste processo curatorial apontando conexões, pontes e reflexões possíveis como A Morte Branca do Feiticeiro Negro (2020) de Rodrigo Ribeiro-Andrade, Sombras de Macumba na Luz da Memória (2024) de Mysteryo e O Agente Secreto (2025) de Kleber Mendonça Filho, em que as contradições da realidade brasileira, tais como a brutal desigualdade de classe que só cresce, o genocídio sistemático da população negra desde o período da escravidão até a atuação assassina da polícia militar hoje, a ditadura militar como um trauma coletivo e abertura para o neoliberalismo brasileiro, o desenvolvimento da nação que nunca veio, a promessa de um futuro que não chegou, entre outros anseios sociais que neste grupo de filmes parecem terem sido elaborado em processos estéticos e estilísticos que podem ser reconhecidos como espectrais e hauntológicos, tal como a memória enquanto fantasma materializado no arquivo, a distopia como reflexo do mundo atual, a ruínas do fim do mundo e o fantasma propriamente dito, a ausência encarnada, a presença do que não esta lá. Esta comunicação procura elaborar sobre esses temas e esses espectros.

Bibliografia

    BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo, São Paulo: Companhia das Letras, 2003

    DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx: o estado da dívida, o trabalho do luto e a nova Internacional. Tradução de Anamaria Skinner – Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

    DERRIDA, Jacques. Jacques Derrida e os fantasmas do cinema. Entrevista para Cahiers du Cinéma, v. 556. p. 74-85, 2001

    FISHER, Mark. Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão,
    assombrologia e futuros perdidos. Tradução de Guilherme Ziggy – São Paulo: Autonomia Literária, 2022.

    RAMOS MONTEIRO, Lúcia. Remaking a European, Post-catastrophic Atmosphere in 2000s China: Jia Zhangke’s Still Life, Iconology and Ruins. In: CinémaS, v. 25, n. 2-3, 2015, p. 97-117.

    SOUTO, Mariana. Constelações fílmicas: um método comparatista no cinema. 2019. Galáxia, n. 45, 2020.

    SOUTO, Mariana. 2019. Infiltrados e Invasores: Uma perspectiva comparada sobre relações de classe no cinema brasileiro. Salvador: EDUFBA. 252 pp