Ficha do Proponente
Proponente
- Ana Patricia de Aguiar Almeida (UAM)
Minicurrículo
- Ana Patricia, paraibucana nascida no Recife e criada em João Pessoa, é fotógrafa esportiva desde 2011, atuando com o Comitê Olímpico do Brasil e o Comitê Paralímpico Brasileiro. Desde 2018, trabalha em São Paulo como freelancer e produtora audiovisual. Fotografou eventos como as Olimpíadas de Paris 2024 e Rio 2016. Formada pela Universidade Federal da Paraíba, atua em festivais e com restauração de filmes. Atualmente é bolsista no curso de mestrado em comunicação na Universidade Anhembi Morumbi.
Ficha do Trabalho
Título
- Olympia e a Invenção da Estética Esportiva: Corpo, Técnica e Política em Leni Riefenstahl
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Esta proposta analisa como o filme Olympia (1938), de Leni Riefenstahl, fundou a gramática visual da representação esportiva contemporânea. Através da análise do “corpo greco-germânico”, investiga-se a articulação entre inovações técnicas — como a câmera lenta e o ângulo em contre-plongeé — e a ideologia da perfeição física. O trabalho verifica como essas características estéticas até hoje estão presentes nas obras audiovisuais esportivas.
Resumo expandido
- O filme Olympia foi lançado em duas partes: Olympia 1. Teil — Fest der Völker ( Festival das Nações ) e Olympia 2. Teil — Fest der Schönheit ( Festival da Beleza ). As obras foram concebidas para documentar os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 e são amplamente reconhecidas como o marco inaugural da estética esportiva no cinema.
A obra, dirigida por Leni Riefenstahl, não é apenas uma obra documental, ela também é um marco para a narrativa audiovisual da cobertura esportiva. A proposta desta comunicação é analisar como o corpo em cena foi utilizado como um dispositivo de estetização que, embora servisse a um projeto político do regime nazista, consolidou padrões visuais utilizados até hoje na representação dos esportes.
Em Olympia, o corpo é um fator de idealização da realidade. A introdução do filme que traz um diálogo visual entre a Antiguidade Grega e o ideal germânico, no que Sontag (1986, p.78) enumera como um dos temas da estética fascista. A produção da obra foi financiada pelo regime nazista e mesmo assim não se pode negar seu valor documental, que apresenta momentos contrários ao que se idealizava no regime nazista, como as vitórias do atleta Jesse Owens, um homem negro norte-americano que foi vitorioso em quatro provas do atletismo: 100m, 200m, salto em distância e revezamento 4x100m e foi um dos grandes destaques da competição.
Susan Sontag (1986) define a busca estética de uma “sacerdotisa da beleza”, onde a perfeição física é elevada a um estatuto mítico e heroico. Esse corpo é atravessado pelo conceito de agón — a vontade de superar limites físicos e temporais através do sacrifício e do esforço. A representação da perfeição física sob o regime nazista proibia a exibição de imperfeições, criando nus que funcionavam como fantasias de um erotismo idealizado e “espiritualizado” em benefício da comunidade.
A inovação da estética esportiva em Olympia deve-se ao culto do corpo utilizando de ângulos em contre-plongeé para monumentalizar os atletas contra o céu, como por exemplo nos planos da prova de Cavalo com Alças, da ginástica masculina, anulando o referencial do solo e sugerindo que os corpos poderiam voar.
Outro elemento central é o uso da câmera lenta, técnica que permite visibilizar tensões musculares e expressões de esforço que escapariam ao olho humano. Conforme Maya Deren (2012, p. 142) observa: “Dependendo do assunto e do contexto, ela pode ser afirmação tanto de estado ideal ou incômoda frustração, um tipo de meditação íntima e amorosa num movimento ou uma solenidade que acrescenta peso ritual a uma ação.”. Essa técnica fundamenta, até os dias atuais, o conceito de replay e a valorização sensorial da plasticidade do movimento nas transmissões esportivas.
A estetização do esporte em Olympia criou metáforas para o corpo bélico, tratando a competição como um espetáculo de honra, virtude e ode ao corpo e suas altas capacidades. Essa “estética fascista”, centrada no controle, no esforço extravagante e na submissão do corpo a padrões grandiosos, permanece presente em diversas obras do audiovisual contemporâneo que glamorizam o herói atlético e o sofrimento para atingir um objetivo maior.
Leni Riefenstahl estabeleceu a gramática visual que o cinema e a televisão utilizam para narrar as competições esportivas, onde o corpo, espaço e tecnologias estão unidos para produzir uma experiência audiovisual que ultrapassa o contexto político original da obra.
Bibliografia
- BARBOSA, Adriana S. A teoria crítica e o cinema de propaganda totalitária. Intexto, 2026.
DEREN, Maya. Cinema: o uso criativo da realidade. Devires, Belo Horizonte, v. 9, n. 1, 2012.
FERREIRA, Fernanda Martins. Olympia, o triunfo do corpo. 2002. Monografia (Bacharelado em Comunicação Social) – UFJF, Juiz de Fora, 2002.
NICHOLS, Bill. La Representación de la Realidad. Barcelona: Paidós, 1997.
SONTAG, Susan. Sob o signo de Saturno. São Paulo: L&PM, 1986.
XAVIER, Ismail (Org.). A Experiência do Cinema. Rio de Janeiro: Graal; Embrafilmes, 1983.
XAVIER, Ismail. O Discurso Cinematográfico: a opacidade e a transparência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.